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“Que Jesus é esse?”

O ídolo do pop evangélico Kleber Lucas fala das represálias que sofreu ao se engajar na reconstrução de centro de candomblé incendiado por intolerantes

O cantor e pastor Kleber Lucas, de 50 anos, é uma potência do gospel, gênero musical consumido pelo público evangélico. Com mais de 1 milhão de CDs e DVDs vendidos, ganhou onze discos de ouro e três de platina e criou hits como Aos Pés da Cruz. Mas desde o ano passado, quando se engajou na reconstrução de um terreiro de candomblé na Baixada Fluminense incendiado por intolerantes religiosos, Lucas virou um anátema para boa parte dos evangélicos. Viu escassear os convites para shows e as execuções nas rádios gospel. Oriundo de um clã sincrético — a mãe é evangélica e o pai foi adepto do candomblé —, ele abraçou com naturalidade a pregação pela tolerância. Nesta entrevista, fala sobre as reações que colheu em seu meio não só por isso, mas por fundar uma igreja “diferentona” frequentada por celebridades na Barra da Tijuca e ser casado pela terceira vez — a atual mulher, Danielle Favatto, é ex do craque Romário. A seguir, sua entrevista.

Até que ponto a rejeição pelo público evangélico, depois de três décadas de sucesso como cantor gospel, decorre de sua decisão de ajudar na reconstrução de um terreiro de candomblé? Sofro um boicote, sem dúvida. As reações vieram sob a forma de me fecharem portas, de cessarem todos os convites, de não quererem que eu cante ou pregue nas igrejas. Tem muita gente que pensa diferente, mas infelizmente minha pregação pela tolerância religiosa, como cantor e pastor, não agrada à maior parte do movimento evangélico.
A reação negativa o surpreendeu? Não me decepcionei, porque já esperava exatamente isso. Sempre convivi nesse meio. Sei que há forte hostilidade entre os evangélicos contra as religiões de matriz africana.

Por que o senhor se envolveu na reconstrução do terreiro? No ano passado, fui ao Complexo do Alemão para participar de um evento de solidariedade às vítimas da violência, e lá recebi o convite para fazer parte de uma mesa de diálogo e da entrega de uma doação levantada por uma igreja cristã para um centro de candomblé em Duque de Caxias que havia sido incendiado pelo pessoal intolerante. Eu topei, pois creio que a palavra e o amor de Cristo valem para todos os seres humanos, sejam eles evangélicos, católicos ou adeptos de religiões africanas. Diante da injustiça que foi feita naquele centro religioso — um lugar que não servia apenas para a prática do candomblé, mas também para ajudar a comunidade —, é claro que eu só podia dizer sim. O problema é que estamos vivendo tempos de comunicação rápida e ódio fulminante na internet. No evento, eu cantei Maria Maria, do Milton Nascimento, e alguém me filmou e postou nas redes sociais. O mundo desabou sobre mim.

O que aconteceu? Fui atacado nas redes sociais e em sermões nas igrejas, por estar num lugar de culto africano e cantar uma música profana. Recebi ligações com ameaças. Em muitos grupos no WhatsApp, circularam mensagenzinhas de ódio: “Não convide Kleber Lucas para cantar na sua cidade. Ele não representa os evangélicos”. Eu não represento mesmo quem é intolerante, seja evangélico ou não.

Como sua carreira musical foi afetada? Diretamente. Hoje faço poucos shows e ninguém mais me convida para pregar ou cantar em grandes eventos. Já cantei na Marcha para Jesus em São Paulo (parada evangélica), mas desde o ano passado, curiosamente, não me convidaram mais. Mas respeito. Não estou aqui para condenar nenhum tipo de movimento. Não quero engrossar essa corrente de ódio que está nas redes sociais e é muito forte dentro do ambiente religioso.

O senhor se sente frustrado? Para falar a verdade, estou em paz. Sou alguém que saiu de um Grammy Latino e vendeu milhões de CDs e hoje é benquisto só por um grupo pequeno de pessoas. Mas prezo muito aqueles que ainda me recebem com carinho. Estou descobrindo gente maravilhosa — inclusive muitos pastores — que comunga de minha visão e dialoga com católicos, umbandistas, judeus. Somos minoria num mundo que trocou a bandeira da conciliação pela luta feroz entre tribos. Temos um presidente dos Estados Unidos que representa um segmento cristão e tem ideias assustadoras. A mensagem dele não tem nada a ver com a de Jesus.

Sua gravadora, a MK Music, especializada em música gospel, também o boicotou? Não, pelo contrário. Ela sempre me respeitou, ainda que não concorde com meu posicionamento. Mas há um silêncio entre nós. E eu entendo o que esse silêncio representa.

O que é? A grande maioria dos músicos me ama, vem à minha casa e à igreja, manda mensagens e liga para mim. Mas eles não podem mais postar foto comigo no Instagram, nem aparecer do meu lado, nada. Em público, alguns deles viram a cara.

Inclusive as grandes estrelas do gospel? Inclusive grandes estrelas. Sem citar nomes.

A que o senhor atribui isso? Medo.

Não é injusto identificar a maioria dos evangélicos com a intolerância? Quem prega o ódio é a minoria. Muitos evangélicos têm a tolerância dentro de si, mas não têm coragem de assumir publicamente. Porque botar a cara para fora tem implicações, inclusive financeiras: o pastor que falar a favor do diálogo com outras religiões correrá o risco de perder o emprego na igreja. Recebo muitas mensagens que dizem: “Olhe, essa sua causa se harmoniza com o Evangelho. Mas você sabe por que eu não posso me posicionar”. Recebo também muitos e-mails e mensagens de apoio de pastores que preferem não se expor. São pessoas que eu amo, e entendo seus limites. Elas estão ainda oprimidas, não querem ser a voz que vai confrontar isso.

