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Geleia geral do pop

Citações e referências disputam espaço no delicioso e não raro vertiginoso ‘Jogador Nº 1’, o retorno de Steven Spielberg à sua melhor veia de entertainer

Por Isabela Boscov - 23 mar 2018, 06h00

Muito empregada em filmes e games, a expressão Easter egg, ou “ovo de Páscoa”, vem de uma tradição pascal, cultivada nos Estados Unidos e em alguns países europeus, de esconder ovos pintados de cores vivas para que as crianças os procurem. O termo designa citações e referências a elementos da cultura pop embutidas no enredo ou no visual de filmes e games e destinadas a fazer o deleite dos conhecedores que as encontram e decifram. Jogador Nº 1 (Ready Player One, Estados Unidos, 2018), assim, é perfeitamente apropriado à ocasião de sua estreia, na próxima quinta-feira, véspera do feriado de Páscoa: um labirinto de Easter eggs que dá várias voltas sobre si mesmo enquanto se abre para avenidas, ruas e becos também eles coalhados de Easter eggs, o filme de Steven Spielberg é ao mesmo tempo uma brincadeira ininterrupta e uma especulação distópica sobre um futuro cada vez mais presente — aquele em que a experiência virtual se sobrepõe à vida real com tanta intensidade que chega a substituí-la.

Está-se em 2045, e o mundo anda tão feio que a maior parte da humanidade prefere esquecer que mora nele. À parte breves intervalos para dormir, comer e cuidar de outras necessidades naturais, explica o jovem protagonista Wade Watts (Tye Sheridan), quase todas as horas do dia são passadas no Oasis, um jogo feito de incontáveis ambientes virtuais hiper-realistas. É fácil compreender o porquê quando se veem, por exemplo, as “Pilhas”, o bairro de Columbus, Ohio, em que Wade mora — um amontoado periclitante de contêineres sem conforto nem privacidade, cercado de pichações e ferro-velho e retratado com minúcia atordoante pelo diretor de fotografia Janusz Kaminski, colaborador de Spielberg desde A Lista de Schindler. Em qualquer janela das “Pilhas” pela qual se espie, encontra-se alguém com os óculos de realidade virtual (quem pode pagar usa ainda vestes que transmitem sensações para todo o corpo), dançando, gesticulando ou lutando com o vazio enquanto faz sabe-se lá o que nesse mundo impalpável. No Oasis, vencem-se fases e acumulam-se troféus e fortuna (de mentirinha), como em qualquer jogo. Mas nele também é possível sair para a balada, fazer exercício, frequentar rodinhas, dedicar-se a passatempos que seriam caros demais para os bolsos de verdade, exercer uma vocação que não se poderia alcançar — e ser alguém mais interessante.

Concorrência desleal – A beleza do Oasis (no alto) e a Columbus de 2045 (acima): desejo de fugir da realidade //Divulgação

O que torna o Oasis verdadeiramente fascinante para seus usuários, porém, são as suas especificidades: o jogo é como que uma réplica da mente de seu criador, James Halliday (Mark Rylance, de Ponte dos Espiões), um nerd introvertido que durante a vida fez um único amigo — seu sócio Ogden Morrow (Simon Pegg). Como muitos solitários, Halliday teve uma rica existência dentro da própria cabeça, mergulhado na cultura pop e reorganizando-a em um universo particular. Muitos dos frequentadores do Oasis são peritos em Halliday, aliás. Aprender a navegar as correntes idiossincráticas da sua imaginação é um esporte em si, e quem o leva a sério pode inclusive recorrer a uma biblioteca em que todas as memórias desse gênio retraído foram cuidadosamente arquivadas.

