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Carta ao Leitor: A ciência acima de todos

O binômio mental que rege hoje o presidente Bolsonaro: o descaso com a pandemia e a obsessão pela reeleição em 2022

Por Da Redação Atualizado em 12 nov 2020, 18h54 - Publicado em 13 nov 2020, 06h00

Em meio ao maior drama sanitário de sua história, o Brasil passou mais de dois dias sob o impacto de uma desnecessária polêmica, na qual a política ganhou um lamentável protagonismo, em detrimento da ciência e do conhecimento. Um dia depois de o mundo comemorar o avanço da vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela farmacêutica americana Pfizer, o presidente Jair Bolsonaro festejava em uma rede social o percalço de outra frente promissora de pesquisa. “Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos a tomá-la”, escreveu, referindo-se à CoronaVac, desenvolvida pelos chineses da Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, do governo paulista. Desprovido de qualquer sensibilidade e razoabilidade, Bolsonaro comemorava a suspensão dos testes com o imunizante, determinada pela Anvisa, devido a um “evento adverso grave”. “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, completou o presidente.

Exaltar o fracasso de um medicamento que pode salvar vidas, em um país com mais de 160 000 mortes pelo novo coronavírus, já seria uma postura bizarra. Mas a declaração começou a soar ainda pior à medida que mais informações sobre o caso surgiam. O tal “evento adverso grave” foi a morte de um voluntário de 32 anos que, de acordo com o boletim de ocorrência, havia cometido suicídio — uma tragédia lamentável, mas sem nenhuma relação com a CoronaVac. Mesmo assim, alegando problemas de comunicação, a Anvisa ordenou a paralisação do estudo no país, sob protestos da diretoria do Butantan, que foi pega de surpresa pela decisão. Tal sequência, coroada pelo comportamento aloprado do presidente, reforçou as suspeitas de ingerência política na determinação da agência.

O fato é que a mensagem com referência a Doria deixou explícito o binômio mental que rege hoje o presidente: o descaso com a pandemia e a obsessão pela reeleição em 2022. Para Bolsonaro, um eventual sucesso da CoronaVac renderia dividendos ao governador paulista, provável adversário no pleito. Por essa razão, ele torce abertamente para que não dê certo. Foi um triste capítulo de uma sucessão de equívocos — o episódio atrasou a pesquisa, dificultou a busca por mais voluntários e reforçou preconceitos em relação à procedência chinesa do imunizante. Em meio a uma questão que deveria ser 100% científica, e valendo-se mais uma vez de distorções da verdade, o presidente deu o sinal verde para que sua base de seguidores espalhasse mentiras pelas redes, desacreditando a vacina. No dia seguinte à paralisação dos testes, despontou novo absurdo: em um evento no Palácio do Planalto, ele chamou de “maricas” os brasileiros que adotam medidas para se proteger da Covid-19.

Depois de adiar quanto pôde, mesmo diante do fato de que a morte nada tinha a ver com a vacina, a Anvisa liberou a volta da pesquisa na quarta-feira 11. Poucos minutos antes do anúncio, Doria havia conversado com dois jornalistas de VEJA, o redator-chefe Sérgio Ruiz Luz e o repórter Eduardo Gonçalves. Na entrevista exclusiva, que começa na página 30, o governador criticou duramente a postura de Bolsonaro e declarou não ter dúvida de que houve pressão política sobre a Anvisa. “Espero que tenha sido um episódio isolado e que a questão volte a ser tratada de forma técnica daqui para a frente”, disse, ressalvando que poderá recorrer à Justiça em caso extremo. “Não se trata de uma corrida de vacinas, e sim de uma corrida para salvar vidas.” No esforço para encerrar o ciclo de mortes no país e para que a vida dos brasileiros volte ao normal, a ciência e o bom senso precisam ter protagonismo sobre a política.

Publicado em VEJA de 18 de novembro de 2020, edição nº 2713

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