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A esquerda não é Lula

Principal teórico do marxismo no Brasil, Ruy Fausto diz que a saída para a esquerda depois dos escândalos de corrupção é mais autocrítica e menos populismo

Por Ana Clara Costa Atualizado em 7 abr 2018, 06h01 - Publicado em 7 abr 2018, 06h00

Filósofo e professor emérito do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) — pela qual também se graduou bacharel em direito —, Ruy Fausto é o principal teórico do marxismo que o Brasil já produziu. Hoje vivendo em Paris, há mais de uma década defende a ideia de que a saída para a esquerda brasileira passa necessariamente pelo abandono de vieses autoritários e populistas, como afirma no livro Caminhos da Esquerda: Elementos para uma Reconstrução (Companhia das Letras). Para Fausto, a renovação nesse campo não acontecerá se não houver autocrítica e adesão a novas pautas, como o antirracismo e o feminismo. O filósofo aposta que o nome certo da esquerda para a candidatura presidencial é o petista Fernando Haddad. Contudo, as chances de vitória do petista, reconhece, são pequenas. “Não creio que ele vá se eleger. Mas faria uma boa campanha, e isso já é importante.” De Paris, Fausto concedeu entrevista a VEJA, por telefone.

A discordância central entre esquerda e direita sempre foi a economia. Hoje, ela é mais patente em assuntos como segurança pública e direitos humanos. Por que isso acontece? Não acho que o debate econômico tenha deixado de existir. Apenas há mais assuntos na mesa. Mas vejo uma hipocrisia muito grande quando políticos vêm a público falar de combate ao banditismo sem mencionar uma palavra sobre desigualdade, sendo que essa é a principal causa da violência. A ideia muito enraizada na direita de que se acaba com a violência matando bandidos é enganosa. Não há solução bangue-bangue, armando todo mundo. Isso aumenta a insegurança, não o contrário. Exemplo disso é toda a exploração que houve em cima da morte da Marielle, que defendia as populações pobres e mortos inocentes. Mas que, na visão demagógica e irresponsável da extrema direita, era vista como defensora de bandidos e adversária de policiais.

A morte da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) despertou a mobilização popular. Esse fato pode ancorar o surgimento de uma nova esquerda? Ela foi um exemplo excelente. A esquerda está numa encruzilhada, em busca de um novo caminho. E a Marielle encarnou muito bem esse caminho. Ela era crítica do modelo capitalista e muito democrata. Defendia causas como o antirracismo e o fim do preconceito sexual. Quem é a esquerda? É Marielle. A esquerda não é Fidel Castro, Lenin ou Chávez. A esquerda, na sua origem e na sua essência. E, apesar de certas patologias lamentáveis, nunca significou autoritarismo e populismo. Mas o tom do Brasil de hoje é caçar homens e mulheres de esquerda.

O que seria, então, a nova esquerda? Crítica do capitalismo e defesa da democracia. Mais especificamente: crítica da desigualdade excessiva e defesa da liberdade. Trata-se de mostrar o absurdo de um sistema econômico que não funciona, porque mantém e aprofunda a desigualdade; e, com ela, também a violência e o banditismo. É explosivo que oito indivíduos detenham uma parcela enorme da riqueza do mundo.

Mas os exemplos de governos de esquerda que o mundo viveu não são necessariamente democráticos. O totalitarismo de esquerda, assim como o de direita, foi monstruoso. Nos países onde ele aconteceu, hoje há uma espécie de autocracia que junta o pior dos dois lados — autoritarismo e capitalismo selvagem —, como é o caso da China. O stalinismo foi medonho. Foram regimes genocidas, criticados por pensadores da própria esquerda — e antevistos por socialistas democráticos como Rosa Luxemburgo. Quem defende um caminho fora da liberdade está indo na direção errada.

Como seria um modelo democrático sem capitalismo? Não se trata de extinguir a propriedade privada, e, a rigor, nem mesmo o capital, ou os capitais. Mas sim de fazer com que o capital seja neutralizado, deixe de ser a forma hegemônica. Há formas econômicas variadas dentro da sociedade atual, como cooperativas, economia solidária, aliadas ao imposto progressivo sobre os mais ricos. O ideal seria uma sociedade em que houvesse mercadoria e mercado, mas em que o capital fosse controlado de forma a estancar desequilíbrios exacerbados, por meio da tributação e da regulação. Quem possui cinquenta apartamentos teria de pagar muito, mas muito imposto mesmo. Nada disso é impossível. O liberalismo econômico já provou que não funciona; ele criou essa desigualdade enorme que estamos vendo hoje.

Esse modelo que o senhor defende existe em algum lugar? Não. Mas o fato de não existir ainda um modelo assim não significa que não possa existir. Muitas coisas que existem hoje não existiam antes, como o sufrágio universal. Poucos homens votavam e mulheres não votavam. Seguridade social também não existia. Imposto de renda progressivo era uma coisa absurda. A jornada de trabalho era de catorze ou quinze horas.

