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Femme fatale por natureza

Jeanne Moreau, que morreu na segunda-feira (31) em Paris, sobrepôs-se até a Brigitte Bardot e a Catherine Deneuve como o grande ícone do cinema de seu país

Os lábios cheios mas de expressão severa, os olhos de alcova, o ar de desafio ou, às vezes, de um enfado tipicamente gaulês: com uma personalidade que agigantava o seu miúdo 1,60 metro de altura e um talento moderno, que eletrizava a tela com suas contracorrentes, Jeanne Moreau foi uma combinação turbulenta de feminilidade — ela era razoavelmente bonita, mas absolutamente sedutora; matéria-pri­ma de fantasias masculinas, mas também a encarnação de uma independência irredutível de corpo e espírito. Jeanne era a mulher que, entre o marido e um amante, escolhia o último, sem revelar nenhum traço de remorso ou temor (em Amantes, de 1958, de Louis Malle) — ou que, entre dois amantes, escolhia a ambos (em Uma Mulher para Dois, de 1962, de François Truffaut). Não é acaso que ela se tenha tornado a atriz-símbolo da nouvelle vague francesa: um novo cinema exigia uma nova estirpe de protagonista, tão livre e anticonvencional quanto ele próprio.

Passei a vida tentando provar a meu pai que tinha razão em querer ser atriz.

Jeanne Moreau (1928-2017)

Jeanne, que morreu na segunda-fei­ra 31 em Paris, aos 89 anos, de causas naturais, decidiu que seria atriz aos 15 anos, assistindo a uma montagem da tragédia grega Antígona. Mas, ao comunicar sua decisão ao pai, levou um tapa na cara — e o tomou como encorajamento para fazer de si o que bem entendesse. Aos 20 anos, tornou-se a mais jovem integrante regular da história da Comédie-Française. A despeito da década de consagração que teve nos palcos da Comédie e do Teatro Popular Nacional, para onde migrou em seguida, foi no cinema que sua singularidade se mostrou plenamente. Atriz de minúcias quase abstratas, que desde a juventude irradiava uma sexualidade madura e uma força que não raro submergia os companheiros de cena, Jeanne sobrepôs-se até a Brigitte Bardot e a Catherine Deneuve como o grande ícone do cinema de seu país. Em 1973, já na maturidade, veio ao Brasil para filmar Joanna Francesa, sob a direção de Cacá Diegues — e consta que enlouqueceu todos os homens a sua volta. Jeanne Moreau não tinha idade. Era uma femme fatale por natureza.

Publicado em VEJA de 9 de agosto de 2017, edição nº 2542