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A expressão do Brasil crítico

Antonio Candido de Mello e Souza era não apenas um monumento dos estudos literários, mas também o último representante de uma plêiade que pensou o país

Há pouco mais de duas décadas, em novembro de 1994, VEJA pediu a quinze intelectuais de porte que fizessem uma lista das obras que consideravam de maior representatividade para a cultura brasileira — em todos os períodos da história. No cânone resultante da consulta, encabeçado por Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, figurava um livro de estudos literários: Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido de Mello e Souza, crítico carioca, criado em Minas e radicado em São Paulo. Não sem razão. Publicado em 1959, o trabalho de Candido pode ser colocado na mesma estante de títulos escritos pelo escol de pensadores reconhecidos como “intérpretes do país”: Um Estadista do Império (1887-1889), de Joaquim Nabuco; Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda; Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior; e Formação Econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado.

Investigar o país e refletir sobre o que significa ser brasileiro — eis o propósito que inspirou esses autores, todos presentes na seleção organizada por VEJA. Não por coincidência, três daquelas obras traziam no nome a palavra “formação”. No caso de Candido, o objetivo era apresentar os “momentos decisivos”, como explicitava o subtítulo do estudo, em que havia se consolidado um “sistema literário” no Brasil, com base em três pontos: um conjunto de produtores (escritores), um público consumidor (leitores) e um mecanismo de transmissão (os estilos).

Para ele, o tal sistema teria começado a se estruturar no arcadismo e se solidificado na pena dos românticos. A tese recebeu uma severa reprovação de um nome de peso, Haroldo de Campos, ex-orientando de Candido e um dos pilares do concretismo. O poeta não se conformava com o que chamou de “o sequestro do Barroco” — em especial, da produção de Gregório de Mattos. A obra máxima de Candido também viu diminuir sua influência à medida que a ideia de uma “identidade nacional” perdia fôlego por aqui. Seria, entretanto, um equívoco imaginar que sem ela é possível entender plenamente a literatura brasileira — e o próprio Brasil. Crítico que soube, como poucos, honrar a melhor tradição acadêmica com o exercício, na imprensa, da análise de livros e autores — foi um dos criadores da revista Clima e fez o projeto do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo —, Candido deixou ainda textos estupendos sobre representantes de outras literaturas. Um exemplo é o ensaio que ele dedicou a O Deserto dos Tártaros (1940), do italiano Dino Buzatti (1906-1972).

Antonio Candido tinha um pé nas ciências sociais — doutorou-se na área — e foi professor do sociólogo e ex-presi­dente da República Fernando Henrique Cardoso. Filiado ao PT desde a fundação do partido, jamais se declarou desiludido com ele, a despeito do mensalão e do petrolão. Talvez tenha sido a crítica que lhe escapou fazer. Dia 12 de maio, aos 98 anos, após dias de internação devido a uma crise gástrica, em São Paulo.


PÁGINAS DO MUNDO

Zygmunt Bauman,
sociólogo polonês

Zygmunt Bauman, em 2006

 (Getty Images/Getty Images)

Tudo o que é sólido desmancha-se no ar? No mundo contemporâneo, acreditava Zygmunt Bauman, nada é sólido: vivemos na “modernidade líquida”. O termo, que deu título a um livro publicado em 2000, transformou-se em sinônimo de seu pensamento. Nos ensaios que escreveu, Bauman refletia sobre o modo pelo qual os cidadãos marginalizados têm a vida destruída nestes tempos marcados pela efemeridade — que rima com superficialidade e não representa uma solução para o homem atual. Judeu, o sociólogo escapou do nazismo refugiando-se com a família na extinta União Soviética. No fim da década de 60, deixaria a Polônia, para se livrar da campanha antissemita dos comunistas. Viveu um período em Israel e então se instalou na Inglaterra, onde daria aulas até 1990, quando se aposentou. Suas obras, mais de cinquenta no total, tiveram influência marcante nos movimentos antiglobalização e anticonsumo e a favor da ética. Dia 9 de janeiro, aos 91 anos, de causa não especificada, em Leeds, na Inglaterra.


