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A segurança dos nossos filhos

Eles vivem aprisionados, seja em um imóvel, seja em um móvel

Por Rosely Sayão - 15 jun 2018, 06h00

É sabido que as últimas décadas foram marcadas por inúmeras mudanças, muitas das quais afetaram a vida social de maneira geral, com consequências também na vida pessoal de cada um de nós. A sensação de insegurança permanente, por exemplo, tão característica dos tempos atuais, resultou na busca incessante de proteção, e isso tem mudado nossos hábitos, nosso comportamento e, inclusive, a maneira como educamos nossos filhos.

Ensinamos a eles, por exemplo, que não devem confiar em ninguém, o que colabora para a construção de preconceitos e estereótipos, prejudica o desenvolvimento da empatia e, muitas vezes, impede que algumas virtudes sejam cultivadas, como a generosidade, a compaixão e a tolerância, entre outras.

Insistimos com eles que os espaços públicos são perigosos. Ao nos retirarmos desses espaços, nós, adul­tos de classe média, impedimos nossos filhos de frequentar ruas e praças ou de usar transporte coletivo quando atingem a idade em que poderiam fazê-lo para ir ou voltar da escola. Por isso, eles vivem aprisionados, seja em um imóvel, seja em um móvel.

Cabe aqui um parêntese: mesmo com o impedimento de frequentar os espaços públicos e a consequente falta de aprendizado sobre como lidar com eles, grande número de crianças e adolescentes tem acesso, muitas vezes com total liberdade, à internet, que é um espaço público por excelência, só que virtual, e que traz ainda mais riscos à segurança de todos eles.

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O problema reside no fato de que quem não aprendeu a usar o espaço público real não tem ideia de como se comportar no espaço público virtual. É por isso que tantas crianças e adolescentes têm dificuldade em preservar sua privacidade e intimidade na internet.

Pois bem: as crianças, os pais conseguem segurar sob suas vistas. Mas crianças crescem, chegam à adolescência, e é aí que mora o perigo. Nessa fase da vida em que querem explorar o mundo, agora com o olhar de quem já deixou a infância, ganham certa independência de ir e vir, mesmo sem o conhecimento e o consentimento dos pais, e podem tomar algumas decisões sem a devida cautela.

É importante lembrar que quem não aprendeu a frequentar o espaço público com os pais, não foi instruído sobre como se comportar, o que observar, que perigos pode enfrentar, como pedir ajuda quando necessário, não saberá fazer avaliação de risco quando nele estiver nem saberá ter atitudes de autocuidado.

É essa a situação que os adolescentes, com a característica sensação de onipotência dessa fase, enfrentam: um mundo a descobrir, sem saber ao certo como fazê-lo do modo mais cuidadoso possível.

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Por isso, não devemos deixar aos cuidados das travas das portas dos carros e das grades em janelas a segurança de nossos filhos: mesmo com elas, precisamos ensinar-lhes que abrir a porta do carro em movimento ou pular de uma janela pode provocar um grave acidente.

Seria bom, a partir do fim da infância, usar com eles transportes públicos individuais e coletivos — ônibus, metrô, táxis e Uber — para ensinar o necessário e deixar que procedam como se estivessem sozinhos, para que os pais constatem se os filhos aprenderam o suficiente para ter autonomia de ir e vir. Um dia eles farão isso sozinhos, gostemos ou não!

Publicado em VEJA de 20 de junho de 2018, edição nº 2587

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