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O time do eu sozinho

Vladimir Putin não esconde querer fazer do sucesso da Copa uma plataforma para revelar ao mundo os sonhos imperiais de grandeza da Rússia

Por Flávio Ricardo Vassoler* - Atualizado em 30 jul 2020, 20h18 - Publicado em 8 jun 2018, 06h00
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E lá estará Vladimir Putin, de 65 anos, altivo, autocrático, na tribuna de honra do Estádio Lujniki, o antigo Estádio Central Lenin, para a partida inaugural da Copa, entre Rússia e Arábia Saudita, na próxima quinta-feira, 14. Se os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, há quatro anos, serviram de plataforma para as ambições imperiais de Putin, a festa mundial do futebol será quase um parque de diversões, uma passarela pela qual desfilarão todos os seus anseios de grandiosidade, expostos aos olhos do mundo, pela televisão. Maior do que Messi, maior do que Cristiano Ronaldo, maior do que Neymar, de agora até a finalíssima de 15 de julho, só Putin, a figurinha carimbada. Em março, ele foi reeleito para um quarto mandato como presidente da Federação Russa, com uma votação recorde de mais de 56 milhões de votos. Os dois primeiros mandatos ocorreram entre 2000 e 2008, ao suceder a Boris Ieltsin, o primeiro presidente eleito democraticamente depois do colapso da União Soviética. Putin voltou ao poder em 2012 e não saiu até agora. Houve um breve interregno como primeiro-ministro faz-tudo de Dmitri Medvedev, entre 2008 e 2012. Quase como um lugar-comum, as paredes do Kremlin, as sombras da Praça Vermelha, os vendedores ambulantes de matriosca, a tradicional boneca russa de cujo ventre outras bonequinhas vão surgindo, todo mundo, enfim, sempre ironizou o mandato-­tampão de Medvedev. Uma frase ecoava como provocação, repetitiva como a matriosca: “Putin, nosso novo czar, está casado com o poder, até que a morte os separe”.

Dito e feito. Tudo somado, em 2024, ao término do atual mandato, Putin terá comandado a Rússia por vinte anos. E quem há de garantir que não quererá mais? Ele terá ultrapassado o tempo de reinado do czar Alexandre III, que governou o país por treze anos, de 1881 a 1894. Segue na perseguição de Alexandre I, que não largou o osso entre 1801 e 1825. Talvez sonhe fazer como Stalin, o ditador soviético que entrou no Kremlin em 1927 e só saiu morto, 26 anos depois. Jurista de formação, intelectualmente preparado, carismático e craque na divulgação da própria imagem, Putin ganhou espaço político numa carreira que começou como agente do Comitê de Segurança do Estado (KGB), ainda nos tempos do comunismo, e se consolidou na direção do Serviço Federal de Segurança (FSB). Em seu discurso anual para o Parlamento, em 2005, chegou a afirmar que o colapso da União Soviética fora “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. Diante dos protestos mundo afora — dos sobreviventes do holocausto aos parentes das vítimas de Hiroshima e Nagasaki, grandes tragédias da II Guerra (1939-1945) —, ele precisou se explicar.

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Em The Putin Interviews (Editora Hot Books), livro que compila uma série de entrevistas concedidas ao cineasta americano Oliver Stone, entre 2015, quando a crise na Ucrânia ainda ressoava, e 2017, depois da eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, Putin afirmou que “o colapso da União Soviética fez com que 25 milhões de russos que viviam nas repúblicas do país se tornassem apátridas do dia para a noite. Nosso sistema de proteção social e setores inteiros da economia foram destruídos, o Exército se viu em uma situação lamentável e milhões de pessoas foram postas abaixo da linha de pobreza”.

Houve quem imaginasse que ele estivesse projetando a volta da União Soviética, num laivo de saudade dos tempos de KGB, mas não. Bastaria um pouco de atenção a uma declaração dúbia, inteligente e irônica de 2010, num raciocínio que parece lhe cair como mote: “Aquele que não lamenta o fim da União Soviética não tem coração, mas quem quer restaurá-la não tem cérebro”. É afirmação que permite entender a ambiguidade do projeto de Putin para se perpetuar no poder e reinstalar a Rússia como ator fundamental da geopolítica mundial — com uma leve ajudazinha da Copa, da afluência de torcedores e de interesse global, se tudo correr bem.

Ao lamentar o fim da União Soviética, Putin reverberou o interminável luto histórico pelos mais de 20 milhões de vidas ceifadas na luta contra os nazistas na Grande Guerra Patriótica (1941-1945) — maneira pela qual os russos chamam sua participação na II Guerra Mundial — e invocou o ideário ultranacionalista da Rússia, país que, do império dos czares ao apogeu aeroespacial e atômico durante a Guerra Fria, sempre se viu como uma potência militar e geopolítica. Nas ruas de todo o país não é difícil ver cartazes governamentais que associam os tradicionais símbolos soviéticos — a foice e o martelo comunistas — à bandeira e ao orgulho nacionais russos. Assim, se o cérebro do líder político desautoriza a retomada do desastroso sistema econômico socialista, o apelo nostálgico ao coração nacionalista e imperial alça o imaginário do povo — e contribui para manter Putin no cume.