Derek Walcott,
poeta caribenho

Derek Walcott, em 1993

 (Ulf Andersen/Getty Images)

Quando o Nobel de Literatura de 1992 foi entregue a Derek Walcott, o que se premiava era o extraordinário encontro da tradição com a modernidade. Omeros (1990), sua obra-prima, inspira-se no grego Homero (século VIII a.C.) para refletir sobre as minorias do Caribe e a destruição ambiental. Formado em francês, latim e espanhol na Universidade das Índias Ocidentais, na Jamaica, o poeta, nascido na ilha de Santa Lúcia, começou a se dedicar aos versos ainda na adolescência e também escreveu para o teatro. Dia 17 de março, aos 87 anos, de causa não especificada, em Santa Lúcia.


Tzvetan Todorov,
ensaísta literário e historiador búlgaro naturalizado francês

Tzvetan Todorov, em 1996

 (Ulf Aandersen/Aurimages/.)

Discípulo de Roland Barthes (1915-1980), Tzvetan Todorov começou a ganhar notoriedade no meio intelectual francês na década de 70 — justamente por seus estudos relacionados ao estruturalismo, corrente da qual seu mestre era um dos nomes de proa. Lançou dezenas de livros sobre assuntos diversos, com destaque para os que refletiam acerca do autoritarismo. Dignos de nota são também seus trabalhos sobre o fantástico na ficção. Dia 7 de fevereiro, aos 77 anos, em decorrência de atrofia de múltiplos sistemas, uma doença neurodegenerativa, em Paris.


Hugh Hefner,
empresário americano, criador da revista Playboy

Hugh Hefner, em 2009

 (Jay L. Clendenin/Contour/Getty Images)

Ele tinha 600 dólares no bolso, a mãe lhe deu mais 1 000 e outros tantos foram arrecadados numa vaquinha com os amigos. Assim começou, em 1953, um dos mais bem-sucedidos empreendimentos da indústria do entretenimento com origem num veículo impresso: a revista Playboy. A publicação, baseada principalmente em fotos de mulheres nuas — seu pôster inaugural trazia ninguém menos que Marilyn Monroe — e em longas entrevistas, chegou ao primeiro milhão de exemplares em 1960 e nos anos 1970 alcançou 7 milhões de cópias. No Brasil, foi lançada pela Editora Abril, que edita VEJA. O sucesso levou Hefner a expandir os negócios para o cinema, a TV a cabo, meios digitais, roupas, cassinos e resorts. Em 2015, a revista decidiu abrir mão das musas despidas. Dia 27 de setembro, aos 91 anos, na Mansão Playboy — um casarão de 29 quartos, que serviu de palco para festas memoráveis e ensaios com as famosas coelhinhas —, nas cercanias de Los Angeles.


Sam Shepard,
dramaturgo, roteirista, contista e ator americano

Sam Shepard, em 2016

 (Chad Batka/The New York Times/Fotoarena)

É possível que o leitor tenha na lembrança o Sam Shepard que surgia na frente das câmeras — uma presença para lá de convincente, a ponto de ele ter sido indicado ao Oscar de ator coadjuvante por seu desempenho em Os Eleitos (1983), de Philip Kaufman. Isso para não falar de sua inspirada performance em O Viajante (1991), filme de Volker Schlöndorff, baseado no romance Homo Faber, de Max Frisch. Contudo, será em especial como autor, com seus retratos implacáveis das famílias americanas, que Shepard deverá se tornar uma referência contemporânea. Escreveu mais de quarenta peças teatrais, contos e roteiros cinematográficos — entre os quais o de Paris, Texas (1984), feito em parceria com L.M. Kit Carson para o longa de Wim Wenders que arrebatou a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Seus textos para o palco também viraram clássicos modernos. Criança Enterrada (1979), por exemplo, venceu o Prêmio Pulitzer. Dia 27 de julho, aos 73 anos, de complicações de esclerose lateral amiotrófica, no Kentucky, Estados Unidos.


