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Os dois camaradas

Kim e Moon decidem transformar a fronteira mais armada do mundo em uma zona de paz. Falta ainda o ditador da Coreia do Norte entregar suas bombas atômicas

Pelas amplas avenidas de Pyongyang, a capital da Coreia do Norte, cerca de 100 000 mulheres de vestido colorido acenavam com flores para o carro que trazia o ditador Kim Jong-­un e o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in. “Reunificação da Coreia”, gritavam elas, todas ao mesmo tempo. A cena, ocorrida na terça-feira 18, foi transmitida ao vivo pela TV estatal — repetindo: ao vivo, sinal de que Kim anda cada vez mais confiante. O encontro, o terceiro protagonizado pelos dois neste ano, reduzirá em muito a tensão armada entre as nações. Com os Estados Unidos de fora, porém, pontos fundamentais ficarão para depois.

No acordo assinado na quarta 19, os dois chefes de Estado se comprometeram a cessar todos os atos hostis por terra, mar e ar. A fronteira mais carregada de armas do planeta será transformada em uma “zona de paz”. Minas terrestres serão removidas, exercícios militares não mais serão realizados, guardas deixarão o local e um comitê vai ser formado para prevenir eventuais conflitos. Ferrovias voltarão a ligar a península e será reativado o complexo industrial de Kaesong, o único binacional.

Como anfitrião, Kim discursou na primeira pessoa do plural: “Vamos superar as dificuldades, nos fortalecer como um povo unido e nos tornar o alicerce de uma nação forte”. Ele também prometeu visitar Seul em breve. “Até então, as reuniões eram eventos isolados, mas essa última mostrou que o contato tem sido contínuo e sustentável”, diz o historiador americano Charles Arm­­strong, da Universidade Colúmbia.

Kim aceitou inspeção internacional em uma base de lançamento de mísseis e prometeu destruir instalações do seu programa nuclear. Mas não falou nada sobre onde estão as bombas atômicas e que destino dará a elas. É isso, afinal, o que lhe confere o poder para negociar os termos da paz. Com as demonstrações de afeto diplomático, os representantes das duas Coreias esperam convencer o presidente americano Donald Trump a declarar o fim da guerra, que foi suspensa apenas com um armistício, em 1953. Empresários sul-coreanos que acompanharam Moon em sua visita a Pyongyang aguardam ansiosamente a oportunidade de investir no país vizinho. Quanto às bombas atômicas, Kim vai segurá-las até o último minuto.

Publicado em VEJA de 26 de setembro de 2018, edição nº 2601