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Furacão de olhos azuis

Loira extasiante e senhora de todas as cenas, a atriz Tônia Carrero — morta no sábado 3, aos 95 anos — foi um elo entre o velho e o novo showbiz

Em seu primeiro trabalho, o filme Querida Suzana, de 1947, a carioca Maria Antonietta Portocarrero seria mera figurante. Mas a novata atriz fez valer a diva que havia dentro de si: exigiu ao menos uma fala na trama. Diante da loira belíssima e de personalidade impositiva, ninguém ousou dizer não. Etapa vencida, chegou a hora de decidir como ela apareceria nos créditos. Seu impulso era usar o nome de batismo. “Você está louca?”, ralhou sua professora de canto, advertindo que ela seria confundida com uma cantora de rumba. A estreante então assumiu a alcunha artística familiar ao Brasil inteiro: Tônia Carrero. No episódio já se revelava certo destemor diante do risco de dar a cara a bater, tão característico da atriz, que morreu na noite de sábado 3, ao sofrer uma parada cardíaca numa cirurgia para tratar uma úlcera. Ela tinha 95 anos, mas se retirara de cena fazia pelo menos cinco, em razão de uma doença cerebral degenerativa. “Minha carreira foi feita de estágios que fui vencendo um a um, e querendo mais. Nunca me acomodei. Essa é minha história”, resumiu, na sua última década de vida, à biógrafa Tania Carvalho.

Quando lhe perguntavam qual era a principal qualidade de uma atriz, Tônia tascava: “Nascer com uma estrela na testa”. Ela era a melhor prova disso. Filha de um general que amava teatro e de uma mãe que nunca aceitou sua ideia de virar atriz, Tônia já brincava de estrela na adolescência, ao copiar o visual de Ginger Rogers e Olivia de Havilland. Lances pessoais e passos artísticos se confundiram em sua biografia. Aos 18 anos, ela se casou com o cenógrafo Carlos Thiré — com quem teria, aos 21, seu único filho, Cecil Thiré (que a brindaria com uma numerosa família, de quatro netos e cinco bisnetos). Pouco depois de ser mãe, Tônia foi estudar teatro em Paris. Nos anos 40, lançou-se nos palcos ao mesmo tempo em que conheceu seu segundo marido. A relação com o italiano Adolfo Celi, figura inovadora do teatro, precipitou uma guer­ra com a titular dele, Cacilda Becker. A trupe tomou as dores da então grande dama. “Eles queriam que eu me sentisse uma intrusa e fosse embora. Fiquei. Tinha tanto direito de estar ali como aquela senhora. Éramos atrizes”, dizia. Ela se tornaria tão famosa quanto Cacilda. Só tinha um ponto fraco: cantava mal. Irritado com sua desafinação num ensaio, o maestro Heitor Villa-Lobos quebrou uma batuta e saiu furioso do recinto.

“É falso se sentar sobre os louros. O que se conseguiu é história, e as pessoas esquecem.”

Tônia Carrero (1922-2018)

A estreia no teatro se deu no TBC, célebre companhia dirigida por Celi. De cara, contracenando com Paulo Autran, que seria seu parceiro habitual. Em paralelo, Tônia se projetou no cinema. Na Vera Cruz, fez sucessos como Tico-Tico no Fubá (1952), com direção de Celi (de quem se separaria algum tempo depois). Na maturidade, ela foi um elo entre o velho e o novo showbiz, indo dos filmes em preto e branco às novelas. Em Água Viva, escrita por Gilberto Braga em 1980, encantou o país como a dondoca Stella Simpson. Também na Globo, ganhou um duplo presente em Sassaricando: a trama de 1987 de Silvio de Abreu lhe deu a chance de contracenar com o amigo Autran e ser dirigida pelo filho, Cecil.

A essa altura, Tônia se distanciava da atriz de prestígio do teatro para incorporar a celebridade instantânea. “Ela faz um personagem frívolo para uso externo, mas é uma pessoa de rigor absoluto”, dizia Autran. A amiga corroborava: “Eu falo uma bobagem e faz tanto sucesso que é melhor falar bobagem”. De vez em quando, a bela sabia ser fera — e o título da autobiografia, O Monstro de Olhos Azuis, mostra que encarava isso numa boa. Nos anos 50, teve um barraco com o jornalista Paulo Francis. Ele não perdia a chance de chamá-la de “sexy” — ou seja, apenas mais uma atriz bonitinha — nas suas críticas teatrais. Tônia deu o troco dizendo que, apesar de “sofrer do fígado”, Francis também era “sexy” — o que, na época, significava que um homem era gay. A diva era fogo, mas irresistível. Para o cronista Paulo Mendes Campos, seu brilho ofuscava o Rio: “Ela iluminava Ipanema, as salas, as praias, as ruas”.

Publicado em VEJA de 14 de março de 2018, edição nº 2573