PROTAGONISMO EM CENA

Emmanuelle Riva,
atriz francesa

Atriz Emmanuelle Riva, em 1960

 (BOTTI/Gamma-Keystone/Getty Images)

“Cada pessoa tem muitas vidas dentro de si. E nesta profissão desenvolvemos todas as possibilidades”, disse Emmanuelle Riva quando divulgava o filme Amor (2012), de Michael Haneke, no Festival de Cannes. Nele, interpretava, de modo admirável, uma idosa que fica com um lado do corpo paralisado. O longa acabou ganhando a Palma de Ouro. Naquele mesmo ano, a atriz declarou: “Depois de Hiroshima, Meu Amor (de Alain Resnais, 1959), lutei com todas as minhas forças para evitar que me estereotipassem. O que interessa aos atores é poder mudar de papel”. Ela pôde: não por acaso, seu trabalho em Thérèse Desqueyroux, de Georges Franju, garantiu-lhe o Copa Volpi de Melhor Atriz no Festival de Veneza de 1962. Mas é difícil, sim, esquecer sua deslumbrante figura em Hiroshima, no qual vive uma artista francesa que se envolve com um arquiteto japonês na primeira cidade a experimentar o ápice da barbárie: um bombardeio atômico. Dia 27 de janeiro, aos 89 anos, em consequência de um câncer, em Paris.


Jerry Lewis,
comediante americano

Jerry Lewis

 (Paramount Pictures/Divulgação)

Os trejeitos eram os mais esquisitos que se poderiam imaginar — olhos revirados, piruetas, uma eletricidade indomável. Jerry Lewis foi um virtuose da comédia física. Nascido Joseph Levitch, começou a carreira em teatros nova-iorquinos logo depois da II Guerra. Com Dean Martin (1917-1995), formou uma dupla impagável, que estreou nos cinemas em O Palhaço do Batalhão (1950). Mesmo com o fim da parceria, em 1956, continuou fazendo sucesso nas telas — o mais estrondoso foi O Professor Aloprado (1963). Em 1972, o judeu Lewis lançou-se num projeto controverso, que nunca chegou ao público — a história de um palhaço em um campo de concentração. Até a década seguinte, o comediante se manteve longe do cinema, debatendo-se com o vício em drogas contra dor — incômodo resultante de anos de extravagâncias com o corpo em seu ofício. Lewis voltaria a filmar na década de 80, sem o mesmo êxito. Ocasionalmente, participava de produções como a fita brasileira Até que a Sorte Nos Separe 2 (2013). Profissional do riso, Jerry Lewis era, contraditoriamente, um homem amargo, que tratava com grosseria até mesmo os fãs. Dia 20 de agosto, aos 91 anos, de problemas cardíacos, em Las Vegas.


Roger Moore,
ator inglês

O ator Roger Moore

 (./AP)

“Bond, James Bond.” Era assim que o famoso agente secreto 007 costumava se apresentar — e ninguém o encarnou mais vezes nas telas do que Roger George Moore. Foram sete filmes: de Viva e Deixe Morrer, lançado em 1973 (com música-tema coassinada e cantada por Paul McCartney), a Na Mira dos Assassinos, de 1985. Condecorado com o título de Cavaleiro do Império Britânico em 2003, o ator fez seu derradeiro trabalho no cinema, The Carer, em 2016. Dia 23 de maio, aos 89 anos, de câncer, na Suíça.


