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À espera de uma nova onda digital

As extraordinárias mudanças trazidas pelos apps móveis, que facilitaram o dia a dia dos usuários, são apenas o início das transformações que vêm por aí

Por Fabricio Bloisi* - 13 jul 2018, 06h00

No Brasil do fim dos anos 90, o uso do desktop ainda era bastante limitado — imagine, então, quão restrito era o uso de celulares, que haviam desembarcado no país apenas no começo da década. Mas já no início dos anos 2000, o mercado dava sinais de que o mobile seria o futuro. A partir do lançamento do iPhone pela Apple, em 2007, e da App Store, em 2008, o que se viu foi os smart­phones atingirem recordes de vendas. E, paralelamente a isso, a difusão do iPhone e de seu sistema operacional (o iOS ) e loja forçou a Google a se movimentar e colocar no mercado de celulares o Android e, em seguida, a Play Store. Estava desenhado o cenário que o universo da tecnologia já experimentou inúmeras vezes: uma inovação rompe o modelo de negócios consolidado e põe os players estabelecidos em posição de defesa.

O mundo vive hoje profundas e aceleradas mudanças no modo como os indivíduos interagem. O WhatsApp, ao possibilitar o envio de mensagens e a realização de chamadas de voz e de vídeo gratuitas, pôs em xeque a atuação tradicional das operadoras de telecomunicações. Há também o exemplo do Instagram, um dos primeiros apps vendidos por 1 bilhão de dólares, que sacudiu o campo da fotografia. Na outra ponta, contudo, justamente em decorrência do extraordinário uso dos apps, a demanda por banda larga móvel vai ficando cada vez maior.

Olhando para o mercado asiático, observamos uma tendência que promete se intensificar por aqui e em toda a América Latina: a dos market­places móveis, com superapps que reúnem vários serviços e exploram a crescente preferência dos consumidores pelos pagamentos nessas plataformas. Uma referência nesse sentido é a Tencent, dona do WeChat, uma espécie de “WhatsApp chinês”, que nasceu como app de mensagens de texto e voz e, agora, permite procurar por um serviço, contratá-lo, pagar por ele e recomendá-lo a amigos sem sair do aplicativo. Na mesma linha, no grupo Movile apostamos na integração entre delivery de comida, conteúdo infantil, organização de eventos, notícias, cupons etc.

Com tantas inovações fascinantes surgindo simultaneamente, o que se pode esperar dos próximos cinco anos? Com certeza, melhores experiências por meio da inteligência artificial (em inglês, artificial intelligence — AI), big data, internet das coisas (internet of things — IoT), realidade virtual (virtual reality — VR) e realidade aumentada (augmented reality — AR).

A combinação entre AI e aprendizado de máquina (machine learning) — que permite que os softwares, ou “robôs”, sejam capazes de reproduzir a linguagem humana e de evoluir a partir da interação com pessoas de carne e osso — mudará a forma como as companhias se comunicam com seus clientes. Os call centers, como conhecemos, deixarão de existir.

“Realidade virtual e realidade aumentada poderão se tornar uma presença tão forte quanto a dos próprios smartphones”

Os chatbots de conversação artificial e outros assistentes virtuais serão responsáveis por praticamente todas as interações com clientes. Com o progressivo desenvolvimento da sensibilidade desses dispositivos, também será possível que nos comuniquemos perfeitamente em diferentes idiomas. Imagine o impacto da eliminação das barreiras linguísticas nas áreas de negócios e de educação.

Associando AI e big data, serão extraídas de um enorme fluxo de dados — estruturados e desestruturados — tendências relativas a hábitos, impulsos e padrões de compra dos clientes. Ao colherem esses insights, os algoritmos apontarão recomendações e predições para a melhoria de produtos, de serviços e da comunicação organizacional. Assim, os consumidores terão seus desejos antecipados.

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Ao mesmo tempo, os recentes escândalos que envolveram violação e uso indevido de dados por empresas e governos acenderam o alerta quanto à questão da segurança. Nesse sentido, a tendência será buscar — na combinação entre internet das coisas, inteligência artificial e aprendizado de máquina — mecanismos para prever e tentar evitar a violação de dados, ciberataques e desastres operacionais.

Nos próximos anos, também veremos a IoT viabilizar a interoperabilidade entre os diferentes fabricantes de dispositivos. Isso ocorrerá nos níveis de chip, software e hardware, o que permitirá que os dispositivos conversem entre si em uma linguagem comum. Para tanto, todos eles serão gerenciados por uma plataforma de dados IoT com capacidade de aplicar políticas e automatizar ações baseadas nos dados que estão sendo compartilhados.

Já a realidade virtual e a realidade aumentada poderão se tornar uma presença tão forte quanto a dos próprios smartphones. Pelo menos foi o que disse Mark Zuckerberg no último F8, evento de desenvolvedores do Facebook realizado em 2017. Tais tecnologias, que possibilitam criar ambientes virtuais que causam a sensação de realidade (VR) e até modificar um espaço real (AR), já mostram seus impactos no varejo.

Lançado no fim do ano passado nos Estados Unidos e na Europa, um app da sueca Ikea usa a câmera do smartphone para fazer o reconhecimento de um ambiente que será mobiliado e possibilita testar a inclusão de móveis e objetos, em escala real, escolhidos em um catálogo com 2 000 itens. O app facilita a decisão de compra pelo cliente.

Por ora, VR e AR têm sido exploradas, principalmente, no âmbito do entretenimento. O uso pelo consumidor comum ainda está muito atrelado a experimentar emoções por meio dos jogos, por exemplo. Mas a tendência é que a realidade virtual e a realidade aumentada sejam crescentemente empregadas em áreas como saúde, segurança e logística.

Quando iniciamos nossa jornada, duas décadas atrás, era difícil prever as revoluções que viveríamos no mundo das telecomunicações. Agora, sabemos que isso é só o começo. Acreditamos na formação de líderes globais de tecnologia a partir do Brasil. A era do smartphone criou empresas bilionárias e abriu portas para facilitar o dia a dia das pessoas, e uma onda bem maior que a do app móvel ainda está por vir. O convite parece irrecusável: que tal surfarmos nessa onda?

* Fabricio Bloisi é CEO e fundador da Movile. Criada em 1998, a empresa desenvolveu apps como a PlayKids

Publicado em VEJA de 18 de julho de 2018, edição nº 2591

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