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Na toca da pantera

O documentário ‘Górgona’ descortina a luta de Maria Alice Vergueiro — atriz de teatro celebrizada por um vídeo sobre maconha — com a velhice e a doença

Por Maria Carolina Maia - 23 mar 2018, 06h00

Em uma das cenas mais contundentes de Górgona (Brasil, 2016; em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília a partir de quinta 29), a atriz Maria Alice Vergueiro, protagonista do documentário, contempla serenamente as alternativas que restarão quando a idade lhe roubar todas as forças: “O ruim é quando você fica dependente dos outros muito tempo. Se desse para ter uma eutanásia…”. A conversa tem lugar no palco de As Três Velhas, que Maria Alice dirigiu e estrelou de 2010 a 2014, e ela está a caráter, com a maquiagem e o vestido negro do espetáculo. Escrita pelo cineasta chileno Alejandro Jodorowsky, a peça trata, sobretudo, de velhice e morte, temas também centrais no documentário de Pedro Jezler e Fábio Furtado (cofundador, ao lado de Maria Alice, da companhia teatral Pândega). No entanto, a atriz que se vê no filme é a senhora vibrante de um dos primeiros sucessos brasileiros do YouTube — Tapa na Pantera, curta em que ela encarnou uma irreverente velhinha que adora maconha.

De cadeira de rodas desde uma malsucedida cirurgia para a colocação de próteses nos joelhos e com movimentos e fala prejudicados pelo Parkinson, Maria Alice e sua luta contra o próprio corpo, que sucumbe enquanto ela segue lúcida e bem-humorada, estão no centro de Górgona. O documentário é curto — pouco mais de uma hora — e quase cru de tão simples. Concentra-se nos ensaios e nos diálogos nos bastidores de As Três Velhas. O título faz referência às Górgonas, três figuras monstruosas da mitologia grega — a mais célebre delas é a Medusa, com sua cabeleira de cobras e seu olhar que petrifica mortais —, que aqui representam a morte, uma constante na vida recente da paulista de família quatrocentona. A eutanásia de que ela fala no documentário foi efetivamente solicitada ao ator Luciano Chirolli, o Lucci, amigo com quem Maria Alice produziu nove espetáculos e com quem divide, há uma década, o amplo apartamento herdado dos pais no bairro de Higienópolis, em São Paulo. “Anos atrás, ela me pediu para dar uma forcinha se estivesse entubada, inconsciente, sofrendo. Eu falei que sim, mas não sei se vou poder cumprir”, conta Lucci, que a acompanhou em três internações hospitalares no fim de 2017.

O documentário mostra que Maria Alice saiu endividada de As Três Velhas, mas ela não se aflige com esses contratempos do teatro underground. Já vendeu até casa e joias de família para bancar peças. Apareceu pouco no cinema e na televisão. Na Globo, fez a novela Sassaricando (1987-1988) e a série O Sistema (2007). Maria Alice reconhece que poderia estar melhor financeiramente se tivesse embarcado em outras novelas: “Meu sentimento é dúbio. Quando se fala em dinheiro, fala-se em Globo. Por que não entrei nessa muamba? Eu me arrependo um pouco. Por outro lado, fico satisfeita de ter resistido, porque é muita bobagem”, diz a atriz, que, no entanto, se assume espectadora de O Outro Lado do Paraíso: “Walcyr Carrasco é um bom dramaturgo. Mas novela é uma coisa previsível”.

No palco, Maria Alice trilhou carreira junto a grupos alternativos como o Oficina e o Ornitorrinco, que fundou ao lado do ex-aluno Cacá Rosset. Em Górgona, aliás, ela se mostra ressentida por não ter tido José Celso Martinez Corrêa, do Oficina, no público de As Três Velhas. Apesar disso, trabalhou, no ano passado, com o Oficina em Why the Horse?, outra peça que versava sobre a morte.

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O estouro do curta Tapa na Pantera, do trio Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes, hoje com 7 milhões de visualizações, acabou por congelar Maria Alice na imagem de velha que não vive sem um cigarrinho ilegal. “É aquela maconheira”, ela ouviu, nos estúdios do Projac, de dois funcionários da Globo que a viram passar. “Para toda uma geração, a Maria é a personagem de Tapa na Pantera”, diz Fábio Furtado. A propósito: sim, Maria Alice, aos 83 anos, ainda dá seus tapas na pantera.

Sob o olhar de quem chama de “companheirão” — Lucci, o amigo que dorme com a porta do quarto aberta, pronto para ser convocado no meio da noite — e de três cuidadoras que se revezam para medicá-la, arrumá-la e deslocá-la pelo apartamento decorado com imagens de Santo Antônio e um enorme pôster de Samuel Beckett, Maria Alice sente a aproximação da cena final. Anda lendo O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, que a deixa, como diz, em “processo de reflexão”. E admite sentir receio do fim. “Tenho mais dúvidas do que crença sobre o que vem depois e tenho pensado bastante nisso desde que meu irmão morreu. Na véspera da morte, ele disse que estava com medo”, conta Maria Alice, lembrando o publicitário e produtor musical Luiz Pereira de Campos Vergueiro Neto, morto em 2010. “Deve ser um momento muito solitário.”

Lucci corrobora: “Deve ser como o pavor que o ator sente quando bate o terceiro sinal, na hora de abrir a cortina. Pode se abrir uma passagem, como se diz, para um grande silêncio mineral”. Embora tenha medo da solidão que antecede a morte, Maria Alice Vergueiro por ora segue bem acompanhada.

Publicado em VEJA de 28 de março de 2018, edição nº 2575

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