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Soluços de curto prazo

Em breve, só sobrará aos políticos o avanço. O resto passará

Por Fernando Grostein Andrade 1 jun 2018, 06h00

Recentemente Gilberto Gil me convidou para participar do seu novo programa de televisão, no qual canta e debate um tema com o convidado. A canção escolhida por ele foi Futurível (“Seu corpo vai se transformar / Num raio, vai se transportar / No espaço, vai se recompor / Muitos anos-luz além daqui”). Confesso que falar sobre o futuro foi duro. Sou uma pessoa que já teve alguns traumas; caí no equívoco de criar uma armadilha mental de antecipar o amanhã, como se fosse possível enxergar e prevenir o que virá. Não é. Essa tentativa de adivinhar alguma coisa produz um círculo vicioso. No campo da economia é parecido, ela é movida por expectativa. Se os investidores veem motivo para investir, investem, porque acreditam que podem vir a gerar algum valor. A recíproca é verdadeira: nuvens pesadas significam retração, e dá-se então mais uma volta do ciclo ruim.

Nas análises econômicas de botequim, as pessoas pecam na honestidade intelectual ao ignorar o óbvio, já que os efeitos de políticas econômicas consistentes não são imediatos. Essas análises intoxicam a percepção da realidade. Induzem o eleitor a achar que os erros são sempre provenientes de outros governos — e apropriam-se dos acertos.

Por onde ando, vejo as pessoas desanimadas, fazendo as malas, pensando que os fins justificam os meios para sobreviver. Foi aí que Gil me abriu os olhos para o evidente: o futuro se impõe. O avanço é impossível de ser brecado, é questão de tempo. Steven Pinker, psicólogo de Harvard, recentemente mostrou em seu livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza que, apesar de nossa percepção equivocada, os indicadores de violência no mundo estão caindo. A tese é de difícil aceitação, porque o assassinato de um vizinho produz um efeito em nossa mente mais impactante do que tragédias do século passado. Somos assim: enfatizamos eventos recentes e perdemos a perspectiva de longo prazo.

Certa vez estava filmando congressistas americanos no Capitólio, em Washington. A ideia era mostrar, por meio de entrevistas com os parlamentares, como a regulamentação da maconha poderia ser uma ferramenta relevante para reduzir o dano que a droga causa na sociedade, prevenindo o abuso no consumo, diminuindo a violência e aumentando a arrecadação. Um congressista foi sincero: “Se defendo isso no meu estado, perco a próxima eleição”. Outro respondeu: “No meu estado, se não defendo essa tese, perco”. Ficou claro para mim quanto a classe política é dependente, no fundo, de nós, cidadãos. Nosso poder é maior do que parece. Por isso, talvez seja fundamental combater as percepções coletivas equivocadas, ancoradas numa bola de cristal enganadora. Resolvida essa questão, afastadas as falsidades, aos políticos só restará uma alternativa: o avanço. No Brasil, estamos próximos de uma eleição que dá calafrios. Na urna, vou encarar os candidatos que não empolgam com um raciocínio simples — como se fossem soluços do curto prazo, como pedras numa estrada linda para o futuro que este país merece. Varrer esses soluços do mapa é questão de tempo e comunicação adequada.

Publicado em VEJA de 6 de junho de 2018, edição nº 2585

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