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Gastão Schefer Neto: Vizinhos no limite

O delegado da PF que empurrou caixas de som no acampamento pró-Lula em Curitiba diz que agiu não como policial, mas como morador irritado com a barulheira

Por que o senhor derrubou equipamentos de som de um ato de apoio a Lula? Sou vizinho da Superintendência da PF. Fiz isso pelo bem-estar da minha filha. Ela é recém-nascida, e os manifestantes, fazendo barulho, não a deixaram dormir à noite. Ela estava estressada, chorava sem parar. Às 8 da manhã, eles ligaram os aparelhos de som para dizer o famoso “Bom dia, presidente”. Minha filha começou a chorar novamente e isso me irritou de tal forma que eu, sem pensar, saí de casa, entrei no acampamento e chutei as caixas de som.

O senhor foi lá como policial? Não, não tem nada a ver. Não foi um ato pensado ou premeditado. Eu apenas estava e estou de saco cheio da baderna.

O senhor se considera de direita?  Sim. Gosto do Bolsonaro e já era a favor da prisão do Lula. Ele foi julgado em primeira, segunda instância, no STF. Pô, todo mundo tem de julgar o cara? Mas é minha posição pessoal. Não falo pela PF.

Como é conviver com os militantes acampados? É um grupo de umas 400 pessoas. Há pessoas boas e ruins ali. Mas elas tomaram o nosso bairro, Santa Cândida, residencial e arborizado. Ditam regras sobre quando você sai ou não. Dizem que, se não soltarem o Lula, não vão embora. Isso é abuso, não manifestação.

O que seus vizinhos dizem? Temos um grupo no WhatsApp que se chama “vizinhos no limite”. Todos estão cansados. Sabe fim de show, com aquela montanha de lixo, latas de cerveja, bitucas de cigarro e papéis espalhados? É exatamente assim que fica a rua diariamente. Teve vizinho que jogou balde de água neles, outros dois brigaram de murros com eles.

Como os acampados reagiram quando o senhor quebrou a caixa de som? Ainda estou cheio de hematomas por causa dos chutes, socos e pontapés que levei no acampamento.

Pode-se dizer que o sonho do senhor, de ver o ex-presidente preso, virou um pesadelo? Não quero que o Lula fique aqui de jeito nenhum. Como brasileiro, quero que ele fique preso, mas em outro lugar.

A Polícia Civil está investigando o caso. O senhor teme ser indiciado? Confio na Justiça. E espero que eles desocupem o lugar e vão embora.

Publicado em VEJA de 16 de maio de 2018, edição nº 2582