Rogéria,
transformista fluminense

Rogéria

 (Daniel Marques/Divulgação)

Foi Fernanda Montenegro quem, nos estúdios da extinta TV Rio, disse ao maquiador Astolfo Barroso Pinto, conhecido no meio artístico como Rogério, que talento não depende de sexo. Aclamado nos anos 1960, num show de transformismo, com o nome de Rogéria, o jovem decidiu então acolher sua versão feminina. Com ela, construiu uma das carreiras mais vigorosas do showbiz nacional. Gostava de se proclamar “o travesti da família brasileira” — e, de fato, alcançou uma aprovação inimaginável. Na década de 70, resolveu assumir a persona feminina em tempo integral. No entanto, jamais negou que fosse um homem: Astolfo. Dia 4 de setembro, aos 74 anos, de infecção urinária, no Rio.


Jeanne Moreau,
atriz francesa

Jeanne Moreau

 (Photo12/AFP)

A adolescente de 15 anos assistia a uma montagem da tragédia grega Antígona, de Sófocles, quando teve a certeza: era aquilo — estar em cena — que queria fazer pelo resto da vida. Quando comunicou a decisão ao pai, a resposta foi uma bofetada. Em lugar de se intimidar, Jeanne Moreau sentiu-se encorajada a seguir com o seu propósito. Dedicou décadas aos palcos, porém foi no cinema que se consagrou. Talentosa e sedutora, trabalhou com François Truffaut, Orson Welles e Cacá Diegues, entre outros diretores. “Passei a vida tentando provar a meu pai que eu tinha razão em querer ser atriz”, dizia ela. Provou com sobra. Dia 31 de julho, aos 89 anos, de causas não especificadas, em Paris.


Harry Dean Stanton,
ator americano

Harry Dean Stanton, em 2006

 (Robert Lachman/Contour/Getty Images)

Não deixa de chamar atenção que menos de dois meses depois da morte de Sam Shepard (leia na pág. 141), o talentoso corroteirista de Paris, Texas, o universo cinematográfico tenha perdido também o protagonista do filme: Harry Dean Stanton. No longa, dirigido por Wim Wenders, Stanton interpreta Travis Henderson, que depois de mais de quatro anos desaparecido é localizado, maltrapilho e sem memória, pelo irmão. A partir daí, ele tenta reconstruir sua vida — o que inclui sair em viagem pelos Estados Unidos em busca da mulher. Antes de Paris, Texas, Stanton esteve no elenco de outro filme de destaque, Alien, o Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott. Dia 15 de setembro, aos 91 anos, de causas naturais, em Los Angeles.


Ruth Escobar,
atriz, produtora, empresária e ativista portuguesa radicada em São Paulo

Em 1958, sete anos depois de se instalar no Brasil, Maria Ruth dos Santos — o sobrenome célebre viria do casamento com o dramaturgo Carlos Henrique Escobar — seguiu para a França disposta a iniciar os estudos de dramaturgia e se tornar atriz. Tornou-se — só que se apresentou também em muitos outros palcos. É claro que o teatro foi seu hábitat. Em 1964, inaugurou um com seu nome na capital paulista — e o transformou num marco. Com sua vocação vanguardista, o Teatro Ruth Escobar abrigou montagens históricas, como a de O Balcão (1969), de Jean Genet, festivais internacionais e barulhentas manifestações contra a ditadura. Por falar em política, Ruth foi ainda deputada na Assembleia Legislativa de São Paulo. Dia 5 de outubro, aos 82 anos, de complicações decorrentes do Alzheimer, na capital paulista.


Nelson Xavier,
ator, diretor e dramaturgo paulistano

Nelson Xavier, em 2011

 (Gabriel Rinaldi/VEJA)

Primeiro, o rapaz egresso da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo escreveu, na extinta revista Visão, um texto sobre a peça Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, encenada pelo Teatro de Arena em 1958. Depois, acabou substituindo um ator do grupo e participando da montagem. Era o início da impressionante carreira de ator de Nelson Agostini Xavier. Já no ano seguinte, trabalhou em Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Vianna Filho, e em Revolução na América do Sul (1960), de Augusto Boal. Após o golpe militar de 1964, embora não tenha abandonado os palcos, Xavier passou a se dedicar mais ao cinema e à TV. Em 1978, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim, por sua performance em A Queda, de Ruy Guerra. Na Rede Globo, destacou-se como o protagonista da minissérie Lampião e Maria Bonita (1982). Um de seus últimos e mais elogiados trabalhos foi o do personagem-título de Chico Xavier (2010), longa de Daniel Filho. Dia 10 de maio, aos 75 anos, de insuficiência respiratória decorrente de um câncer, em Uberlândia.