“A maioria dos evangélicos tem a tolerância dentro de si, mas não tem coragem de assumir. Um pastor que falar a favor do diálogo com outras religiões correrá o risco de perder o emprego”

Como se chegou a ponto de haver ataque a um terreiro de candomblé no Brasil? A história da nação chamada Brasil é uma história desrespeitosa com relação às diferenças religiosas. Essa hostilidade sempre existiu, não foi criada pelos evangélicos. A desconfiança com as crenças de matriz africana é uma realidade desde que os negros pisaram aqui, há quase 500 anos. Hoje, isso voltou com tudo. A gente não está mais preocupado em ouvir o outro — o caminhoneiro, por exemplo. Você quer dizer que ele é um pilantra, que é de direita, que é de esquerda. O pessoal quer uma chance para o embate. Isso não tem nada a ver com Jesus de Nazaré, que, diante da opressão do Império Romano, da hostilidade da Galileia dos pagãos, falou sobre amar o próximo como a si mesmo.

O senhor já declarou que a teologia no Brasil é racista. Não é exagero? Desde que os jesuítas chegaram por aqui, a religião no Brasil sempre endossou o discurso da hierarquia racial. O Cristo que trouxeram para o país é um Cristo branco, europeu. Mas nós es­quecemos que o cristianismo vem de um ponto de intersecção entre Europa e África, o Oriente Médio. Não podemos ignorar também que muitos missionários evangélicos que vieram para cá, no século XIX, eram americanos do sul dos Estados Unidos, de uma cultura escravocrata. Falar isso é chocante, mas é uma realidade que eu, como pastor negro, conheço bem. Há algumas pessoas conscientes, sim. Mas é inegável que existe racismo entre os evangélicos. Eu era um cantor gospel festejado. Depois de ir ao centro de candomblé, virei um negro safado, macumbeiro, vagabundo. Que Jesus é esse que os intolerantes invocam? Vivemos um tempo de ódio profundo.

Sua amizade com um padre católico, Fábio de Mello, também foi alvo de críticas. Como se aproximou dele? Nós nos unimos na campanha pela reconstrução do centro de candomblé, e também o recebi para um culto em minha igreja. Eu já tinha sido criticado por cantar num culto Epitáfio, uma música linda dos Titãs. As pessoas não se dão nem ao direito de ouvir uma poesia e já começam a questionar: como pode um artista evangélico cantar músicas profanas e ainda se apresentar com um padre? É assustador ouvir isso num ambiente religioso. A música não precisa ser religiosa para nos elevar. Algumas canções de Gilberto Gil são pura teologia popular e conseguem nos aproximar do divino. É lindo quando Gil canta que a vida é um altar onde a gente celebra tudo o que Deus consentir. Mas isso assusta a maioria dos evangélicos. No episódio do padre Fábio, muito ódio foi destilado. “Isso não é Igreja”, acusavam. Fui parar no hospital com a pressão altíssima.

“Eu era um cantor gospel festejado. Depois de ir ao centro de candomblé, virei um negro safado, macumbeiro, vagabundo. Que Jesus é esse que os intolerantes invocam?”

Sua igreja, a Soul, anuncia que está de braços abertos para pessoas que se vejam como “sal fora do saleiro”. O que isso significa? É assumir que ninguém é perfeito e, mesmo assim, pode amar e ser amado por Cristo. Veja a minha situação pessoal. Sou um pastor que está no terceiro casamento. É uma coisa imprópria, que gera muita interdição no mundo evangélico. Fazem comentários ácidos. “O que esperar de um cara que se diz pastor e está no terceiro casamento?” Esse é o meu pecado, talvez. Mas é a minha história, e não posso ser visto como um pária por isso. Aliás, assim como acontece em casa, as famílias hoje muitas vezes são colchas de retalhos bem costurados, com pais, mães, seus respectivos ex, filhos e enteados. Quem quiser ignorar esse dado da realidade ou mostrar preconceito contra esse fato poderá se enterrar num buraco.

O que significa o slogan “Soul Diferentona”, propagado pelo senhor e por sua mulher, Danielle Favatto? Igreja diferentona é no sentido de descomplicada, de não se fechar dentro do estereó­tipo estético do “crente.” A gente é evangélico, mas igual a todo mundo. Somos pastores que fazemos crossfit, o que também assusta. E a Dani é muito diferentona mesmo, com a militância dela pelo fitness gospel. Lá em casa é muita malhação e comida saudável. A gente gosta de interagir com as pessoas, ir a festas e eventos sociais sem preconceito. Quando cantei em uma novela da Globo (Amor à Vida, em 2014), fui acusado até de zombar da Santa Ceia. Mas considero que estava cumprindo minha missão de celebrar a fé com o maior número de pessoas. Os encontros da igreja não acontecem só no templo. Podemos passar a tarde de sábado pregando na praia, na Barra da Tijuca. As pessoas vão passando de sunga e biquíni e dizendo: “Olhe o pastor, vamos ouvir sua palavra”.

De Susana Vieira a Bruna Marquezine, muitos famosos já foram a sua igreja. As celebridades também são filhas de Deus? Todos os seres humanos são. Não queremos saber o CEP ou o CPF de quem vem ao culto. Todos são tratados da mesma forma, do porteiro ao milionário. Acabamos convivendo com pessoas que são famosas, que têm visibilidade social, sim. Mas aquilo de que fazemos questão é nos relacionarmos bem com pessoas, ponto.

Publicado em VEJA de 1º de agosto de 2018, edição nº 2593