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O Bush que venceu a Guerra Fria

Articulador habilidoso, ele conduziu o país num período de intensa reacomodação da política internacional

Quando se fala em Bush, quem primeiro vem à mente é George W., o ocupante da Casa Branca em 11 de setembro de 2001, data em que terroristas da Al Qaeda derrubaram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e mudaram o mundo para sempre. Antes dele, porém, seu pai, George Herbert Walker Bush, governou os Estados Unidos de 1989 a 1993, período de intensa reacomodação da política internacional, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o posterior desmoronamento da União Soviética. Ao longo desse rearranjo de poder que pôs os Estados Unidos no topo do mundo, “o 41” (sua posição na lista de presidentes americanos, usada como apelido pelo filho, “o 43”) costurou acordos de desarmamento e conduziu a transição sem maiores conflitos. Fez história como o presidente americano do tempo em que, depois de décadas, terminou a Guerra Fria.

A fama de articulador habilidoso na política externa foi reforçada quando, em 1991, montou uma coalizão militar para repelir as tropas do Iraque que haviam invadido o Kuwait no ano anterior. A “guerra a distância”, transmitida ao vivo pela CNN, começou com feixes de luz dos ataques aéreos cruzando o céu. Quando as tropas entraram por terra, a disputa estava ganha — embora ali tenha sido cavado o poço da intervenção que atribulou George W. e até hoje engole soldados e recursos americanos.

FIDELIDADE –  Sully, no velório em Houston: o grande companheiro no fim da vida

FIDELIDADE –  Sully, no velório em Houston: o grande companheiro no fim da vida (Evan Sisley/Handout/Reuters)

Sucessor de dois mandatos de Ronald Reagan, de quem foi vice, no campo doméstico não chegou nem perto da popularidade que o ex-chefe amealhou. Um ano depois de assumir, em uma economia desacelerada, Bush aumentou a carga tributária, descumprindo solene promessa de campanha: “Leia meus lábios: não haverá novos impostos”. Em paralelo, a epidemia de aids se alastrou, e ele pouco fez para combatê-la. Mesmo assim, chegou a 1992 certo da reeleição — e perdeu para Bill Clinton.

Nascido em família milionária, criado em casa cheia de serviçais e dono de fortuna própria obtida com a exploração de petróleo no Texas, onde fez sua carreira política, Bush retirou-se da vida pública aos 68 anos, mas continuou ativo. Foi conselheiro de George W., de quem era próximo e de quem sentia orgulho, e de Jeb, o filho que governou a Flórida e disputou a candidatura republicana com Trump (a quem a família negou apoio até o fim). Também patrocinou causas humanitárias — por ironia, ao lado de Clinton. Comemorou os 90 anos pulando de paraquedas. Vítima da doença de Parkinson, passou a se locomover em cadeira de rodas, sempre sorridente e simpático — e por vezes inconveniente, segundo mulheres que teria apalpado nos últimos anos. Em abril, perdeu a mulher, Barbara, com quem estava casado havia 73 anos, e ganhou a companhia de Sully, um labrador treinado para cuidar de deficientes físicos. Bush morreu na sexta-fei­ra 30, aos 94 anos, no Texas. Sully guardou o caixão tanto lá quanto nas homenagens em Washington.

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2018, edição nº 2612