Adam West,
ator americano

Adam West caracterizado como Batman, nos anos 60

 (./Divulgação)

Apesar de ter durado apenas três temporadas, levadas ao ar entre 1966 e 1968, a série de TV Batman (ABC) transformou seu protagonista, Adam West, em celebridade. Escolhido para o papel depois de ser visto num comercial de achocolatado, West chegou a ser capa da revista Life, caracterizado como o super-herói, ainda no primeiro ano da atração. Mesmo tendo participado de outras séries, o ator nunca conseguiu se desvincular da figura do milionário órfão, dócil e algo atormentado diante da pancadaria de HQ que o cercava quando assumia a pele do homem-morcego. Dia 9 de junho, aos 88 anos, de leucemia, em Los Angeles.


ELE APAGOU UMA ESTRELA

Charles Manson,
serial killer americano

Charles Milles Maddox não conheceu o pai, e sua mãe era alcoólatra. Por decisão dela, que se envolveu com um certo William Manson, mudou de sobrenome. Sua chegada ao mundo do crime foi precoce: aos 12 anos, estuprou um garoto. Depois, cometeu vários delitos e acabou detido. Adulto, começou a cultivar uma filosofia que misturava nazismo com ideias apocalípticas. Em 1969, convenceu quatro seguidores a matar sete pessoas — entre elas, Sharon Tate. Considerada uma promessa de Hollywood, a atriz, de 26 anos, era casada com o cineasta Roman Polanski e estava grávida. Pelo assassinato, Manson foi condenado à prisão perpétua em 1971. Dia 19 de novembro, aos 83 anos, em decorrência das sequelas de uma hemorragia, em Los Angeles.


DA MORTE PARA A VIDA

Frans Krajcberg,
escultor, pintor e fotógrafo polonês radicado no Brasil

Frans Krajcberg, artista plástico

 (Manoel Marques/VEJA)

“A imprensa insiste em dizer que sou polonês naturalizado brasileiro; não sou. Sou brasileiro”, dizia Frans Krajcberg. Não era para menos: vivendo no país desde os 27 anos, alcançou aqui um notável reconhecimento. Usando troncos e raízes de árvores queimadas para fazer suas esculturas — ou seja, transformando matéria morta em obras vivas —, ganhou fama como artista engajado na causa ambientalista. De origem judia, escapou dos nazistas durante a II Guerra, fugindo para a extinta URSS — sua família foi vítima do Holocausto. Após o fim do conflito, no qual lutou como soldado do Exército polonês, Krajcberg seguiu para a Alemanha. Lá estudou belas-artes e se aproximou do expressionismo. Em 1948, decidiu emigrar para o Brasil. Três anos mais tarde, participou da I Bienal de Arte, em São Paulo, com duas pinturas. Começava ali uma trajetória original e de impacto, que o inscreveria na história da produção artística realizada no país. Em 1972, mudou-se do Rio para Nova Viçosa (BA), onde estava construindo um museu. Dia 15 de novembro, aos 96 anos, de causas não divulgadas, no Rio de Janeiro.


