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Uma praga americana

Deportações e execuções extrajudiciais não acabaram com a violenta gangue salvadorenha Mara Salvatrucha. Pelo contrário

Por Leonardo Coutinho, de Washington - 8 jun 2018, 06h00

Com 10 000 membros nos Estados Unidos e envolvimento em crimes brutais como decapitações e esquartejamentos a machadadas, a gangue Mara Salvatrucha, ou MS-13 (“mara” quer dizer grupo, “salva” é uma referência a El Salvador, e “trucha”, malandro), tem provocado duas reações por parte do governo americano, ambas fadadas ao fracasso. A primeira é a extradição de seus membros para El Salvador e outros países da América Central. Neste ano, o presidente Donald Trump escolheu a pressão contra o bando, formado principalmente por imigrantes e seus descendentes, como o símbolo do endurecimento das leis migratórias e tratou seus integrantes como “animais”. A segunda reação veio à tona no fim de maio, quando a rede CNN revelou que um relatório da Organização das Nações Unidas apresentará denúncias de que as forças policiais de El Salvador, financiadas e treinadas pelos americanos, teriam realizado 43 execuções de membros do grupo.

Qualquer tentativa de liquidar com violência os mareros, como são chamados os membros dessas gangues, será infrutífera. Para cada um deles em solo americano, há dez na América Central. Além disso, a deportação não pode ser a solução para acabar com o grupo porque, a rigor, a diáspora está em sua origem. Nos anos 1980, dezenas de milhares de salvadorenhos fugiram da guerrilha que aterrorizou o país. Ao chegarem aos Estados Unidos, eles se aglutinaram nos locais onde já existiam comunidades de compatriotas. Ameaçados por turmas violentas de mexicanos e de jamaicanos, os salvadorenhos passaram a se integrar aos bandos criminosos de sua nacionalidade. Mais tarde, começaram a recrutar pessoas de Honduras e Guatemala. “Como também havia militares e guerrilheiros entre os que fugiam da guerra em El Salvador, esses homens amplificaram o grau de violência das gangues nos Estados Unidos”, diz Robert Evans Ellis, professor de estudos latino-americanos no War College do Exército americano. Não demorou para que os mareros se tornassem uma população expressiva em alguns presídios. A estrutura que imperava nas ruas foi reproduzida dentro das celas. Tal como viria a acontecer com o PCC no Brasil, a MS-13 vendia proteção nas cadeias e passou a funcionar como um quartel-general, despachando do interior das prisões.

Em 1996, o então presidente Bill Clinton aprovou uma reforma nas leis migratórias que permitiu a deportação de milhares de imigrantes com registro criminal. É a mesma legislação que tem sido utilizada pela administração Trump. Em um único ano, Clinton chegou a despachar para El Salvador, Guatemala e Honduras pelo menos 20 000 criminosos. Mas os governos locais não receberam os prontuários dos bandidos. Por esse motivo, eles foram tratados como imigrantes comuns e ficaram livres. Em pouco tempo, dominaram as organizações locais e passaram a atrair crianças e ex-combatentes. El Salvador tornou-se um dos países mais violentos do mundo, com uma taxa de homicídios que chegou a 104 por 100 000 habitantes em 2015 — três vezes maior que a brasileira, que em 2016 atingiu o recorde histórico de trinta por 100 000.

Desde 2015, 516 membros da MS-13 foram presos e condenados nos Estados Unidos por homicídio, tráfico de drogas e extorsão. O número de deportações desses criminosos não para de aumentar. Há casos de alguns bandidos que voltaram a ser presos nos Estados Unidos apenas 72 horas depois de deportados. “Eles têm as próprias redes de coiotes e linhas de tráfico. Enviá-los para fora do país é algo totalmente ineficaz”, diz Douglas Farah, especialista em segurança e estudioso do fenômeno. Segundo ele, o medo que os sem-documento têm de ser deportados dos Estados Unidos criou um terreno fértil para a expansão e o fortalecimento da MS-13 e de outras organizações criminosas especializadas em extorquir dinheiro de minorias. “As pessoas não querem mais chamar a polícia para delatar crimes. Elas preferem se sujeitar aos membros das gangues, pois temem ser descobertas e postas para fora dos EUA”, diz Farah. É uma praga americana.

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Publicado em VEJA de 13 de junho de 2018, edição nº 2586

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