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João Roberto Kelly: Vem me soltar, Gilmar!

Aos 79 anos, autor de 'A Cabeleira do Zezé' e 'Maria Sapatão' fala de sua contribuição para o próximo Carnaval: uma sátira política sobre o ministro do STF

Por que uma marchinha para Gilmar Mendes? O Gilmar é uma figura interessantíssima, porque ele é notícia quase todos os dias. Você abre o jornal, e ele está lá. Com todo o respeito, mas ele é uma marchinha carnavalesca, né? Para quem gosta de Carnaval com sátira, é um prato cheio. E o refrãozinho é gostoso: “Alô, Alô, Gilmar, / eu tô em cana, vem me soltar”.

Pode-se esperar ver o ministro como personagem deste Carnaval? Eu acho que ele é o personagem certo. Devem aparecer muitas máscaras dele nas ruas. Vem cá, é o cara que soltou o Garotinho, a Adriana Ancelmo e vários outros. Quem estiver a favor do ministro, me perdoe, mas eu acho que é louco. Não quero entrar no mérito do julgamento dele, se foi certo ou errado, isso não me compete. Mas é meu dever, como compositor e cronista, brincar com a situação. Estou me divertindo.

O senhor fez poucas sátiras políticas. Por quê? Nunca fui de satirizar a política, sabe? O Brasil veio de uma ditadura. Brincar com isso não era bom, nem eu achava graça. Quem fez sátira ali se deu mal. Mas agora está apropriado, né? Estamos com assuntos borbulhando.

Em 2017, houve quem quisesse banir algumas de suas músicas do Carnaval. Como reagiu? Essa coisa da patrulha não tem a ver com o espírito carnavalesco. O Carnaval é uma grande brincadeira. A gente não quer ofender ninguém, mas apenas brincar — com barrigudo, careca, transviado. Sou criticado pela Cabeleira do Zezé e pela Maria Sapatão? Eu não as fiz com a intenção de ofender. De jeito nenhum. Até porque não tenho nada contra gays ou sapatas. A Cabeleira do Zezé é uma música engraçada, com que todo mundo brinca, até as crianças. É basicamente uma sátira sobre a juventude rebelde daquela época, quando os camaradas começaram a usar cabeleira, influenciados por James Dean e pelos Beatles. Criei o “será que ele é?” e incluíram um “biiiiicha”. Não tenho nada contra, mas eu já disse: essa “bicha” não é minha!

Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2018, edição nº 2565