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Copa em transe

Coluna publicada em VEJA de 4 de julho de 2018, edição nº 2588

Por Roberto Pompeu de Toledo 29 jun 2018, 06h00

Entre o padrão Mbappé e o padrão Trump joga-se o destino das multidões que se deslocam pelo planeta em busca de melhor sorte. Mbappé é um atacante da seleção francesa de futebol. Não é novidade que a seleção francesa apresente uma maioria de jogadores de origem na África. Os franceses já estão habituados a torcer por nomes cujas vogais soam como balbucios infantis. Entre as estrelas do elenco atual, contam-se Matuidi, Umtiti, Sidibé, Kanté, Dembélé e Pogba. Podem-se virar e revirar os prodigiosos 88 romances de Balzac e não se encontrará nome semelhante. Um passo além foi dado com a entrada em cena de jogador com “M” inicial mudo. Há também no elenco, ainda por cima, um Nzonzi. Representam, essas consonantes exoticamente solteiras, a definitiva inserção de um timbre africano na orgulhosa fonética francesa.

O melhor de tudo é que o menino prodígio Mbappé, de 19 anos, companheiro de Neymar no Paris Saint­-Germain, é francês. É filho de pai camaronês e de mãe argelina, mas é francês, nascido em Bondy, na periferia de Paris. Isso significa que frequentou escola francesa, desde sempre ouviu música, viu filmes e teve contato com livros franceses, cresceu rodeado pelos costumes locais e fala francês sem sotaque, o que, tudo somado, naturaliza e oficializa o seu “M”. Não é, como outros jogadores, da França e de outros países europeus, produto importado do estrangeiro para reforçar a representação nacional. Mbappé, filho de imigrantes, simboliza o que a imigração pode trazer de sangue novo e rejuvenescedor ao país que acolheu seus pais, enquanto Trump encarna a resistência de uma imaginária “pureza” nacional e o medo da contaminação pelos estrangeiros.

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Kosovo foi um concorrente fantasma da primeira fase da Copa da Rússia. Copa do Mundo, como se sabe, é também política, e Kosovo, província rebelde da Sérvia que luta pela autonomia, encontrou um meio de entrar em campo ao infiltrar-se na camisa da Suíça — logo a Suíça, de cultivada reputação de neutralidade. Para quem não acompanhou a história, no jogo em que a Suíça derrotou a Sérvia, dois dos seus jogadores comemoraram os gols, cada um, com o mesmo e intrigante gesto, as mãos entrelaçadas e espalmadas, os dedos bem abertos — o que significava aquilo? As mãos pareciam imitar um pássaro em voo. “É a pomba da paz”, arriscou o narrador brasileiro. Fazia sentido, afinal a Suíça é da paz. Os dois jogadores, Shaqiri e Xhaka, por sinal os melhores do time suíço, têm origem no Kosovo. Estariam acenando com a paz aos inimigos sérvios, nessa propícia ocasião de confraternização que é um grande evento internacional.

Não, era a guerra. Em vez do voo da pomba, era o da águia que pretendiam imitar. E uma águia bicéfala é o símbolo da Albânia, o querido patrono e irmão de sangue do Kosovo, cuja população, na grande maioria, é albanesa. Na verdade, o símbolo da águia bicéfala é também adotado pela Sérvia, como pôde verificar quem acompanhou o desdobramento das bandeiras antes dos jogos, o que torna as coisas indecifráveis para os não iniciados na eterna confusão dos Bálcãs. Em todo caso, os autores do gesto faziam cara de bravos, o que tornava inequívoca a intenção de provocar, e os sérvios tanto entenderam a provocação que protestaram. Dos dois rebeldes, Shaqiri nasceu no Kosovo e foi ainda criança para a Suíça, e Xhaka já nasceu na Suíça. Ambos são filhos de pais refugiados da guerra de independência que causou a morte de mais de 10 000 kosovares — o que nos traz de volta à questão das imigrações.

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No infeliz time da Alemanha, entre outros casos, o meio-campo Özil tem pais turcos e o zagueiro Boateng é filho de pai ganês e mãe alemã. O principal jogador da Bélgica, Lukaku, um dos artilheiros da primeira fase da Copa, é filho de congoleses radicados em Antuérpia. A Espanha tem um centroavante, Diego Costa, outro artilheiro da primeira fase, que nasceu em Lagarto, em Sergipe. Eis os gramados espelhando as deslocações de um planeta desigual na distribuição das populações e das riquezas. E quer-se coisa mais exótica, e ao mesmo tempo mais característica das turbulências do mundo de hoje, do que flagrar kosovares na esquadra suíça e o Kosovo transplantado para uma Copa do Mundo sem ter sido classificado para tal? Trump quer tudo direitinho, cada um no seu país, cada espaço murado e vigiado. É uma batalha perdida. Não dá certo. \

Publicado em VEJA de 4 de julho de 2018, edição nº 2589

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