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Futuro sombrio

Nos dois casos, o ataque à caravana de Lula e as ameaças ao ministro Fachin, estamos diante de uma afronta às liberdades democráticas

Por Da Redação - 30 mar 2018, 06h00

As circunstâncias exatas em que a caravana do ex-presidente Lula foi alvejada por três tiros no interior do Paraná, na terça-feira da semana passada, ainda não foram totalmente esclarecidas — e, a depender dos detalhes que venham à tona, talvez a leitura do episódio seja alterada. Mas, até agora, surgiram indícios de que se tratou de um ataque organizado, entre outros, por militantes de extrema direita. Pois bem. Se a suspeita for confirmada, o caso, além de intolerável agressão à democracia, terá sido um brutal erro político.

Nessa hipótese, o atentado a bala dará — e em boa medida já está dando — consistência inédita ao discurso vitimizador do PT. Se antes Lula caía no vazio ao dizer que era alvo de uma caçada antidemocrática, de uma perseguição implacável destinada a destruí-lo a qualquer custo, os radicais arruaceiros, agora, acabaram de dar razão a Lula. Afinal, ser alvo de um atentado a bala é, sem dúvida, uma caçada antidemocrática, uma perseguição implacável. Trata-se de uma ação inaceitável.

Embora distintas na forma e no conteúdo, as ameaças contra o ministro Edson Fachin e sua família, reveladas por ele próprio em entrevista ao jornalista Roberto D’Ávila, são igualmente deploráveis e, também elas, constituem agressão intolerável à democracia. Fachin, ministro do Supremo Tribunal Federal, não detalhou as ameaças que vem recebendo, mas é fácil supor que elas tenham relação com seu papel decisivo nos desdobramentos da Lava-Jato, que, pela primeira vez na história brasileira, sinaliza encerrar a longa impunidade de criminosos de colarinho branco.

Nos dois casos, o ataque à caravana de Lula e as ameaças ao ministro Fachin, estamos diante de uma afronta às liberdades democráticas. Pouco importa o que se pensa de Lula, do PT, de Fachin, do STF ou da Lava-Jato. Pouco importa que Lula e o PT tenham, eles próprios, defendido de modo sistemático, tanto na oposição quanto no governo, a intolerância contra seus adversários políticos. Pouco importa, enfim, que os petistas estejam agora recebendo tratamento semelhante ao que já dispensaram aos inimigos. Não estamos sob o império da lei de talião. Em uma democracia, esse tipo de violência não é tolerável, independentemente de quem seja a vítima e de quem sejam os autores.

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Cabe às autoridades investigar esses crimes e puni-los com a eficácia prevista na lei. Se a resposta a esse comportamento criminoso não for efetiva, lamentavelmente o futuro será sombrio para a ainda jovem democracia brasileira. Porque a inação do Estado contra a violência política é, em si mesma, uma forma de violência política.

Publicado em VEJA de 4 de abril de 2018, edição nº 2576

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