Com permanente pose de virilidade, ele gosta de debates político-retóricos. Oliver Stone, nos diálogos com o russo, fez menção a Barack Obama, para quem Putin ainda vê o mundo com a voracidade imperialista do século XIX. Diante da pergunta “por que a Rússia anexou a Crimeia, território da Ucrânia, em março de 2014?”, Putin reagiu: “Nós não anexamos a Crimeia. Os cidadãos da Crimeia, por meio de um referendo, decidiram se unir à Rússia”. Ressalve-se que Stone não pressionou Putin para que o presidente explicasse por que o referendo foi feito na contramão das leis e dos tratados internacionais. Ao ser indagado a respeito da influência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre os países próximos à Rússia — Países Bálticos, Geórgia, Ucrânia, antigas repúblicas soviéticas —, Putin foi ainda mais cortante: “Hoje, a Otan é um instrumento da política externa dos Estados Unidos. Ela não tem aliados, apenas vassalos. Assim, quaisquer sistemas de armamentos e bases militares podem ser instalados nos países-membros. Nós temos, então, de apontar nossos mísseis contra as instalações que nos ameaçam. Com isso, a tensão aumenta cada vez mais”.

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Stone, que é crítico contumaz da política externa intervencionista dos Estados Unidos, não perdeu a prosa e disse concordar com a ideia de reações (supostamente) defensivas da Rússia, mas aproveitou a deixa e quis saber do presidente se, agindo assim, Moscou não estaria se prejudicando aos olhos da comunidade internacional. A resposta: “Você acha que nosso objetivo é provar algo a alguém? Nós queremos fortalecer o nosso país”. O troco retórico de Putin antecipava as sanções econômicas que os Estados Unidos e a União Europeia passaram a aplicar contra a Rússia depois da anexação da Crimeia. Quando o líder de uma potência nuclear afirma que o objetivo essencial de seu país é o autofortalecimento, parece estar embutido em seu discurso o risco de um conflito. Stone perguntou: “A Rússia sobreviveria a uma guerra nuclear?”. Putin nem quis saber. “Ninguém sobreviveria a tal conflito”, sentenciou.

Tanta certeza é atrelada a uma aliança cada vez mais estreita entre o Estado e a Igreja Ortodoxa, instituição que, em termos históricos, nunca se apartou inteiramente do poder, tanto para canonizar os czares quanto para abençoar suas investidas militares. Quando os nazistas invadiram a URSS, em junho de 1941, Stalin, para conquistar o coração do povo em favor da defesa sagrada da pátria, mandou reabrir as igrejas que a Revolução Russa de 1917 interditara. Consta que, quando Napoleão Bonaparte soube que o czar Alexandre I era, ao mesmo tempo, monarca e líder da Igreja, o generalíssimo francês teria exclamado ao imperador russo: “Ora, mas que conveniente!”. É mais que conveniente para Putin misturar poder e religião e, a partir dos próximos dias, associá-los também ao esporte, apesar das escassas chances de sucesso da seleção russa, que chega à Copa com uma equipe bem fraca. No gelado inverno deste ano, ele se deixou mostrar de torso nu pela TV estatal russa em meio à Epifania ortodoxa, dia em que os fiéis celebram o batismo de Jesus Cristo nas águas do Rio Jordão. Ao mergulhar no gélido Lago Seliger, que fica cerca de 400 quilômetros ao norte de Moscou, Putin enfrentou, no momento de sua aparição midiático-­religiosa, uma temperatura atmosférica de 6 graus abaixo de zero. Fingiu estar tudo bem. É assim que ele gosta de governar — nas decisões irrevogáveis de gabinete, mas também na imagem que passa aos cidadãos, apesar das vastas críticas que recebe.

As práticas bem pouco republicanas da democracia russa sofreram fortes reprimendas internas e externas às vésperas da quarta vitória eleitoral de Putin. Na Rússia, partidos de oposição e vozes independentes denunciaram potenciais fraudes que visariam a garantir uma vitória expressiva de Putin. O único adversário que poderia representar algum risco para a reeleição do atual presidente, Alexei Navalny, teve sua candidatura barrada por causa de uma condenação judicial por desvios de fundos públicos. Além disso, a primeira-ministra britânica Theresa May acusou o governo de Putin de estar por trás do envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal e de sua filha Iulia, ocorrido na cidade inglesa de Salisbury, com um agente neurotóxico que teria sido desenvolvido na União Soviética nos anos 1970 e 1980. A acusação de May deu início a uma forte crise diplomática entre os dois países e levou a porta-voz da chancelaria russa, Maria Zakharova, a sentenciar que “tudo não passa de um espetáculo circense do Parlamento britânico”.

Como gosta de briga, mas não aceita perder, ao ser indagado sobre a razão pela qual a Rússia teria interferido, por meio de hackers, na campanha presidencial que conduziu Trump ao poder, Putin tentou ser delicado, à sua maneira: “À diferença de muitos de nossos parceiros mundo afora, nós nunca interferimos nos assuntos domésticos de outros países”. Ele se referia, evidentemente, ao hábito americano de dar uma espiada secreta no que o mundo anda fazendo, conforme revelou, em 2015, o site WikiLeaks.

Com coração e cérebro a namorar o tempo da Guerra Fria, em que os soviéticos tinham preeminência no embate surdo contra os americanos, Putin anda perigosamente na linha de impedimento e sabe que as condições históricas já não permitem provocações. Adora diatribes — mas talvez seja tudo um grande teatro. “Depois da vitória de Trump”, perguntou Oliver Stone, “haveria alguma esperança para as estremecidas relações entre EUA e Rússia?” Putin lembrou que os dois países foram aliados nas duas guerras mundiais. Ademais, haveria agendas urgentes e comuns: a luta contra o terrorismo e a degradação ambiental, que, enfatizou o presidente russo, é a verdadeira ameaça para a humanidade. “Quanto à esperança”, disse Putin, “ela sempre persiste — até que sejamos levados para o cemitério.”


* Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em literatura russa pela Northwestern University (EUA)

Publicado em VEJA de 13 de junho de 2018, edição nº 2586

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