Nesse sentido, Jogador Nº 1 é como uma imagem refletida no espelho até o infinito: o escritor Ernest Cline reconstruiu o próprio repertório ao criar Halliday no romance homônimo em que o filme se baseia; Spielberg e o roteirista Zak Penn então submeteram esse acervo a seus filtros e novamente o reorganizaram e também expandiram — e, enquanto assiste ao filme, cada espectador vai fazendo a sua curadoria particular, com base nas referências que “pesca” ou não e nos elementos com os quais se identifica mais proximamente. É impossível calcular quanta graça é acrescentada a esse caleidoscópio pelo fato de Zak Penn (roteirista dos X-Men, de Os Vingadores e de mais uma futura regurgitação pop, Karate Kid 2) e Spielberg não serem meros observadores, mas participantes ativos da fusão pop. O diretor, em especial, é um criador fertilíssimo de ícones culturais desde os anos 70, e foi muito consumido por Cline — que, aos 45 anos, integra a geração atingida em cheio pelo seu reinado no cinema. Spielberg exclui de Jogador Nº 1 muitas das referências que o livro faz à sua obra; a única menção ostensiva a ela é um T-Rex que anda pelo Oasis. Mas, como a sua rede de influência é vasta, o filme vem cheio de homenagens oblíquas. Por exemplo, uma corrida vertiginosa na qual Wade — ou melhor, seu avatar, Parzival — pilota o DeLorean de De Volta para o Futuro, que Spielberg produziu para o diretor Robert Zemeckis. Ou ainda uma sequência espetacular dentro do Iluminado de Stanley Kubrick (a cujo pedido Spielberg fez A.I. — Inteligência Artificial), que reproduz tão perfeitamente o filme, e utiliza tão bem certos momentos-chave dele como Easter eggs, que pode levar ao delírio os Kubrick-maníacos.

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Como em muito do trabalho de Spielberg, a amizade é o elemento crucial de redenção em Jogador Nº 1. Dentro do Oasis, firmam-se conexões leais e duradouras entre pessoas que nunca sequer suspeitariam ser quem são se dividissem o banco de um ônibus ou a mesa de um café. Como, por exemplo, aquela que une Parzival e Aech (Lena Waithe), e à qual logo se soma Art3mis (a encantadora Olivia Cooke, de Eu, Você e a Garota que Vai Morrer), uma graça de rebelde por quem Wade/Parzival fica perdida e desengonçadamente apaixonado. O trio faz parte de um punhado de fanáticos que, ao cabo de cinco anos infrutíferos, ainda procura por três chaves mágicas que Halliday ocultou no jogo antes de morrer. Cada chave leva à seguinte, e o primeiro jogador a solucionar o enigma ganhará controle total — e propriedade real, com contrato assinado — sobre o império que é o Oasis.

Siga a garota – Art3mis (Olivia Cooke), a paixão de Wade: o avatar é uma graça, mas a garota de verdade é ainda melhor //Divulgação

Esses caçadores têm um opositor de peso: Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), presidente da corporação rival da Gregarious Games, proprietária do Oasis. Inescrupuloso, ardiloso e fingido como devem ser os vilões de matinê, Nolan mantém um grupo de jogadores permanentemente escarafunchando o Oasis em busca das chaves, e outro grupo, este de alunos nota 10 de colégio, sempre procurando pistas nos filmes, músicas, jogos e livros preferidos de Halliday — e amplificando o ricochete de referências. (Em mais um momento delicioso de Jogador Nº 1, esse grupo reencena uma das melhores experiências coletivas já proporcionadas pelo cinema: o momento de Os Caçadores da Arca Perdida em que a plateia espontaneamente avisava o arqueólogo Indiana Jones, em uníssono, de que ele deixara cair seu chapéu.)

Desde Guerra dos Mundos, de 2005, Spielberg não fazia uma ficção científica, e possivelmente desde Prenda-me Se For Capaz, de 2002, não imprimia tanta alegria a um filme. Mas Jogador Nº 1 é o diretor na sua melhor veia de entertainer — fluente, brincalhão, leve no toque (apesar de uma ou outra passagem mais arrastada), superlativo nas variadas linguagens visuais que o enredo pede e cheio de empatia para com seus personagens. Em especial para com o avoado e balbuciante James Halliday, que construiu o mais vasto e intrincado repositório de cultura compartilhada de que se tem notícia mas nunca conseguiu juntar coragem para dividi-lo em pessoa com ninguém. O escapismo pode ser divertido e mesmo saudável, reafirma o cineasta que ergueu sobre ele a sua carreira. Mas viver a vida com gente de carne e osso é ainda mais excitante, avisa o homem por trás dele.

Publicado em VEJA de 28 de março de 2018, edição nº 2575

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