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Putin ficou só

O presidente russo quer chamar a atenção do mundo para o sonho de grandeza de seu país. O problema será comprovar que suas ambições são democráticas

Por Fábio Altman, de Moscou 15 jun 2018, 06h00
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Pela segunda vez Moscou sediou a abertura de um evento esportivo colossal, e no mesmo lugar, agora rebatizado. Antes, era o Estádio Central Lenin. É agora o Estádio Lujniki. Em 1980, no auge da Guerra Fria, a abertura dos Jogos Olímpicos, comandada da tribuna de honra pela quase senilidade e pelas sobrancelhas espessas de Leonid Brejnev, secretário-geral do Partido Comunista da então União Soviética, marcou um tempo quente das relações internacionais. Depois da invasão do Afeganistão pelas tropas soviéticas, os Estados Unidos de Jimmy Carter lideraram um maciço boicote contra a competição. Mais de sessenta países estiveram ausentes, e o estrago só não foi maior, condenando a Olimpíada ao esquecimento, porque havia espetaculares atletas do bloco soviético e porque, na cerimônia de encerramento, o ursinho Misha, construído a partir do mosaico formado pelas pessoas nas arquibancadas, chorou. A lágrima de Misha enterneceu o mundo, mas marcou o início do fim da URSS. Mikhail Gorbachev chegou logo depois com suas reformas, o Muro de Berlim caiu e o resto é história.

Na quinta-feira 14, no preâmbulo da partida inaugural da Copa do Mundo — vitória fácil e convincente dos donos da casa contra a Arábia Saudita por 5 a 0 —, Vladimir Putin, o presidente da Rússia, quis devolver ao país de geografia continental a grandeza que perdera com a derrocada soviética. O azar de Putin, instalado ali onde antes estivera Brejnev, foi ter sido ofuscado aos olhos do mundo diante da televisão pela repercussão do encontro de Donald Trump com Kim Jong­-un. Putin queria estar sozinho no centro do palco, e, embora tenha dito sucessivas vezes preferir que “o futebol ofusque a política”, é difícil que esse esquecimento se dê por completo — mesmo depois do início dos gols .

Putin tem um problema: precisa convencer o mundo das ambições democráticas da Rússia. Depois da anexação da Crimeia, em 2014, e do apoio ao governo da Síria, antigos aliados piscaram. Some-se à postura criticada no plano internacional a autocracia interna, que inclui um cerco aos homossexuais e liberdades restritas, e tem-se um país em maus lençóis. Um sinal: nenhum chefe de Estado de relevância internacional esteve na inauguração da Copa. Apenas o príncipe saudita, Mohammed bin Salman, sentou-se na tribuna com Putin, e só o fez porque sua seleção estava em campo. É por tudo isso que o moderno czar russo tanto pede que se esqueça a política em nome da bola. Se tudo der certo, se não houver a violência do hooliganismo russo (okolofutbola, na expressão local), se os terroristas não vencerem o rígido esquema de segurança e se houver belas partidas de futebol, é possível que Putin saia em 15 de julho maior do que entrou. O mais provável, porém, é que continue do mesmo tamanho, na retranca.

Publicado em VEJA de 20 de junho de 2018, edição nº 2587

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