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Pastelão comunista

Em 'A Morte de Stalin', Armando Iannucci, criador da série 'Veep', encena, com um elenco impecável, uma corrosiva farsa do poder na União Soviética de 1953

Por Isabela Boscov - 1 jun 2018, 06h00

Quando escreveu e filmou, em 1967, a comédia Primavera para Hitler (depois transformada no musical e na refilmagem batizados de Os Produtores), Mel Brooks partiu do princípio de que nada ofenderia e diminuiria mais o genocida austríaco do que torná-lo objeto de ridículo — daí a opção de retratar Hitler como uma diva cheia de fricotes. O roteirista e diretor escocês Armando Iannucci usa o mesmo princípio em A Morte de Stalin (The Death of Stalin, Inglaterra/França/Bélgica/Canadá, 2017), que estreia nesta quinta-feira no país: na noite de 5 de março de 1953, depois de assinar uma das suas listas diárias de desafetos a ser executados e entregá-la ao chefe do aparato de repressão, Lavrenti Beria (Simon Russell Beale), o dirigente soviético sofre uma sapituca, bate as botas e estica as canelas — mas não sem antes perder o controle da bexiga e deixar uma extensa poça de urina no carpete. Apavorados com a ideia de associar a palavra “morte” ao nome “Josef Stalin” numa mesma frase, os asseclas do ditador tentam asseverar seu estado inanimado dando pulinhos e fazendo manobras desengonçadas em volta do cadáver, a fim de não ensopar os sapatos no xixi — e o espectador se vê às gargalhadas, daquelas que fazem escorrer água dos olhos. Stalin, o mais implacável, temido e poderoso comandante da União Soviética, o homem responsável pela morte de milhões, passa desta para a próxima cheirando a mictório público: em mais uma sulfúrica farsa política, Iannucci, o criador da série Veep (que reduz a pó os bastidores da Casa Branca), ombreia com Mel Brooks.

Como anuncia o título, entretanto, não é de Stalin que o filme trata, mas do que se segue a ele: não apenas o súbito vácuo do poder e os conchavos decorrentes, como a extrema infantilização política dos quadros do Kremlin. Figurões como o titubeante comissário Georgi Malenkov (Jeffrey Tambor), o desfrutável Vyacheslav Molotov (Michael Palin), o bufão Nikita Kruschev (Steve Buscemi), o sinistro Beria e os oportunistas Nikolai Bulganin (Paul Chahidi) e Lazar Kaganovich (Dermot Crowley) fazem reuniões de teatro do absurdo. Kruschev, empurrado para a tarefa humilhante de mestre de cerimônias do funeral (“Cortinas com ou sem franzido?”, pergunta, ansioso, seu assistente), revela-se bem mais que um pândego, e começa uma guerra com Beria pelo controle da situação e da doidinha filha de Stalin, Svetlana (Andrea Riseborough). Todos fazem o que podem para neutralizar o filho bêbado do ditador, Vasily (Rupert Friend). Quando as ordens e contraordens provocam um massacre nas ruas de Moscou, entra em cena o grosseirão marechal Zhukov (Jason Isaacs), que arruma a bagunça do jeito de sempre.

Os atores são um primor, e não há um deles sequer que não transforme sua cena em um evento. Numa participação pequena, Pad­dy Considine, por exemplo, faz maravilhas como o funcionário da rádio que tem de chamar a orquestra e a pianista temperamental (Olga Kurylenko) de volta ao palco para repetir desde o início uma apresentação: ela não foi gravada, e Stalin quer para já uma cópia. A plateia, louca para ir para a cama, ouve o nome do dirigente e já entra numa daquelas rodadas de aplausos que eram questão de vida ou morte — ninguém era besta de ser o primeiro a parar. Como em Veep, Iannucci se vale do pastelão — mas, aqui, para expor o mais puro terror.

Publicado em VEJA de 6 de junho de 2018, edição nº 2585

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