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“Estou envergonhada”

Decepcionada com o PSDB, deputada Mara Gabrilli conta como Aécio Neves a enganou e revela detalhes sobre tratamento para recuperar os movimentos do corpo

Aos 50 anos, Mara Gabrilli cumpre seu segundo mandato de deputada federal. Eleita com 155 000 votos, ela diz viver sua maior desilusão com o PSDB, partido ao qual pertence desde 2003, sobretudo depois que vieram à tona as denúncias contra o tucano Aécio Neves. “Talvez eu tenha sido ingênua em relação ao Aécio”, admite. Filha de um empresário do setor de transporte de Santo André, na região metropolitana de São Paulo, a deputada está sempre acompanhada de dois seguranças, uma precaução necessária devido ao seu empenho em elucidar o assassinato do ex-prefeito Celso Daniel, do PT, em 2002. Nesta entrevista a VEJA, ela também fala sobre o tratamento experimental a que se submete nos Estados Unidos na tentativa de recuperar movimentos que perdeu em um acidente de carro, em 1994 , que a deixou tetraplégica.

A senhora sempre foi crítica à corrupção no PT. O que acha dos últimos episódios envolvendo o PSDB? Fiquei bem desiludida desde que veio à tona a história do Aécio Neves. Logo na sequência, encontrei um cadeirante na entrada da Câmara, começamos a conversar e, a certa altura, ele me perguntou qual era meu partido. Foi a primeira vez que não senti orgulho de dizer que era o PSDB. Talvez tenha sido ingênua, principalmente em relação ao Aécio.

Por quê? Em 2015, procurei o senador para fazer uma denúncia. Tinha a ver com pagamento de propina, pacotes de dinheiro. Fiquei duas horas falando sobre o envolvimento de pessoas do PSDB com criminosos. Uma delas era o Ronan Maria Pinto (empresário acusado de envolvimento na morte de Celso Daniel). Ele disse que não conhecia ninguém, que infelizmente nem todos no PSDB eram honestos como nós dois. Ele me fez de boba.

A senhora ficou surpresa ao tomar conhecimento do diálogo em que o senador Aécio Neves pede dinheiro ao empresário Joesley Batista? Fiquei com vergonha. Depois dessa história de 2015, comecei a ficar meio cabreira com ele. Mas há outras coisas que aconteceram em Minas Gerais. Marcos Valério, o operador do mensalão, em uma das visitas que fiz a ele na cadeia, me contou de pessoas que, em nome do PSDB, ofereceram dinheiro para que ele se calasse e não revelasse a corrupção no partido no acordo de delação que está tentando fazer. Para mim, isso foi o estopim. Eu sempre disse que o PT matava. Agora, no entanto, não duvido de nada de nenhum partido, inclusive do meu.

A senhora tem medo de ser assassinada? Quando fui ao presídio, essa foi a primeira pergunta que Marcos Valério me fez: “Você não tem medo de morrer?”. Ele mesmo disse várias vezes que está morrendo de medo. Respondi que, se quisessem me matar, já teriam me matado antes. Afinal, fui eu que fiz a denúncia quando Celso Daniel foi assassinado. Também fiz um dossiê sobre Ronan Maria Pinto e o entreguei ao juiz Sergio Moro. Acredito que Lula vai acabar preso no caso do Celso Daniel. Marcos Valério me disse que tem as provas que incriminam o ex-presidente.

A senhora pretende continuar no PSDB? Não sei o que fazer. Muitos tucanos também não sabem. Agora estão ficando evidentes os dois lados do partido, e o racha já está chegando à agressão. Além disso, o PSDB é um pouco machista, visto pelo prisma de que é muito difícil uma mulher sair candidata numa campanha majoritária. É sempre um homem. Por causa disso, não sei meu futuro em 2018.

A senhora foi cotada para ser ministra dos Direitos Humanos no governo Temer. Fiquei lisonjeada, mas não tinha certeza se deveria entrar no governo. Gosto do Temer, eu o acho educado e cordial. Mas não consigo esquecer que ele foi vice de Dilma Rousseff durante todos aqueles anos e nunca falou nada sobre corrupção.

A senhora tem alguma ideia da razão desse silêncio? Acho que Temer é corrupto, como muitos. Tirando o peso da palavra, ele entrou no esquema que sempre existiu. “Todo mundo fez” é uma das frases mais ouvidas no Congresso. Não há um questionamento. A gente está vivendo um momento de depuração, e a Lava-Jato tem uma função histórica. Não vou ser ingênua de dizer que vai acabar a corrupção, mas acho que vai mudar, vai melhorar. Hoje, não creio que vá ser descoberto um escândalo maior que a Lava-Jato.

“Marcos Valério, o operador do mensalão, em uma das visitas que fiz a ele na cadeia, me contou de pessoas que, em nome do PSDB, ofereceram dinheiro para que ele se calasse”

Alguém já ofereceu propina à senhora? Hoje, ninguém se atreve. Mas, quando fui vereadora na Câmara Municipal de São Paulo, tinha de escolher as comissões que iria integrar, e escolhi a de transporte. Então, um vereador veio ao meu gabinete e me disse: “É o seguinte, agora que você vai participar da comissão, já vou te avisar: o operador é o fulano”. Respondi: “Tô fora, meu filho. Não estou aqui para isso”. Também houve um caso que foi intervenção de Deus. Eu ia receber uma doação oficial da Odebrecht, e, no dia que o sujeito ia fazer a doação, ele morreu. Fiquei sem dinheiro. Primeiro, xinguei o morto. Agora, até hoje rezo por ele! Se não fosse isso, mesmo com a doação oficial, eu estaria na lista da Lava-Jato.

