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Carta ao Leitor: A hora da verdade

A leviana inclusão do nome do presidente em um assassinato de tamanha repercussão é mais um lamentável capítulo de uma investigação incompetente

Por Da Redação - Atualizado em 30 jul 2020, 19h36 - Publicado em 1 nov 2019, 06h00

Por volta das 21 horas do dia 14 de março de 2018, a vereadora carioca Marielle Franco, de 38 anos, eleita em 2016 pelo PSOL com 46 500 votos, saiu de um encontro com mulheres negras no bairro da Lapa, na região central do Rio de Janeiro, e tomou o rumo de sua casa, na Tijuca, na Zona Norte da cidade. Nunca chegaria lá. Minutos depois, ela seria executada no interior do seu carro com quatro tiros na cabeça, disparados de uma submetralhadora HK MP5. Seu motorista, Anderson Gomes, de 39 anos, também morreria no ataque, atingido por três balas nas costas.

Na capa da edição que publicou na semana seguinte à do crime, VEJA perguntava: “A quem interessava matar esta mulher?”. Passados dezenove meses do episódio, classificado à época pelo então presidente Michel Temer como “um verdadeiro atentado ao Estado de direito e à democracia”, a questão ainda permanece no ar, algo absolutamente inaceitável. Sobretudo depois que o nome do presidente Jair Bolsonaro foi implicado na história — em razão do depoimento fajuto de um porteiro feito à polícia do Rio e vazado na terça-feira 29.

O nome de Bolsonaro já havia tangenciado o triste episódio devido a três fatores: por ele ser vizinho de condomínio do sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa — acusado de apertar o gatilho da arma que ceifou a vida de Marielle e Anderson; por aparecer em uma foto de 2011 ao lado do ex-­PM Élcio Queiroz, condutor do veículo que interceptou o da vereadora para que o assassino atirasse; e por seu filho mais novo, Jair Renan, ter namorado a filha de Lessa. Embora tal proximidade causasse incômodo, nada disso provava coisa alguma, claro. Eram apenas coincidências desagradáveis.

Mas eis que surge um novo elemento que provoca um curto-circuito no caso (e no país). No citado depoimento, um funcionário do tal condomínio contou que, no dia do crime, Queiroz fora até lá e teria dito que pretendia visitar Bolsonaro. O porteiro garantiu que ligara para a casa do então deputado e obtivera autorização do “seu Jair” para que Queiroz entrasse. Este, porém, seguira para a residência de Lessa. O presidente reagiu, irritadíssimo, porque podia atestar que, naquele momento, estava na Câmara, em Brasília. Na quarta 30, a procuradora do Ministério Público Simone Sibilio, chefe do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), confirmou que o porteiro mentira: fora de Lessa a autorização para a entrada de Queiroz no condomínio.

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A leviana inclusão do nome do presidente da República em um assassinato de tamanha repercussão é mais um lamentável capítulo de uma investigação incompetente, que já apontou mandantes diferentes e claramente tem sido manipulada por alas distintas da polícia. Diante de tal cenário — e, é evidente, da dor dos familiares de Marielle e Anderson —, não se pode mais aceitar a demora no pleno desvendamento do crime. A quem ele interessava? Quem mandou executar a vereadora? Mais do que nunca, o país precisa de respostas.

Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659

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