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Adeus, quimioterapia

Novo estudo elimina o duro tratamento contra um tipo comum de câncer de mama e diz que remédio que bloqueia ação de hormônio é suficiente para a cura

Por Natalia Cuminale - 8 jun 2018, 06h00

A quimioterapia costuma ser um processo exaustivo, que abate o paciente e provoca uma série de efeitos colaterais, como queda de cabelo, fortes enjoos, fraqueza e até problemas cardíacos. Infelizmente, boa parte das pessoas que sofrem de câncer ainda precisa enfrentar isso. Para um grupo de mulheres, porém, uma nova pesquisa traz enorme alento: a quimioterapia já pode ser eliminada do tratamento de um tipo de tumor de mama muito comum e pouco agressivo, classificado como receptor hormonal. Ele acomete quatro de cada dez mulheres com a doença. O estudo, apresentado na convenção anual da prestigiosa Sociedade Americana de Oncologia Clínica, afirma que, quando esse tumor está em fase inicial (com até 5 centímetros de diâmetro e não se espalhou para os linfonodos), o caminho menos doloroso — e, claro, eficaz — é a ingestão de um remédio que bloqueia a ação de um hormônio. “O impacto do estudo é extraordinário”, diz o mastologista Antônio Frasson, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Publicada no The New England Journal of Medicine, a pesquisa é uma das mais amplas já realizadas sobre a doença. Foram recrutadas 10 000 mulheres com idade entre 18 e 75 anos, todas com o câncer em fase inicial. Elas passaram por um exame genético para definir a agressividade do tumor com precisão. Depois, submeteram-se a cirurgia ou radioterapia. O passo seguinte para banir as células que não tivessem sido eliminadas pelos procedimentos era a quimioterapia associada a um medicamento que tem o papel de bloquear a ação do hormônio estrógeno — este um alimento para as células doentes, uma vez que pode fazê-las crescer e se disseminar. Há diversos tipos de remédio com esse efeito. O mais conhecido é o tamoxifeno, existente desde a década de 70.

O estudo separou as voluntárias em dois grupos: o primeiro foi tratado de forma convencional, com quimioterapia combinada à hormonioterapia, enquanto o outro, apenas à base do remédio. A boa notícia veio mais tarde. A média de acompanhamento foi de sete anos — dois anos além do tempo definido como seguro para afirmar que uma pessoa está livre do câncer. Os pesquisadores observaram que os resultados em ambos os grupos foram estatisticamente idênticos. A sobrevida entre as mulheres que ingeriram o medicamento e seguiram com a químio foi de 93,9%; daquelas que tomaram só o remédio, 93,8% estavam livres da doença. Por sua eficácia indiscutível, a quimioterapia era até então utilizada como regra nos cuidados desse gênero de tumor, embora, além de todos os danos colaterais, atacasse também as células saudáveis. A possibilidade de suprimi-la é um tremendo avanço da ciência, que vem acumulando nos últimos anos conhecimento valioso sobre o câncer de mama, um dos mais estudados. Há apenas cinco anos a doença passou a ser agrupada em cinco grandes subtipos​ principais​. Assim, cada um deles pode ser tratado de forma diferente — e mais certeira.

Publicado em VEJA de 13 de junho de 2018, edição nº 2586

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