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Pegos na mentira

Cientistas criam um software capaz de flagrar notícias falsas — e quem as espalha — nas redes sociais. Será o início do fim da praga?

Por André Lopes - Atualizado em 31 jan 2018, 15h27 - Publicado em 5 jan 2018, 06h00

Quando o furacão Sandy atingiu a Costa Leste dos Estados Unidos, as notícias falsas — as chamadas fake news — ainda estavam longe de virar praga universal, com capacidade para se disseminar na velocidade da luz e submeter a graus parecidos de constrangimento tanto mentirosos posteriormente desmascarados como crédulos apanhados em flagrante ingenuidade. Era o dia 29 de outubro de 2012, e, em meio ao estrago causado pelo furacão, usuários do Twitter depararam com a notícia de que a Bolsa de Valores de Nova York havia sido inundada. Além do dano histórico (o prédio data de 1903 e todo o seu piso é de madeira), o evento provocaria um prejuízo incalculável e global — dado que não haveria perspectiva de reabertura das operações financeiras tão cedo. Muita gente acreditou na história, inclusive reputados órgãos de imprensa. Mais tarde, descobriu-se que tudo não passara de uma brincadeira sem graça de alguém que havia postado uma foto falsa no Twitter.

A boa notícia é que esse tipo de embuste hoje teria vida curta. Pesquisadores da Universidade de Melbourne (Austrália) criaram um mecanismo que pode ajudar a frear a cascata de cascatas que inundam a internet. Eles desenvolveram uma inteligência artificial (IA) que, por meio do cruzamento de uma série de variáveis, permite separar o joio do trigo e ver quem está mentindo nas redes sociais. O mecanismo é útil sobretudo para revelar se quem diz ter sido testemunha de uma notícia de fato estava no local descrito. No caso da falsa inundação no prédio da Bolsa de Nova York, a IA flagraria na hora a mentira ao analisar a imagem do alagamento: concluiria que a foto havia sido feita na saída de uma estação de metrô, e não em Wall Street. Para chegar a essa conclusão, o programa cruza dados relativos a data e momento associados à imagem com dados sobre a geolocalização do smartphone do autor do post.

No ano passado, depois dos alagamentos causados pelo furacão Harvey, em Houston, um perfil com o nome de Jason Michael divulgou no Twitter imagens que mostravam um tubarão nadando nas vias da cidade texana como se fosse consequência do desastre natural. Montagens como essa, além de enganar desavisados, podem criar um problema mais grave. Como a plataforma de mensagens instantâneas costuma ser usada como ferramenta para alertar a população durante emergências, a banalização das notícias falsas pode acabar gerando desconfiança em relação a notícias verdadeiras — e, nesse caso, cruciais para a sobrevivência de uma comunidade.

O programa criado pelos pesquisadores de Melbourne ainda tem de ser aprimorado para evitar induzir analistas a erros. Fotos podem ser replicadas sem o devido crédito ao autor, o que impossibilita seu rastrea­mento, e há situações em que o usuário pega imagens da tela de uma TV, por exemplo, para dar a entender que esteve em determinado local — o que ainda não pode ser verificado pelo programa.

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Levantamento feito em junho passado pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), da USP, deu uma mostra do impressionante alcance das fake news. O grupo monitorou na internet 500 páginas sobre política com conteúdo falso. Para medir a disseminação de uma única mentira, escolheu a que dizia que o ex-presidente Lula havia sido expulso de um restaurante em Natal. Em comparação com a notícia que desmentia a polêmica, a versão errada teve quase 500% a mais de repercussão entre os usuários do Twit­ter. A versão correta foi citada por 577 perfis. A mentirosa, por 3 066.

O programa criado em Melbourne não chega a ser um detector de mentiras. Mas sugere que 2018 pode ser o ano do começo do fim da praga das falsas notícias. Gigantes como Facebook, Google e Twitter já tentam criar ferramentas similares. O receio de serem responsabilizados legalmente pelo problema é o principal motivo do empenho. Mas digamos que o medo do ridículo também dá uma forcinha.

Publicado em VEJA de 10 de janeiro de 2018, edição nº 2564

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