ADEUS EM NOTAS

Chuck Berry,
roqueiro americano

Chuck Berry, em 2011

 (Danny Clinch for Esquire/Contour/Getty Images)

“Sai pra lá, Beethoven / e conte a novidade para Tchai­kovsky”, cantava Charles Edward Berry em Roll over Beethoven em 1956. A “novidade” era ele — ou, pelo menos, o seu olhar. Depois de 1955, e até 1958, o roqueiro, já trintão, emendou diversos hits; além de dar um chega pra lá nos compositores clássicos, Berry incendiou a rapaziada, e as garotas também, com, por exemplo, Johnny B. Goode, Sweet Little Sixteen, Rock and Roll Music e School Days. Durante os shows, saltava com as pernas abertas, andava imitando um pato — e se acabava na guitarra. Sua vida foi atribulada: ele passou por alguns reformatórios, foi denunciado por agressão e fraude e em 1959 caiu numa armação da polícia, que o acusou de sequestrar uma adolescente. Resultado: um ano e meio de prisão. Em seus derradeiros meses, Berry estava finalizando um novo disco. Dia 18 de março, aos 90 anos, de causas não divulgadas, em Wentzville, no Missouri.


Belchior,
cantor e compositor cearense

Belchior em sua residência

 (Roberto Setton/Dedoc)

Onde está Belchior? A pergunta intrigou o Brasil pela primeira vez em 2009, quando o cantor e compositor desapareceu. Localizado no Uruguai, Belchior sumiu de novo pouco tempo depois. E assim permaneceu até sua morte. Era o último capítulo de uma trajetória fulgurante. Entre 1974 e 1979, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes lançou discos incontornáveis. Hora do Almoço, Mucuripe e Como Nossos Pais, por exemplo, são canções obrigatórias em qualquer antologia da música brasileira. Leitor incansável, Belchior estudou ciências humanas e medicina antes de se profissionalizar na carreira artística. Ao morrer, trabalhava num desafio e tanto: a tradução da Divina Comédia, obra escrita entre 1308 e 1321 pelo florentino Dante Alighieri (1265-1321). Dia 29 de abril, aos 70 anos, de aneurisma na aorta, em Santa Cruz do Sul — foi esse o seu último refúgio —, no Rio Grande do Sul.


Jerry Adriani,
cantor paulistano

Jair Alves de Souza virou Jerry Adriani em 1964, quando do lançamento do LP Italianíssimo. A inspiração para o nome foi inusitada: mistura de Jerry Lewis, o comediante americano, com Adriano Celentano, cantor nascido na Itália. O futuro ídolo da jovem guarda, aliás, começou interpretando canções em italiano, o idioma de seus avós. O sucesso, todavia, só veio em 1965, ano em que passou a cantar em português. Com ar de bom moço, Jerry transformou em hits baladas românticas como Querida (1965). Dia 23 de abril, aos 70 anos, de câncer, no Rio de Janeiro.


Luiz Melodia,
cantor e compositor carioca

Cantor Luiz Melodia, em 2012

 (Daryan Dornelles/VEJA)

Para quem nasceu no Mor­ro de São Carlos, no bairro do Estácio, no Rio, cenário do surgimento da primeira agremiação carnavalesca da história, a Deixa Falar, o natural seria tornar-se um sambista de raiz. No caso de Luiz Melodia, o destino parecia mais do que traçado — afinal, aos 8 anos ele já frequentava, com o pai, as tradicionais rodas de partido-alto. Seu trabalho, entretanto, ficaria marcado por uma original mescla de elementos de baião, jazz, blues e rock. No início da década de 70, ele se envolveu com o tropicalismo, e disso resultou a gravação de Pérola Negra por Gal Costa. Deixou obras-pri­mas como cantor — seja de sucessos de sua autoria, seja na regravação de clássicos. Dia 4 de agosto, aos 66 anos, em decorrência de complicações de um câncer na medula óssea, no Rio.


Al Jarreau,
cantor americano

O pai, ministro de igreja, era um excelente cantor, e a mãe costumava tocar piano nos cultos religiosos que ele comandava. Assim, ninguém estranhou que, aos 4 anos, Alwin Lopez Jarreau já soltasse sua voz. Para surpresa geral, porém, sua carreira só despontou quando ele já estava perto dos 30 anos. Eclético, cantava jazz, rhythm and blues (R&B) e pop, o que o levou a ganhar prêmios Grammy nessas três categorias. Dia 12 de fevereiro, aos 76 anos, de causa não especificada, em Los Angeles.