Como é ser mulher, parlamentar e deficiente ao mesmo tempo? Eu me sinto cheia de diferenciais. Para começar, há poucas mulheres no Congresso, e eu me sinto agregando valores pelo fato de ser mulher e tetraplégica. Há um fato cotidiano e que sempre cria muito constrangimento: é comum os deputados esticarem a mão e ficarem esperando que eu os cumprimente. Isso acontece umas cinco, dez vezes por dia. Como não movimento os braços, então digo: “Eu só beijo”. As pessoas ficam muito constrangidas. Cabe a mim relaxá-las. Levo na brincadeira.

E o dia a dia das atividades no Congresso? Há um computador específico para mim, que opera à base de reconhecimento facial. Um dia um deputado, bem senhorzinho, parou, ficou olhando e questionou por que eu votava diferente. Eu estava um pouco concentrada e respondi, sem dar muita atenção: “Porque não mexo os braços”. Continuei votando. De repente, olhei, e ele estava chorando. Vejo um certo medo de lidar comigo. Mas, com a convivência, o medo se dissipa. Fora isso, enfrento os desafios comuns a todos os deficientes. Meu gabinete é muito longe, e não dá para ir e voltar porque corro o risco de perder as votações. Então fico vagando pelo Salão Verde. É desagradável. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, me disse que vão desmontar uma agência bancária que fica próximo do plenário para transferir meu gabinete para lá.

A senhora é, hoje, uma referência para as pessoas com deficiência. Sou também candidata do Brasil a uma cadeira na ONU. Dezoito pessoas no mundo vão monitorar a convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência nos outros países. Quero ser uma delas. Mas, no âmbito pessoal, o que eu queria era me dedicar em tempo integral a resgatar meus movimentos. Quanto mais tento, mais eles aparecem. Isso não pode ser desperdiçado, inclusive para a ciência brasileira. Minha determinação mais imediata é que eu preciso levantar o braço. Quero vencer a gravidade.

Sua esperança de recuperar movimentos tem base científica? Há alguns parâmetros internacionais que determinam se sua lesão foi completa ou incompleta. Desde que sofri o acidente, fiz reabilitação nos Estados Unidos e no Brasil, e meus exames sempre constataram lesão completa, quando não existe a possibilidade de recuperação. Mas, há três anos, fui ao centro de pesquisas Miami Project to Cure Paralysis, e o resultado acusou lesão incompleta. A médica virou para mim e disse: “Very, very incomplete”. No ano seguinte, cheguei a Miami pilotando a cadeira de rodas com o braço esquerdo. Eles ficaram loucos e me chamaram para fazer parte de um tratamento experimental.

Do que se trata? Passei um mês lá em outubro. Eles criaram um protocolo com uma estimulação transcraniana. Fiquei tomando 180 choques na cabeça e no pescoço o dia inteiro. Levava o choque na cabeça e ia fazer exercício. No terceiro dia de choques, pedalei. Conseguir pilotar a cadeira já era um superavanço. Agora, pedalar uma bicicletinha foi incrível. Em duas semanas, consegui ver músculos aparecer em mim. Fiquei toda feliz. Eles disseram que meu resultado não era comum. Fizeram até vídeo e filmaram minha história.

Como a senhora mantém sua ótima forma? Não tomo remédio, faço exercícios. Cumpro uma programação para não deixar nenhum músculo descoberto. Geralmente, faço uma hora e meia de exercícios todos os dias. Nos Estados Unidos, eu acordava, fazia duas horas de exercícios e ia para o tratamento. Tive um cansaço comparável ao de um maratonista. Também tomo suplementos e vitaminas. São cinquenta por dia, antes e depois dos treinos. Meu nutricionista é esportivo e não me dá moleza.

“Eu acho que o Temer é corrupto, como muitos. Tirando o peso da palavra, ele entrou no esquema que sempre existiu. ‘Todo mundo fez’ é uma das frases mais ouvidas no Congresso”

Como foi a experiência de fazer ensaio fotográfico sensual depois do acidente? No momento em que fiz as fotos foi muito legal, era eu que inventava as posições. Foi superbacana até para que visse meu corpo de outra maneira. Eu era uma recém-tetra. Que mulher não gosta de olhar o bumbum no espelho? Eu não podia mais fazer isso. Depois do ensaio, muitas mulheres com deficiência me procuraram para agradecer. Diziam que eu havia mudado o olhar dos homens para elas. Também fui procurada por mulheres sem deficiência. Diziam: “Se você pode, eu também posso”. Curioso, não? Ficar tetra e virar modelo. O esperado seria outro caminho.

Posaria novamente? Não pelada, né? Se fizer um ensaio hoje, vai até chocar, porque estou muito melhor do que antes. Agora, com meus 50 anos, tenho até músculos para exibir.

Há alguns mitos em relação à vida das pessoas com deficiência. Se você quer saber sobre sexo, digo: experimentei ainda na UTI, depois do acidente. Eu ficava pensando: não respiro, não falo, não me mexo. Será que dá para fazer alguma coisa? Será que vou poder transar? Como viver desse jeito? Aí fui experimentar e vi que essa parte estava superada. Pensei: vai dar para ser feliz! Foi muito importante.

A senhora sofre preconceito por parte dos homens? Não. Como cadeirante, fiquei com o olhar mais poderoso. Lembro que, logo após o acidente, fui a um restaurante e paquerei um homem que estava do outro lado. E o cara veio. Agora não tenho muito tempo para isso. Mas eu saía muito para festas e ficava com os caras. No começo, fui testando, não era natural para mim. Agora, ser tetra faz parte de mim. Pilotando a cadeira de rodas é mais tranquilo ainda. Não dependo de ninguém para ir às baladas. O que inibe um pouco é o fato de ser deputada. E deputada brava.

Publicado em VEJA de 29 de novembro de 2017, edição nº 2558

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