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Raul Lamin: “Sim, Elvis morreu”

Quarenta anos após a morte de Elvis Presley, o médico brasileiro explica como foi chegar ao trabalho e encontrar o corpo do ídolo na sala de necropsia

O que o senhor fazia em Memphis na época em que Elvis Presley morreu?  Fiz minha residência e tese de mestrado lá. Cheguei em 1973, com 29 anos.

Como foi o dia da morte? Não sei como foi a chegada dele ao hospital. Quando apareci naquele dia, a secretária avisou que um corpo muito importante estava ali.

E depois? Quando ela disse que era o corpo de Elvis Presley, não acreditei. Fomos — eu e outro médico — ao necrotério, e era mesmo Elvis. A fisionomia era a de uma pessoa serena. Eu queria fugir dessa responsabilidade. Você já pensou fazer uma necropsia numa personalidade endeusada pelo mundo inteiro? Fiquei em choque. Era como fazer a necropsia do (John F.) Kennedy. Deus me livre!

Havia fã na porta do hospital? Sim, havia muitas pessoas segurando cartazes e carros de TV. Mais tarde soube que um programa de grande audiência, uma espécie de Brasil Urgente, do Datena, nos Estados Unidos, tinha oferecido 1 milhão de dólares para ter acesso ao relatório da necropsia. Mas ninguém teve.

Qual foi a causa da morte? Abrimos o corpo e examinamos órgão por órgão. Não havia lesão pulmonar, cardíaca nem hepática; não achamos um infarto nem infecção. Nada. Nem diabetes ele tinha, mesmo comendo um monte de porcaria, como sanduíche de manteiga de amendoim com banana. Elvis talvez tenha apresentado um problema respiratório, pela forma como foi encontrado: no chão do banheiro, com a face voltada para o carpete e a boca entreaberta, como se estivesse à procura de ar. Mas a necropsia não apontou uma causa específica.

O senhor era fã de Elvis? Quem não era? Até hoje os fã-clubes me convidam para conversar, mas não tenho tempo. Eu ouvia todas as músicas dele. Always on My Mind é a minha preferida. Havia programado ir ao meu primeiro show do Elvis, em Memphis, com o pessoal do hospital. Infelizmente, esse show nunca aconteceu. A vida dele era muito difícil, coitado. Ele vivia preso em uma gaiola de ouro cravejada de diamantes. Deve ter sido muito triste.

Então Elvis morreu mesmo? Sim, ele chegou morto ao hospital. Se tivesse chegado vivo, nós o teríamos matado ao abrir o corpo para a necropsia.

Publicado em VEJA de 30 de agosto de 2017, edição nº 2545

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