REDE DE COMUNICAÇÃO

Robert Taylor,
psicólogo americano, estudioso da computação e criador da Arpanet, precursora da internet

Tudo começou quando Robert Taylor, que fazia mestrado em psicologia na Universidade do Texas, esbarrou em dificuldades para acessar e transmitir informações de natureza acadêmica. Foi então que teve a ideia de formular um sistema que pudesse interligar tais tipos de dados por meio de computadores. Taylor estava fazendo um trabalho para a Nasa quando seu projeto chamou a atenção de integrantes da Arpa, a agência de pesquisas avançadas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Ao lado do engenheiro Larry Roberts, Taylor captou 1 milhão de dólares para desenvolver a Arpanet. O resto é o que se sabe: dali surgiria a internet. Dia 13 de abril, aos 85 anos, de complicações de doença de Parkinson, na Califórnia.


ARENAS DE GLÓRIAS

Jake LaMotta,
boxeador nova-iorquino

Foi num reformatório que Jake LaMotta aprendeu a dar os primeiros jabs. Filho de imigrantes italianos, tornou-se lutador profissional em 1941 e, até se aposentar, em 1954, venceu 83 lutas, empatou quatro e perdeu dezenove. Em 1949, derrotou o francês Marcel Cerdan, conquistando assim o cinturão de peso médio. Em 1970, publicou o livro Touro Indomável, filmado uma década depois por Martin Scorsese, tendo Robert De Niro como protagonista, num desempenho que lhe garantiu o Oscar de melhor ator. Dia 19 de setembro, aos 95 anos, de pneumonia, em Aventura, na Flórida.


Raymond Kopa,
ex-jogador francês de futebol

Raymond Kopa, em 1959

 (Corbis/VCG/Getty Images)

O que dizer de um meia-atacante que foi eleito o melhor jogador do mundo em 1958, ano da primeira vitória brasileira numa Copa, com aquele time assombroso que tinha Pelé e Garrincha? No Mundial da Suécia, a França ficou em terceiro lugar, contudo era impossível não se render ao talento de Kopa. Fora dos gramados, ele também foi um craque: fundou uma das primeiras entidades de defesa dos direitos dos atletas. Dia 3 de março, aos 85 anos, de causa não revelada — sofria de Alzheimer —, em Angers, na França.


SENHORA DO GLAMOUR

Carmen Mayrink Veiga,
socialite — termo que detestava — paulista

Carmen Mayrink Veiga, em 1968

 (Arquivo/Agência o Globo)

A revista americana Vanity Fair disse que ela era uma das pessoas mais bem-vestidas do planeta. Nessa condição, foi a única personalidade do país a merecer menção na autobiografia de Yves Saint-Laurent. Pouco importa que na década de 90 seu padrão de vida tenha sido afetado pelo Plano Collor; que a empresa de sua família haja pedido falência; que seus bens artísticos tenham ido duas vezes a leilão. Ela jamais perdeu o glamour. Nascida Carmen Therezinha Solbiati, assumiu o badalado sobrenome ao casar-se com o empresário Tony Mayrink Veiga. Para Truman Capote, eles formavam “o casal mais chique da América do Sul”. Elegantíssima, Carmen causou polêmica em entrevista a VEJA em 1996, na qual, além de rejeitar os rótulos de “grã-fina”, “dondoca” e “socialite”, dizia ter trabalhado como “uma negra”. Dia 3, aos 88 anos, de paraparesia espástica tropical, doença que atinge o cérebro, no Rio.


FACES DO PODER

Mário Soares,
ex-premiê e ex-presidente português

Quando a Revolução dos Cravos pôs fim à ditadura portuguesa, em 1974, Mário Soares contabilizava doze prisões e quase cinco anos de exílio. Depois de guiar a reconstrução política de seu país, passou a ser considerado o “pai da democracia portuguesa”. Formado em direito, ele fundou, em 1973, o Partido Socialista de Portugal. Além de ter sido premiê e presidente, elegeu-se deputado no Parlamento Europeu. Aliás, foi dele o pedido de adesão de Portugal à então Comunidade Econômica Europeia — Soares era um entusiasta da Europa unida. Dia 7 de janeiro, aos 92 anos, de causa não especificada, em Lisboa.


