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Isso não vai acabar?

Aureo de Moraes, 52 anos, é o novo alvo da delegada do caso que levou o reitor da UFSC ao suicídio

Por Aureo de Moraes - 3 ago 2018, 07h00

Recebi um ofício da Polícia Federal que me convocava a depor em um inquérito do qual eu era o alvo. O número estava lá — 0120/2018-4 —, mas não havia referência alguma ao assunto que o motivava. E, assim, permaneci por quinze dias no absoluto escuro, na condição de investigado sem saber por quê. Quando descobri, fiquei atônito, chocado. Eu era suspeito de caluniar e difamar a delegada Erika Marena (ex-Lava-Jato). Ela comandou o inquérito sobre supostos desvios na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o mesmo que até hoje paira sobre a mesa do Ministério Público Federal. Embora cheia de inconsistências, a investigação deixou uma cicatriz trágica no câmpus — o suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo — e um clima policialesco, de insegurança e incerteza, que agora me atinge.

A questão que gravou meu nome no inquérito 0120 é um espanto. Em dezembro passado, a universidade celebrava seus 57 anos. Tomei a palavra a pedido da família de Cancellier, de quem fui chefe de gabinete e amigo por três décadas, para homenageá-lo e enfatizar, perante a comunidade acadêmica, a importância de seguir adiante depois do trauma. Esse discurso aparece editado em breves seis segundos em um vídeo produzido por estudantes. O que me fez virar caso de polícia foi a presença de uma faixa agitada logo atrás de mim. Ela trazia o rosto de quatro pessoas que encabeçaram as investigações envolvendo Cancellier — entre elas, a delegada Erika Marena — e a frase: “Agentes públicos que praticaram abuso de poder contra a UFSC e que levou ao suicídio do reitor”.

Não agitei aquela faixa, nem as várias outras que se viam ali. Mas não é essa a questão que me atormenta, ao contrário: o ambiente universitário é, por definição, um lugar da livre expressão de ideias, da tolerância e do aprendizado com o contraditório — e as faixas são parte do necessário exercício democrático. Muitas vezes, aliás, elas se voltam contra a própria reitoria, da qual faço parte, e daí? Participei do movimento estudantil em plena ditadura, sujeito ao medo constante. Agora, neste processo todo, que começou com as arbitrárias prisões de membros da universidade, até hoje afastados, vejo um retrocesso a métodos de quarenta, cinquenta anos atrás. Não estou dizendo que a universidade seja intocável e que má conduta não deva ser apurada e punida. Mas há muitas nuances e formas de lidar com o que soa suspeito. No meu caso, pergunto: por que a PF não me chamou para falar sobre a pequena manifestação daquele dia antes de me fazer alvo de um inquérito pelos seis segundos em que tão somente eu expressava meu luto? Teria total disponibilidade para ir lá esclarecer o que fosse preciso. Cancellier, que foi retirado de casa pela polícia e preso sem nem saber por quê, teria feito igual.

Compareci à delegacia em 11 de junho e fui arguido durante uma hora e meia. Perguntaram-me quem havia autorizado o evento dos 57 anos da universidade. Resposta: uma celebração dessas não precisa de autorização. Insatisfeitos, quiseram saber quem autorizou a exibição da tal faixa. Resposta: a universidade convive com manifestações diversas e não as cerceamos, a não ser que afrontem o estado de direito. Indagaram ainda quem eram os responsáveis pela faixa. Resposta: não aponto nomes porque não considero que ninguém tenha cometido crime algum. O atual reitor também foi convocado a depor, e eu mesmo mediei a ida dele à delegacia. Não sei se há outras pessoas sendo investigadas. O que vim a saber é que, além de ser suspeito de caluniar e difamar, estou sujeito a um processo por improbidade administrativa, o que pode me custar o cargo. Não se passa um dia em que eu não pense no Cancellier e em como erraram feio com ele. Será que isso não vai acabar?

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Depoimento dado a Monica Weinberg

Publicado em VEJA de 8 de agosto de 2018, edição nº 2594

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