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2020: o ano em que vivemos na bolha

Seria inimaginável que a humanidade fosse forçada a isolar-se em casa, numa escala sem precedente. Agora, as pessoas querem sua vida de volta

Por Julia Braun Atualizado em 24 dez 2020, 08h46 - Publicado em 24 dez 2020, 06h00

O advento do smartphone, burro de carga das onipresentes redes sociais, levou às últimas consequências uma deficiência social — o excesso de individualismo, de pessoas fechadas em si mesmas e no mundo irreal da convivência eletrônica. Nos últimos anos, humanistas de todos os calibres gastaram saliva e digitação na pregação do mantra: saiam de casa, olhem em volta, conversem olho no olho, troquem abraços e gestos de afeto. Neste esquisitíssimo 2020, contudo, o bem-intencionado conselho foi inexequível. A ordem, no universo em pandemia, é cada um na sua bolha — até Papai Noel precisou se confinar na Lapônia, usar o delivery para entregar presentes e limitar o contato com as crianças a comunicações via Zoom e através de plástico. Isolar-se e restringir as interações ao celular, tablet e laptop virou sinônimo de fazer a coisa certa. Esconder a expressão atrás de uma máscara, gesto teatral que já representou indiferença e frieza, é postura compulsória, insuflada e explicada pela ciência.

De tudo o que se viu recentemente que nunca se tinha visto antes, a imagem da humanidade inteira usando máscara é a que ficará cravada para sempre na memória, quase um logotipo do ano da pandemia. Em questão de poucos meses, o impacto desse minúsculo pedaço de tecido na vida das pessoas pode ser comparado a outras unanimidades passadas: teve época em que todos usavam chapéu, teve aquela mais recente em que não se saía de casa sem relógio de pulso e tem a de agora, com nariz, boca e queixo — e o sorriso, como faz falta o sorriso — escondidos sob a máscara. Do rosto de médicos, enfermeiros e dentistas, os únicos a se proteger com ela no Ocidente (no Oriente, outras epidemias já haviam popularizado seu uso), a máscara pulou para a política. Em uma das polarizações mais estapafúrdias deste ano sem igual, não usá-la passou a significar não se dobrar diante da doença desconhecida, não dar a ela mais importância do que merecia, não cair na lábia dos arautos do fim do mundo — não ser “maricas”, enfim, como riu o presidente Jair Bolsonaro, ridiculamente. Pois é: muita gente caiu nessa, e ainda cai.

Com as estatísticas na cabeça e as pesquisas científicas não mão, ficou provado para quem quiser enxergar que a máscara é a barreira mais eficiente contra o vírus diabólico, ao bloquear as gotículas que a fala e a respiração espalham e os aerossóis que circulam no ar em espaços fechados. “O novo coronavírus é transmitido por via respiratória, então não há prevenção mais eficiente conhecida do que cobrir a boca e o nariz”, reitera o infectologista José Angelo Lindoso, da USP. Calcula-se em todo o mundo um aumento de 90% nas vendas de máscaras descartáveis neste ano, sem contar as reutilizáveis, que viraram ga­nha-pão de marcas conhecidas e de artesãos em toda parte. Grifes como Burberry, Louis Vuitton e Gucci lançaram itens exclusivos, a preços nas alturas. A peça produzida por uma joalheria em Israel, feita de 250 gramas de ouro e incrustada com 3 600 diamantes, foi vendida a um colecionador de arte chinês por 1,5 milhão de dólares.

Exageros comerciais à parte, fugir de aglomerações e cobrir o rosto continuará sendo providência-padrão durante um bom tempo, por mais que não se aguente mais os desgastantes protocolos anti-Covid-19. Até quando sem restaurante, sem cinema, sem ceia de Natal, sem abraço? Este incomparável 2020, no entanto, se encerra com a expectativa de uma vacina, qualquer vacina, que dobre definitivamente para baixo a curva dos contágios. E a esperança de que a humanidade, devidamente imunizada, possa de novo chegar perto de Papai Noel e escancarar um belo sorriso.

Publicado em VEJA de 30 de dezembro de 2020, edição nº 2719

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