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Todos saíram perdendo

Repressão aos catalães que foram votar em referendo pegou mal para o governo espanhol

O referendo sobre a independência da Catalunha, realizado no domingo 1º, terminou pior do que começou, com disparos de balas de borracha e mais de 800 cidadãos e 33 policiais feridos. Eleitores, inclusive idosos, foram empurrados, chutados e agredidos com cassetetes, numa repressão que chocou pela brutalidade. Alguns chegaram a ser arrastados pelos cabelos e jogados escada abaixo pela tropa de choque, enviada a Barcelona e arredores com a missão de impedir a realização da consulta. No final, dos 2,2 milhões de votantes, 90% disseram sim à independência da região, que responde por 20% do PIB espanhol embora concentre apenas 15% da população total.

As cenas de agressão pesaram contra o primeiro-ministro Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), que na véspera se viu impelido a fazer algo contra o referendo, declarado ilegal pelo Tribunal Constitucional. “Se a ideia dele era deslegitimar o voto, Rajoy podia apenas ter se limitado a não reconhecer o resultado, no que seria apoiado pelos demais partidos de sua coalizão”, diz o pesquisador belga Steven Blockmans, do Centro para Estudo de Políticas Europeias, em Bruxelas. Em vez disso, mandou descer a bordoada — e já perdeu o apoio do Partido Nacional Basco, de uma região em que o orgulho separatista também é forte.

Para os independentistas catalães, o balanço também não foi positivo. Cerca de 58% dos eleitores da Catalunha ficaram em casa e não foram votar. “Entre 70% e 80% apoiaram a realização do referendo, mas só 40% querem de fato a independência”, afirma a cientista política espanhola Astrid Barrio, da Universidade de Valência. A abstenção foi maior na cidade de Barcelona, a mais cosmopolita e, portanto, menos nacionalista. “Barcelona é lar de milhares de espanhóis não catalães, europeus do Leste, latino-americanos e da maior comunidade muçulmana na Espanha. As pessoas têm medo de que a independência da Catalunha se torne xenofóbica”, diz Omar Encarnación, professor de estudos ibéricos da Universidade Bard, nos Estados Unidos. No referendo da Catalunha, o saldo até agora é unânime: perderam os espanhóis e perderam os catalães.

Publicado em VEJA de 11 de outubro de 2017, edição nº 2551

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