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Mais devagar

Coluna publicada em VEJA de 20 de dezembro de 2017, edição nº 2561

Todo cidadão honesto que tem uma causa qualquer na Justiça deseja, acima de tudo, que o processo ande o mais rápido possível. Por que iria querer algo diferente? Se a pessoa está com a consciência tranquila em relação aos atos que praticou, tudo o que quer nesta vida é que a Justiça ande depressa, resolva logo o seu caso e lhe entregue de volta a sua paz. Mas há no Brasil, neste preciso momento, um homem que está querendo justamente o contrário. Ele se queixa de que no seu caso a Justiça está indo rápido demais; exige que para ele a Justiça seja lenta. Quem já ouviu falar de uma coisa dessas? Há 500 anos existe neste país uma certeza acima de qualquer outra: do presidente do Supremo Tribunal Federal ao mais ordinário advogado de porta de cadeia, todo mundo acha que um dos problemas mais repulsivos do Brasil é a lentidão da Justiça. Justiça que tarda não é justiça, ouvimos desde o jardim de infância; só os ricos, os poderosos e os culpados tiram proveito de processos que vão se arrastando até o Dia do Juízo Universal.

O ex-presidente Lula, naturalmente, deveria ser 100% a favor de uma Justiça rápida e simples — a única que atende ao interesse do cidadão comum, sobretudo dos mais pobres. Mas não. É ele, justamente ele, o homem que está fazendo hoje uma campanha inédita pela lentidão da Justiça. Lula, como se sabe, foi condenado por crime de corrupção a nove anos e meio de cadeia, no dia 12 de julho de 2017, pelo juiz Sergio Moro. Recorreu da sentença ao TRF4, em Porto Alegre, que desde então estuda o seu caso e acaba de marcar para 24 de janeiro de 2018 o julgamento do apelo. O que poderia haver de errado com isso? Eis aí, afinal, um exemplo claro de magistrados que trabalham com rapidez, cumprem seu dever junto ao público e não aceitam o adiamento eterno das sentenças. Mas Lula e todo o seu sistema de apoio ficaram imediatamente indignados. Acham que o TRF4 está andando “depressa demais”. Que outros casos levaram mais tempo para ser julgados. Que o certo seria jogar tudo para mais tarde.

Não dá para entender. Os seis meses e meio que o tribunal levará estudando o caso, entre a condenação e a decisão sobre o recurso, já não seriam mais do que suficientes para esclarecer tudo? Seis meses e meio? Depois de todo o tempo, quase um ano inteirinho, que seus advogados já tiveram para defendê-lo, entre a apresentação da denúncia, em 14 de setembro de 2016, e o dia do julgamento pelo juiz Moro? Essa história vai completar um ano e meio daqui a pouco. Será que ainda não chega? Mais que isso, enfim, há a questão que não quer calar: é incompreensível que Lula não aceite ser julgado o mais cedo possível se, como ele próprio já disse em público tantas vezes, nunca cometeu crime algum e garante que não existe no Brasil nenhum ser humano mais honesto que ele. É triste, também, que demonstre mais uma vez o seu desprezo integral pelas “instituições” de que tanto fala. As leis, as eleições, as decisões da Justiça, as votações do Congresso etc. só são boas quando são a seu favor. Caso não sejam, é tudo “golpe”, armação e ódio ao povo brasileiro. Em suma: só é legítimo, no Brasil, o que Lula aprova.

O ex-presidente, cada vez mais, parece trancar-se num mundo escuro. Só existem ali, hoje, a sua própria voz, as suas vontades e os seus interesses — a lógica e os fatos sumiram há muito tempo do pedaço. Ainda outro dia, no Rio de Janeiro, ele deu mais uma prova disso. Num comício para militantes do PT, disse o seguinte: “O Rio de Janeiro não merece que governadores que foram eleitos democraticamente pelo povo estejam presos porque roubaram dinheiro público”. Como? Será que Lula estaria lamentando a prisão de Anthony Garotinho e Sérgio Cabral? Por que esse “eleitos democraticamente”? E por que duvidar logo em seguida, duas vezes, se houve mesmo corrupção no Rio? “Eu nem sei se é verdade”, repetiu ele. Logo foram dadas explicações. Lula foi mal interpretado. Pode ter se atrapalhado um pouco com as palavras, mas, como tanta gente, estava apenas triste com o que vem acontecendo no Rio. Tudo bem. Mas só ele, em todo o Brasil, duvida que o governador Sérgio Cabral — já condenado a 72 anos de prisão e com outras treze ações penais pela proa — seja o maior ladrão que governou o Rio de Janeiro desde Estácio de Sá, conforme comprovado pela Justiça. Também não dá mais para apagar o que Lula disse a seu respeito: “Votar em Sérgio Cabral é uma obrigação ética, moral e política”.

Lula, já há muito tempo, decretou que só existem no seu passado os fatos que lhe interessam.

Publicado em VEJA de 20 de dezembro de 2017, edição nº 2561