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Um mundo próximo das páginas de ficção

No planeta conectado, os monitores inundam as ruas, as redes sociais escancaram a privacidade de milhões de pessoas e os robôs ganham status

Por Carol Castro - 17 ago 2018, 07h00

Imagine uma sociedade na qual os habitantes podem ser inteiramente monitorados por meio de câmeras. Em que robôs andam pelas ruas e, através de uma rede universal que alcança todos os seres humanos, observam o que cada um faz, em casa ou no trabalho. Nessa mesma sociedade, androides já superaram a capacidade lógica do homem, vencendo-o em jogos mentais. No passado, escritores como o inglês George Orwell (1903-1950), autor do clássico 1984, e o russo-americano Isaac Asimov (1920-1992), de Eu, Robô, descreveram cenários distópicos compostos de elementos assim, futuristas. Em 2018, não é mais preciso ter a imaginação dos ficcionistas. Essa é a realidade — por vezes virtual — em que vivemos.

O maior exemplo desse novo quadro realista vem da China. Atualmente, estão espalhados pelo país 170 milhões de câmeras de vídeo controladas pelo governo. A maioria delas é dotada de um software de inteligência artificial (IA) capaz de reconhecer a face de uma pessoa, cruzá-la com imagens de bancos de dados e, assim, indicar, por exemplo, se o indivíduo cujas feições estão sendo analisadas é alguém com antecedentes criminais que, no momento, se encontra foragido da Justiça. O sistema chinês, dizem as autoridades de lá, já se provou efetivo em diversas situações — apesar de testes no Ocidente mostrarem que a taxa de acerto ainda seria bem inferior à prometida pelo governo, de 80%, chegando mesmo a apenas 10%. Um desses raros casos veio a público em abril. Em um show do astro pop Jacky Cheung, em Nanchang, as câmeras do Partido Comunista detectaram, através de reconhecimento facial, um foragido em meio a uma plateia de 50 000 pessoas. Ele foi preso durante o concerto.

À primeira vista, a tecnologia pode parecer conveniente. Afinal, com ela é possível evitar crimes e capturar bandidos. Basta, porém, reler um daqueles romances citados no início da reportagem para constatar que esse tipo de controle não tem apenas virtudes. Em 1984, a autocracia que tomava conta da Inglaterra fictícia de Orwell apoiava-se em recursos similares — na trama, a população era rastreada por câmeras acopladas a televisores, as teletelas — para perseguir aqueles que não concordavam com os desmandos do ditador Grande Irmão (sim, o Big Brother).

Na China contemporânea ocorre algo parecido. O governo autoritário de Pequim obriga todos os chineses com mais de 18 anos de idade a realizar um cadastramento facial. O rosto de cada um é, então, associado à respectiva ficha criminal (caso a pessoa tenha uma) e a informações variadas, tais como estado civil, local de nascimento e histórico de multas. No processo, um determinado indivíduo pode ser avaliado como um potencial traidor. Seu destino, então, corre o risco de imitar o de Winston Smith, o protagonista de 1984: ao se rebelar, e ser identificado, o personagem é preso e torturado.

Por ser moralmente neutra, uma tecnologia pode, é óbvio, servir para o bem ou para o mal. Enquanto a China utiliza a tecnologia para controlar a massa, nos países do Ocidente sua aplicação, em geral, visa a controlar o bolso. Ou seja: produzir o máximo de lucro possível. “Plataformas como o Google e o Facebook faturam de forma antiética: empregam algoritmos para violar a privacidade de usuários e, ainda, manipulam a ordem dos posts exibidos com o propósito de vender anúncios”, opina o antropólogo brasileiro Rodrigo Ochigame, pesquisador da área de IA do prestigiado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA.

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DISLIKE – Zuckerberg, do Facebook, no Congresso dos EUA: explicações sobre o uso indevido de dados sigilosos de usuários Jim Watson/AFP

Em março deste ano vieram à tona as graves consequências da lógica descrita por Ochigame. Descobriu-se que o Facebook permitira que uma consultoria política inglesa, a Cambridge Analytica, tivesse acesso a dados privados de 87 milhões de usuários da plataforma. Pior: as informações foram cedidas a terceiros, que, divulgando fake news, influenciaram eleitores a votar em Donald Trump nas eleições presidenciais de 2016. O mesmo aconteceu no Reino Unido durante o debate sobre o Brexit, que acabou aprovado, selando a saída do país da União Europeia. O episódio evidenciou a dimensão da ameaça à democracia quando a IA é capaz de compilar dados com a intenção de manipular decisões. O caso tomou tamanha proporção que o americano Mark Zuckerberg, criador e CEO do Facebook, teve de se explicar — prometendo medidas para evitar a repetição de episódios semelhantes — a senadores e deputados americanos e europeus. A consultoria, por sua vez, fechou as portas.

Softwares de redes sociais estão hoje tão habilitados a escancarar a privacidade de todos nós que, segundo calculou o cientista da computação polonês Michal Kosinski, conseguem, pela análise de tão somente setenta “curtidas” no Facebook, conhecer mais sobre o perfil de uma pessoa do que os amigos dela. Com um banco de 300 curtidas, a IA iria muito além: saberia mais do comportamento de um indivíduo do que ele mesmo.

Superadas essas preocupações, que afetam a liberdade individual e a própria democracia, são enormes as vantagens que tais inovações podem trazer. Carros autônomos, dirigidos por soft­wares, estão perto de integrar a rotina das cidades. Vão contribuir, dessa forma, para a redução do número de veículos nas ruas, simplificando o trânsito e diminuindo os danos ambientais causados pela emissão de CO2. Na área médica, dispositivos de IA conectados à internet são usados para realizar diagnósticos, monitorar pacientes e auxiliar médicos em diversas funções, inclusive em cirurgias. O Hospital 9 de Julho, em São Paulo, vem testando câmeras dotadas de sensores de movimento a fim de detectar se algo incomum ocorreu num quarto — a queda de um paciente, por exemplo —, para acionar rapidamente os enfermeiros.

ENTRE NÓS – A ginoide Sophia, cidadã saudita, agora já pode andar Tomasz Wiech/AFP

São múltiplos também os benefícios de aparelhos do tipo smart (dotados de internet e inteligência artificial). Não é à toa que hoje existem 21 bilhões desses dispositivos em todo o planeta (três para cada humano), os quais produzem 2,5 quintilhões de bytes de informações diariamente. Há desde smartphones comuns até incrementadas geladeiras. “As máquinas entendem cada vez mais a nossa linguagem e assim agem para nos auxiliar”, diz o engenheiro indiano Sandeep Gupta, do Google.

Num mundo povoado também por robôs inteligentes, a questão-chave é saber como conviveremos com eles. Essa relação, na verdade, já começa a se moldar. Tome-se o caso de Sophia, a mais célebre ginoide do planeta. No ano passado, ela foi oficialmente declarada cidadã da Arábia Saudita. No início de 2018, além de bater um papo com o ator Will Smith — que em 2004 protagonizou uma adaptação para as telas de Eu, Robô —, ganhou mais uma funcionalidade: dotada de pernas, Sophia agora caminha. Ou seja, logo vamos deparar com essas criaturas desfilando entre nós. Nesse futuro, tão próximo, como os seres humanos vão interagir com as máquinas inteligentes? Leia sobre isso na reportagem a seguir.

Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596

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