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O desafio equilibrista

Para se viabilizar, Ciro Gomes quer atrair eleitores do ex-presidente Lula, petistas e legendas fisiológicas — mas sem pôr em risco a “hegemonia moral”

Por Nonato Viegas 15 jun 2018, 06h00

O ex-ministro Ciro Gomes é conhecido pelo estilo mercurial, pelo gosto para o enfrentamento e pela língua ferina, características que contribuíram para sua derrota nas eleições presidenciais de 1998 e 2002. Filiado ao PDT, seu sétimo partido, ele sabe que terá de adotar um estilo diferente caso queira conquistar a Presidência. Seu desafio é fazer campanha como um equilibrista, procurando o meio­-termo entre interesses antagônicos, o que requer a ponderação que quase sempre lhe escapa. Em terceiro lugar nas pesquisas, Ciro quer conquistar o apoio dos eleitores do ex-presidente Lula sem se associar ao PT do petrolão e do mensalão. Também pretende fechar alianças com legendas fisiológicas e acusadas de corrupção enquanto promete, em público, a formação de uma coligação imaculada — ou, segundo suas palavras, com “hegemonia moral”. Em ambos os casos, é uma gramática difícil de conjugar.

Segundo pesquisas recentes, Ciro e a ex-ministra Marina Silva (Rede) são os candidatos que mais herdam votos de Lula, que, enquadrado na Lei da Ficha Limpa, não poderá disputar a eleição. A prioridade do ex-ministro é angariar a maior parte do espólio do petista, o que inclui o apoio de siglas de esquerda que quase sempre marcharam ao lado do PT, como o PSB. As conversas de Ciro com os socialistas estão tão promissoras que levaram Lula, mesmo atrás das grades, a determinar à cúpula petista que intervenha no caso. Para impedir um acordo entre Ciro e PSB, o PT estuda fazer concessões. Ciro sabe que tem de dosar bem sua ação nessa disputa para não melindrar o PT e levar ao naufrágio seu sonho de ter a ajuda de Lula e companhia em um eventual segundo turno.

A aliança com o ex-presidente, alegam os petistas, seria costurada mais facilmente se o ex-ministro assumisse o compromisso de dar indulto a Lula caso vença a eleição, possibilidade que Ciro rechaça. Por um motivo simples: um dos pilares de sua campanha é desfilar como defensor intransigente do combate à corrupção. Faz tempo que ele ataca o presidente Michel Temer, a quem já chamou de “escroque”, e o MDB, classificado como uma “quadrilha”. É o caso clássico da indignação seletiva, pois Ciro negocia uma aliança com o PP, uma legenda enlameada até o pescoço nas investigações da Lava­-Jato. Entre os nomes cotados para vice em sua chapa estão os empresários Benjamin Steinbruch, da CSN e filiado ao PP, e Josué Gomes, da Coteminas e filiado ao PR. Os dois serviriam para tornar a candidatura de Ciro mais palatável ao mercado.

O ex-governador Cid Gomes, irmão do candidato, e o presidente do PDT, o ex-ministro Carlos Lupi, foram acusados de corrupção por delatores da Lava-Jato

Não é apenas o flerte com o fisiologismo que testará o discurso de Ciro contra a corrupção. Em seu acordo de delação premiada, Wesley Batista, dono da JBS, disse que Cid Gomes, irmão de Ciro, recebeu 20 milhões de reais em propina em 2014, quando era governador do Ceará, em troca da liberação de créditos de ICMS devidos pelo estado à empresa. Do total, 10,2 milhões de reais foram repassados a candidatos do PROS, partido ao qual os irmãos Gomes estavam filiados. O dinheiro foi registrado na Justiça Eleitoral, mas seria propina dissimulada sob a forma de doação. Joesley Batista declarou que Cid também pediu dinheiro em 2012. O caso está sob análise da Justiça Federal do Ceará.

Na semana passada, outro delator disse que o presidente do PDT, Carlos Lupi, também foi beneficiário de propina arrecadada pelo esquema do ex-governador Sérgio Cabral, preso pela Lava-Jato. Lupi é um velho conhecido da crônica político-policial. Em 2011, foi demitido pela então presidente Dilma Rousseff por suspeita de comandar desvios de verba no Ministério do Trabalho. Dilma, naquela época, também buscava uma “hegemonia moral” em seu governo. Ciro saiu em defesa do mandachuva do PDT numa rede social: “Infelizmente, nessa luta que travamos contra a corrupção, o capital especulativo, a entrega do nosso país ao banditismo, sofreremos muitos ataques de quem não quer um Brasil melhor e com mais distribuição de renda”. O discurso de vítima de perseguição pode até soar bem aos ouvidos de petistas, mas não tem convencido a parcela da população que, segundo as pesquisas, considera o combate à corrupção uma das prioridades do país.

Publicado em VEJA de 20 de junho de 2018, edição nº 2587

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