Helmut Kohl,
ex-chanceler alemão

Dr. Helmut Kohl, em 1991

 (Oed/Ullstein Bild/Getty Images)

O mais longevo premiê da Alemanha depois de Bis­marck — exerceu a função por dezesseis anos seguidos, a partir de 1982 —, Helmut Kohl, como o “chanceler de ferro”, tem seu nome ligado à unidade alemã. Seu maior feito político foi unir, em 1990, as duas Alemanhas de então. Ao lado do presidente francês François Mitterrand, incentivou a criação do euro. Em 1999, caiu em desgraça quando se descobriram contas secretas de seu partido, a União Democrata-Cristã, e ele foi acusado de esconder contribuições ilegais para suas campanhas eleitorais. Dia 16 de junho, aos 87 anos, de causa não revelada, em Ludwigshafen, Alemanha.


Marisa Letícia,
ex-primeira-dama

Marisa Letícia, ex-primeira-dama da República do Brasil

 (VEJA/VEJA)

Corria o ano de 1973 e Marisa Letícia da Silva precisou ir ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo carimbar um documento para receber sua pensão de viúva do extinto INPS — o marido fora assassinado durante uma tentativa de assalto no táxi em que fazia bico para ganhar uns trocados a mais. No sindicato, conheceu o então diretor Luiz Inácio da Silva, o Lula, que também era viúvo (a mulher morrera no parto junto com o bebê). Pouco depois eles se casariam, teriam três filhos — e Marisa se tornaria a primeira-dama do primeiro presidente da República de origem operária do Brasil. Quando ele fundou o PT, foi Marisa quem costurou em casa a bandeira do partido. Após a chegada de Lula ao Planalto, ela se comportou com discrição e se manteve longe dos holofotes. Ao morrer, era ré em duas ações penais da Lava-Jato. Dia 3 de fevereiro, aos 66 anos, em decorrência de um AVC, em São Paulo.


Teori Zavascki,
jurista catarinense, ministro do STF

Teori Zavascki, em 2012

 (Ed Ferreira/Estadão Conteúdo)

Faltavam poucos dias para que fosse homologada a maior delação premiada da história do país, talvez do mundo — a de 77 executivos da Odebrecht —, quando o bimotor que transportava o relator da Lava-Jato, ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, caiu no mar, a 2 quilômetros da pista de pouso, em Paraty (RJ). Desde que assumira o posto, em 2014, ele já havia autorizado a abertura de investigações contra 47 políticos, decretado a prisão do então senador petista Delcídio do Amaral (MS) e determinado o afastamento de Eduardo Cunha (PMDB-­RJ) da presidência da Câmara dos Deputados. Seu envolvimento em um processo no qual figuravam tantos poderosos desencadeou um sem-número de teorias conspiratórias para explicar o acidente, que matou outras quatro pessoas. O avião pertencia a Carlos Alberto Filgueiras, proprietário da rede Emiliano, de hotéis de luxo, que morreu na queda. Com o Judiciário em recesso, Teori pretendia passar o fim de semana na casa de Filgueiras, de quem se tornara amigo, numa relação que, se nada tinha de ilegal, o colocava numa posição delicada — a de autoridade pública que recebe favores acima de suas possibilidades ordinárias. “Sem ele não teria havido a Lava-Jato”, declarou o juiz Sergio Moro a respeito do ministro do STF. Sua morte, no entanto, não impediu que a operação avançasse. Dia 19 de janeiro, aos 68 anos, em decorrência de um acidente aéreo, em Paraty.

Publicado em VEJA de 27 de dezembro de 2017, edição nº 2562