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“Eu temia a ignorância”

A atriz Ana Beatriz Nogueira, de 51 anos, que revelou sua luta contra a esclerose múltipla

Por Ana Beatriz Nogueira
Atualizado em 4 jun 2024, 17h05 - Publicado em 9 fev 2018, 06h00
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  •  (Paulo Vitale/VEJA)

    No começo de 2009, eu passava por uma fase extremamente produtiva em minha vida. Gravava a novela Caminho das Índias e me preparava para dirigir um show da minha amiga Zélia Duncan. Mas, certa madrugada, senti algo estranho enquanto via um filme: minha visão ficou embolada. Imaginei que era um defeito na legenda, mas o problema não passava. Na festa de lançamento da novela, fiquei perdida diante de uma escada. Ao ver Tony Ramos e a mulher dele, Lidiane, grudei no casal até chegar ao salão da festa. Rimos muito desse absurdo. O médico constatou que eu estava com visão dupla, ou diplopia. Fiz todos os exames oftalmológicos da face da Terra, e atribuímos o problema a um remédio para dormir. Rapidamente, minha rotina voltou ao normal. Meses depois, contudo, tive outro surto. Em novembro de 2009, no momento em que eu estava saindo de férias, veio o terceiro surto. Fiz mais exames e, finalmente, recebi o diagnóstico: eu tinha esclerose múltipla. Uma doença degenerativa, progressiva e sem cura.

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    Se demorei nove anos para revelar que sou portadora da doença (a informação saiu na coluna de Patrícia Kogut, na edição do domingo 4 do jornal O Globo), foi por uma razão simples. Quando descobri a esclerose múltipla, minha primeira reação foi correr para a internet atrás de informações. E tudo o que eu lia só me deixava mais alarmada. Com o tempo, descobri que milhares de pessoas convivem de modo satisfatório com a esclerose. Mas não havia depoimentos animadores na internet. Se eu tivesse lido uma entrevista como a minha ao saber que tinha a doença, as coisas teriam sido menos dolorosas. Por isso, decidi que vou criar uma página nas redes sociais para trocar experiências com pessoas com esclerose ou outras doenças autoimunes.

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    Penei até descobrir o que é a esclerose múltipla. A doença tem várias formas e se manifesta com diferentes graus de gravidade. Precisei de um tempinho para entender como funcionava comigo. Se a doença afeta as funções cognitivas, qual seria meu futuro como atriz, trabalhando com o corpo? Às vezes, eu me fazia aquela pergunta: por que eu? Agora, sei que é preciso pensar diferente: por que não eu? Tem muitas coisas nesse caminho que mudam você para melhor. Por isso, quero tanto criar esse espaço na internet. Uma coisa importante que ouvi de um neurologista é que não importa qual a doença neurológica específica de cada paciente, mas sim o impacto dela na vida da pessoa. Você pode ser portador de uma doença, mas sem estar doente. Na verdade, eu tenho a forma mais branda da esclerose e levo uma vida absolutamente normal. Desde que comecei a me tratar com uma injeção diária de um imunomodulador, nunca mais tive nenhum surto. Minha agenda não poderia ser mais promissora: estou ensaiando uma nova peça teatral, gravando participação em Malhação e me preparando para fazer a próxima novela das 9 do Aguinaldo Silva.

    Falo sobre isso com naturalidade agora, mas nem sempre foi fácil. Levei tantos anos para tomar coragem de trazer minha condição a público porque tinha medo da mesma ignorância que eu exibia no início. Ao contar que tinha esclerose a algumas pessoas, cheguei a ouvir coisas do tipo: “Coitada, vamos para a África que lá tem um curandeiro que vai salvar você”. Meu temor era que isso abalasse minha vida profissional. Poderiam pensar: “A Ana vai ter um problema no meio da peça ou das gravações, então é melhor dar seu papel a outra”. E o trabalho foi o melhor antídoto contra a doença. Eu não parei nem no ano em que soube do diagnóstico. Ao gravar Caminho das Índias com meu parceiro em cena, via dois Antonios Callonis na minha frente e tinha de decidir qual deles abraçar. Agora, ele e outros colegas queridos enfim podem imaginar o que eu estava passando. Ao contar ao mundo que tenho esclerose múltipla, tirei o peso de um tiranossauro rex das costas.

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    Depoimento colhido por Marcelo Marthe

    Publicado em VEJA de 14 de fevereiro de 2018, edição nº 2569

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