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A cacofonia digital

As redes sociais on-line estão destruindo o espaço público de discussão, um elemento essencial para qualquer democracia

Por Heni Ozi Cukier* - Atualizado em 31 jan 2018, 15h28 - Publicado em 5 jan 2018, 06h00

A internet apareceu para o mundo como uma ferramenta sem precedentes a favor da democracia. Ao permitir que qualquer um tivesse acesso à informação, essa nova tecnologia daria um golpe na censura. As pessoas poderiam conversar livremente umas com as outras, organizar-se, combinar manifestações e, por que não, derrubar ditaduras.

O problema dessa visão otimista é a sua falta de comprovação empírica, principalmente com respeito aos seus efeitos na sociedade e na política. Uma das consequências mais devastadoras da internet e das redes sociais tem sido o enfraquecimento do diálogo, algo historicamente essencial para as democracias.

Desde a Antiguidade — da pólis dos gregos em diante — a política democrática era uma atividade aberta, pública e baseada na troca de ideias. Em Atenas, alguns cidadãos faziam parte de um conselho que definia a agenda da Assembleia e, posteriormente, definiam as leis. Durante muito tempo, acreditou-se que, em Atenas, todos os cidadãos se aglomeravam para praticar uma forma direta de democracia. Na verdade, descobertas modernas mostraram que a Pnyx — colina onde a Assembleia se reunia — abrigava somente 6 000 indivíduos, enquanto a população total era de 60 000 cidadãos. Os gregos, portanto, escolhiam representantes por sorteio para lidar com a política. Eles o faziam por meio de debates baseados em argumentos racionais e fundamentados em informações verdadeiras.

Foi assim que nasceu a democracia representativa e deliberativa, com a noção de que as decisões devem ser justificadas pela razão e expostas publicamente. Em uma democracia, não é suficiente alguém dizer que prefere certas políticas apenas porque gosta delas. É preciso justificar racionalmente os seus motivos.

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O primeiro pensador a defender o valor do debate público e das justificativas racionais das escolhas de leis entre cidadãos foi Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.). Na atualidade, o principal articulador dessa ideia é Jürgen Habermas. O filósofo alemão propôs um sistema em que a legitimidade da decisão democrática deve preceder uma deliberação autêntica. Isso requer a existência de um espaço público que permita um debate racional, transparente e inclusivo.

O papel da democracia deliberativa é oferecer uma boa base para lidarmos com diferenças morais na política. Ela permite reconhecer o mérito do argumento do seu oponente e promove o entendimento entre os cidadãos. O processo de argumentação e contra-argumentação ajuda os debatedores a aprender uns com os outros.

A forma como cada cidadão lida com as diferenças de opinião, que são endêmicas na vida política, é uma questão central. Como as decisões não são consensuais, o debate é contínuo, dinâmico e não pressupõe uma conclusão definitiva sobre as divergências políticas. Esse aspecto provisório contribui para que se mantenham abertas as possibilidades de diálogo e incentiva o exercício da prudência na discordância, essencial para o respeito mútuo e a tolerância. Ao apresentar as razões das próprias escolhas e expor-se à discussão, uma pessoa acaba encontrando justificativas que minimizam as diferenças com seu oponente. Dessa maneira, engajamento, concessões e tolerância estão ancorados na experiência pessoal da diversidade política e dependem do processo deliberativo.

Ninguém espera que as plataformas digitais tenham a obrigação de eliminar os conflitos e divergências políticas, mas também não deveriam exacerbá-los ou debilitar a capacidade deliberativa. Infelizmente, nós estamos sendo silenciados pela tecnologia. Existe uma confusão entre conectividade e diálogo. Vivemos na era da conexão, e não do diálogo. Estar conectado é acessar uma infinidade de pessoas e informações. O ambiente tecnológico faz com que estejamos sempre nos “comunicando”. Receber trinta mensagens pode até transmitir uma sensação de pertencimento devido à quantidade de interações ocorridas com tão pouco esforço. A comunicação, dessa forma, não precisa ter sentido nem transmitir informações. Basta estabelecer uma conexão. É um erro. Estamos claramente misturando quantidade com qualidade.

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Pesquisas mostram que aqueles que mais usam as mídias sociais têm dificuldade em compreender as emoções humanas, inclusive as próprias. Um estudo elaborado por Clifford Nass, professor de comunicação da Universidade Stanford, revela que a tecnologia não facilita a compreensão das emoções e que a mídia social deixa a vida emocional mais difícil. A interação on-line conduz à perda de empatia e à diminuição da capacidade de reflexão. Por outro lado, o contato visual olho no olho é o mais poderoso caminho para estabelecer conexões humanas e criar empatia com o outro. A comunicação on-line não permite o uso da linguagem não verbal (linguagem corporal e facial), do tom de voz e de outros aspectos essenciais para uma comunicação efetiva.

Os desafios tratados pela política sempre serão sensíveis e complexos, seja uma crise de refugiados causada por uma guerra civil sectária profunda, seja uma crise fiscal resultante de um sistema previdenciário insustentável. O diálogo no mundo digital reduz questões complexas a opções binárias. A comunicação digital não abre espaço para nuances, e não é por acaso que a política em todo o mundo está sem centro e polarizada. Não existe democracia se as pessoas não entendem o que está sendo debatido e não forem capazes de articular justificativas racionais em vez de fazer generalizações coletivas.

Se as tecnologias de comunicação continuarem desumanizando, despersonalizando e coletivizando a interação humana, correremos o risco de replicar as mesmas ideologias destrutivas do último século que levaram a ondas massivas de violência. Não podemos esquecer que as ferramentas de comunicação que eram novas naquela época — como cinema e rádio — fortaleceram a narrativa do regime nazista. Os soviéticos também usaram novas tecnologias, e Stalin investiu no desenvolvimento de um cinema em 3D com equipamentos ópticos de ponta para aperfeiçoar sua propaganda. Temos de refletir seriamente sobre como criar códigos de conduta ou regras de etiqueta capazes de amenizar esses efeitos nocivos e colaterais, para o bem da política e, principalmente, da democracia.

* Heni Ozi Cukier é cientista político e professor

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Publicado em VEJA de 10 de janeiro de 2018, edição nº 2564

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