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Quais países se aproximam mais do modelo que o senhor idealiza? Há a social-democracia dos países nórdicos, os movimentos comunitários na Espanha e na Itália. Há um movimento mundial de cooperativas, e em países como a França, que não vou idealizar, há de qualquer modo uma seguridade social que funciona bem, ainda que com limitações. Assim, existem experiências que se aproximam do que deveria ser feito. E não por acaso certos países, como os nórdicos, estão bem posicionados nas escalas internacionais de condições de vida.

A conduta de partidos de esquerda à luz da Lava-Jato passa a impressão de que a corrupção não importa. Por quê? Há correntes da esquerda que acham que a corrupção não importa se existe um projeto social em andamento. Mas corrupção é uma coisa seriíssima. Quem acha que isso não tem importância está delirando e parece querer a morte da esquerda. Mas há também os que acham que a corrupção é o único problema, que basta não se corromper que tudo estará bem. E isso é um erro também. Há uma desigualdade brutal que as pessoas não podem ignorar no Brasil, e que não é necessariamente ilegal, mas profundamente injusta.

O senhor, como muitos expoentes da esquerda, acredita na inocência de Lula? Não acredito na inocência absoluta do Lula. Tampouco sou, em princípio, contra a Lava-Jato. Acho necessária, só que ela desandou. Mas provar juridicamente a corrupção no caso do apartamento do Guarujá, isso ela não fez. Corrupção eventual é difícil de enquadrar, e, no caso do Lula, não ficaram provadas nem a propriedade nem a posse consubstanciada do imóvel. E a contraprestação também não foi provada. É que existe um sistema de favores recíprocos — como o potlatch, de certos povos primitivos, de que falam os antropólogos. Isso é grave, evidentemente, mas o enquadramento jurídico disso é difícil — e o enquadramento é essencial. Por outro lado, trata-se de um sistema que existia muito antes de o PT nascer. No combate à corrupção, apesar de tudo, não houve simetria entre direita e esquerda. A esquerda foi muito mais golpeada do que a direita. Por isso mesmo — além das dúvidas no plano jurídico —, acho que a eventual prisão do Lula é muito injusta e é um ato político que serve às forças mais conservadoras. O direito é importante, já vimos, mas, ao fazer um juízo sobre o julgamento de Lula, não basta falar do lado jurídico. Uma vez mostrado que, juridicamente, há ambiguidade, é preciso considerar os elementos políticos presentes e passados: o que o governo petista, apesar de tudo, fez, e também aquilo que eu chamaria de moral comparada — comparar o caso de Lula com o de Serra, de Aécio e de muitos outros que andam por aí.

A conduta de Lula colaborou para que houvesse a migração do eleitorado brasileiro para a direita? Creio que sim, já que o PT fez a besteira de entrar na política vigente, a da promiscuidade entre público e privado. Ganhou fazendo alianças com partidos como o PMDB, e pagou um preço enorme. Seria melhor não ter entrado nesse jogo. Teria, hoje, uma imagem de prestígio. Não sei se estaria na Presidência, mas para que ter levado a Presidência e estar onde está agora? O PT, na origem, era um partido notável. Era contra o patrimonialismo, o populismo. Mas o PT queimou a esquerda. Fez coisas boas para o Brasil, mas, agora sabemos, sob condições terríveis. Por outro lado, a extrema esquerda tem nuances totalitárias, um apego a velhas ideologias, como o trotskismo e o castrismo, embora tenha também gente séria que pode evoluir. No PT, há populismo ou, mais precisamente, patrimonialismo. Mas os partidos vão e a esquerda fica. Não creio que o PT vá morrer, mas perderá a hegemonia.

O senhor acredita na recuperação da imagem da esquerda? Viajei muito pelo Brasil no ano passado, para falar sobre o meu livro, e vi muita gente receptiva e disposta a mudar as coisas radicalmente, mas, claro, democraticamente. É uma esquerda nova, voltada às origens da crítica ao capitalismo, sem rompantes autoritários ou populistas. Há no Brasil uma classe média não reacionária que está em busca de um projeto. Só que é gente desorganizada, que não está necessariamente filiada a nenhum partido. A votação expressiva do Bernie Sanders nos Estados Unidos prova que isso acontece também fora. Essa nova esquerda em formação é o único cavalo que existe para apostar.

Quem, no Brasil, seria expoente desse grupo? Existe gente boa também dentro do PT. O Fernando Haddad é um nome. Sem idealizar o personagem, acho que é o melhor candidato que há por aí. Se o Lula for inteligente, indicará o Haddad como candidato. O problema é que o partido não gosta dele. E não gosta porque ele é melhor que a direção do partido. O Haddad teve uma boa gestão no Ministério da Educação e na prefeitura de São Paulo. Eu o conheço da universidade, sei quem é o personagem. Particularmente, não creio que ele vá se eleger. Mas faria uma boa campanha, e isso já é importante.

Mas o fato de a direita estar colecionando vitórias, ao contrário da esquerda, não emite um sinal? A direita ganha porque promete uma solução mágica e ilusória para a classe média, mas está caminhando para o pior. O liberalismo tão defendido pelo mercado exclui muita gente e acaba dando origem ao populismo, o de direita, no caso. Os Estados Unidos, com o louco do Trump, a Europa Oriental, com o Orbán (Hungria), a Rússia, com Putin. No Brasil, há o Bolsonaro, um personagem sinistro que faz a apologia até da tortura.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

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