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Um final previsível

'O Voto do Brasileiro', que chega às livrarias, aposta que não há espaço para o novo na política e que PT e PSDB continuarão a duelar pela Presidência 

Diante da implosão da classe política nacional, analistas dos mais diferentes espectros têm repetido à exaustão o mantra de que essa será a eleição presidencial mais imprevisível desde 1989. Fala-se muito em “cenário turvo”, que “não dá para saber quem vai ganhar” e em “disputa totalmente em aberto”. Com lançamento previsto para o dia 18, o livro O Voto do Brasileiro, do cientista político Alberto Carlos Almeida, vai na direção contrária à desse raciocínio. Para o autor, é muito provável que o país repita o padrão dos pleitos de 2006, 2010 e 2014, quando o Nordeste votou em peso nos candidatos do PT, e o Centro-Sul, sobretudo São Paulo, acompanhou os postulantes apresentados pelo PSDB. Na sua visão, a tendência eleitoral no país está cristalizada. Ou seja: mesmo com importantes variações de emprego, renda, taxas de câmbio e de juros, inflação e crescimento do PIB ao longo da última década, o eleitor apertou o botão “confirma” de maneira absolutamente previsível. “Cada uma das três eleições foi muito diferente, porém seus mapas de votação são muito semelhantes”, afirma o autor. “Isto é: apesar do que há de aleatório, de ano para ano, ocorre algo de sistemático em nossas eleições.”

O voto do Brasileiro, de Alberto Carlos Almeida (Editora Record; 280 páginas; R$ 59,90)

O voto do Brasileiro, de Alberto Carlos Almeida (Editora Record; 280 páginas; R$ 59,90) (//Divulgação)

Entre vermelhos e azuis, o autor divide o mapa eleitoral contemporâneo em dois polos principais. O maior é o Nordeste petista, que em 2014 foi responsável por 27% dos votos válidos. Ele é antagonizado por São Paulo, fortaleza tucana que abocanha 23%. De acordo com o livro, alguns fatores ajudam a explicar a estabilidade do desenho. O mais importante deles, e aqui não há surpresas, é a renda. Quanto pior o nível socioeconômico, maior é a penetração petista. Isso porque os mais pobres tradicionalmente votam em legendas de centro-esquerda, que dão prioridade ao Estado como agente indutor da atividade econômica e têm a luta contra a igualdade de renda como discurso oficial. Já as classes média e alta preferem seguir a centro-direita, que prega menor regulação governamental para catapultar a economia.

 (Arte/VEJA)

Nem sempre foi assim. Na esteira da estabilidade trazida pelo Plano Real, Fernando Henrique Cardoso coloriu o Nordeste com o azul tucano em 1998, vencendo logo no primeiro turno. A vantagem foi mantida quatro anos depois, na disputa entre José Serra e Lula. O que mudou? A chegada do Bolsa Família. No primeiro ano do governo Lula, em 2003, o ex-presidente fez do programa a marca registrada de sua administração. A transferência de renda irrigou de forma inédita a economia de rincões sertanejos e periferias das capitais. E solidificou sua aprovação no eleitorado mais pobre, que se sente dependente do governo para a manutenção do bem-estar. É como se o PT tivesse encontrado um nicho de mercado para atuar e fidelizar seu público sem que houvesse concorrência. A sigla pôde, assim, utilizar um arsenal de benefícios que inclui ainda as cotas, o Luz para Todos e o Prouni. Já a classe média paulista, que rejeita a iniciativa e depende menos do governo, prefere seguir com o partido que defende uma gestão mais profissional nas contas públicas.

Na salada de 35 legendas registradas pelo Tribunal Superior Eleitoral, o PT e o PSDB se alternam no Planalto desde 1994. São as duas forças que dominam a política brasileira na Nova República. Isso acontece porque, uma vez no poder, ambos foram competentes em costurar uma rede de apoio e capilaridade que os alçou a essa condição. Pode-se dizer que, dessa forma, os projetos tucano e petista se enraizaram com tamanha profundidade que passaram a reproduzir aqui a polarização típica de nações mais desenvolvidas. Na Espanha, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e o Partido Popular (PP) se alternam no poder desde a queda da ditadura de Francisco Franco, há 43 anos. Na Alemanha, o duopólio entre a conservadora democracia cristã e o Partido Social-Democrata tem sete décadas. E o mais famoso embate partidário do planeta, entre republicanos e democratas, nos Estados Unidos, é ainda mais longevo: remonta a 1853. Romper com essa barreira é muito difícil.

O roteiro sem surpresas sugerido por Almeida parece cada dia mais provável. Nomes alheios à cena tradicional, os chamados outsiders, estão pulando fora da corrida um após o outro. Primeiro o apresentador Luciano Huck e, mais recentemente, o ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa. Na visão do autor, há certa vantagem para a esquerda. Mesmo preso, Lula deve transferir boa parte do seu capital eleitoral para outro candidato da legenda. Por ora, o único fator capaz de complicar a equação PT-PSDB parece ser o deputado Jair Bolsonaro. De acordo com Almeida, o ex-militar é um desafio para a direita, já que rouba votos de Alckmin. Oriundo do nanico PSL, no entanto, Bolsonaro pode repetir fenômenos já vistos em outras eleições. Almeida cita dois exemplos de candidatura da terceira via que inflaram e murcharam na mesma velocidade: Ciro Gomes, pelo PPS, em 2002, e Marina Silva, no PSB, em 2014. A explicação, nesses casos, é o tamanho descomunal do país. Só PT e PSDB têm se mostrado eficientes em pôr de pé uma rede nacional de apoio. Faltando cinco meses para a eleição presidencial, é difícil antecipar se a tese do autor está correta. Apenas as urnas têm a resposta. Mas, com Alckmin patinando nas pesquisas e o PT insistindo na candidatura de um preso, não se pode negar que é uma tese ousada.

Publicado em VEJA de 23 de maio de 2018, edição nº 2583

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