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Corrida contra o tempo

O lançamento do iPhone XS e do Apple Watch 4 causou pouco alvoroço. Não é porque não tenham apelo. O mercado é que está cada vez mais concorrido e exigente

Em 2007, quando um carismático Steve Jobs subiu ao palco para exibir um aparelho de pouco mais de 100 gramas que dava acesso às mais populares tecnologias deste século — um tal iPhone —, as ações da Apple subiram 5%. E a maçã virou símbolo de inovação, praticamente inventando uma indústria, a de aplicativos. No mesmo script de fazer de todo lançamento um show, o atual CEO da empresa, Tim Cook, apresentou na quarta-feira 12 mais um arsenal de novidades: o Apple Watch 4 e a série iPhone X. Os ânimos, porém, foram diferentes daqueles do ano em que o celular de Jobs debutou. Desta vez, as ações da Apple caíram 1,25%, uma perda de valor de mercado para a empresa em torno de 7,5 bilhões de dólares. Não que os novos produtos mostrados por Cook não tenham apelo e charme para os aficionados. A questão é que causar impacto no cada vez mais concorrido mundo da inovação ficou muito mais difícil.

Em sua décima edição, o iPhone ganhou rapidez (executa 5 trilhões de cálculos por segundo), é 50% mais econômico na bateria e vem com uma área reservada à inteligência artificial, de modo que o aparelho “entenda” o dono e tome certas providências por conta própria — informar se um voo que consta na agenda está atrasado, por exemplo. Também com mais mimos, a quarta versão do Apple Watch é uma tentativa da empresa de firmar-­se no mercado de relógios inteligentes. A estreia, em 2015, foi um fiasco. Esse é um nicho que interessa sobretudo por manter fiel e crescente o público do iPhone, já que o relógio precisa se conectar ao celular para oferecer o que tem de melhor. O Apple Watch veio com dois acréscimos: um aplicativo que faz o exame de eletrocardiograma (validado inclusive pelo FDA, a agência de saúde americana) e sensores que detectam se a pessoa sofreu uma queda e emitem um aviso a um contato de emergência.

No mês passado, a Apple cravou uma marca até então inédita no mercado mundial ao atingir o valor de 1 trilhão de dólares, feito pouco depois alcançado também pela Amazon. O grande desafio atual é não ficar para trás na corrida pela inovação, terreno em que especialmente os chineses vêm avançando a passos largos. É deles o pioneirismo em telas sem bordas, leitura de impressões digitais e reconhecimento facial — que a Apple copiou.

O mercado asiático preocupa ainda por outro aspecto: nos dois países de maior população do planeta, China e Índia, os smartphones com a maçã representam, respectivamente, 10% e 2% das vendas. Isso faz da Apple a terceira no ranking de celulares, atrás da chinesa Huawei e da coreana Samsung, a campeã. Mas a Apple cobra mais caro, daí seu trilhão de dólares. Aliás, prepare-se: o modelo X mais básico custará aproximadamente 7 000 reais no Brasil.

Publicado em VEJA de 19 de setembro de 2018, edição nº 2600