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Tropa de choque feminina de Arthur Lira domina cargos-chave na Câmara

Presidente da Casa designou deputadas federais para coordenar ala jurídica, articulação política e interlocução com parlamentares do Centrão

Por Letícia Casado 1 ago 2021, 10h25

Em novembro de 2020, quatro deputadas tomaram a frente da campanha de Arthur Lira (PP-AL) à Presidência da Câmara. A advogada Margarete Coelho (PP-PI) ficou responsável pela parte jurídica. Em seu segundo mandato como deputada federal, Soraya Santos (PL-RJ) assumiu a coordenação política da candidatura. À novata Celina Leão (PP-DF) coube a parte da mobilização, enquanto Flávia Arruda (PL-DF) abraçou a missão de angariar apoio em outros partidos do Centrão. A “tropa de choque feminina do Lira”, como essas parlamentares ficaram conhecidas, fez de tudo um pouco: marcou reuniões com pequenos grupos de deputados, organizou viagens aos estados e analisou cada passo da campanha.

Dias antes da votação, por exemplo, Lira participou de um jantar com cerca de 50 das 77 deputadas federais, num sinal de que a maioria da bancada feminina da Câmara lhe dava um voto de confiança, apesar de ele ser acusado pela ex-mulher de tê-la agredido. Em retribuição, o candidato prometeu que, se eleito, ampliaria a participação das mulheres em cargos e relatorias de projetos importantes na Casa. Assim foi feito. Pela primeira vez, mulheres ocupam metade dos cargos da Mesa Diretora. Houve avanços também fora da burocracia administrativa. Da estrita confiança do presidente da Câmara, Margarete Coelho foi designada para relatar projetos importantes, como a reforma eleitoral. “Não queremos discutir apenas questões relacionadas ao ambiente doméstico. Por isso, lutamos para relatar temas da área econômica e penal”, diz a deputada, que passou a trabalhar também na revogação da Lei de Segurança Nacional e nas mudanças no Código de Processo Penal.

A novata Flávia Arruda teve uma ascensão ainda maior. Pelas mãos de Lira e outros padrinhos influentes, como o mensaleiro Valdemar Costa Neto, presidente do PL, ela se tornou a primeira deputada a assumir a chefia da poderosa Comissão Mista de Orçamento do Congresso. Em abril, foi nomeada por Jair Bolsonaro, como forma de agradar ao Centrão, ao cargo de ministra da Secretaria de Governo. E lá continuará mesmo com a minirreforma ministerial anunciada recentemente. O novo titular da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), já fez questão de procurar Flávia para dizer que conta com a ajuda dela para melhorar a relação do Palácio do Planalto com o Congresso.

Colega de partido de Arthur Lira e Ciro Nogueira, Celina Leão foi eleita líder da bancada feminina na Câmara e assumiu a relatoria do projeto da compra de vacinas contra Covid-19 pela iniciativa privada. “Tivemos uma campanha duríssima”, diz a deputada, que contratou uma figura de peso para assessorar seu gabinete: a advogada Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Bolsonaro. Já Soraya Santos, que é chamada nos bastidores de “articuladora invisível” de Lira, garante atuar com autonomia e rechaça a insinuação de que age a mando do presidente da Câmara: “Estamos fazendo entrega do que está sendo demandado. Não é ‘queridinha’, é experiência. Não é o Arthur tutelando, isso não aceito. Esse apelido ’tropa de choque’ não pode ofuscar uma conquista que é nossa, da possibilidade que nos foi dada e que nós agarramos”.

Bia Kicis (PSL) e outros deputados bolsonaristas da comissão especial do voto impresso
Bia Kicis (PSL), presidente da CCJ, e outros deputados bolsonaristas da comissão especial do voto impresso Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Do rol das conquistas femininas no Congresso também se destaca a eleição da primeira mulher para presidir a Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania (CCJ), a deputada Bia Kicis (PSL-DF). “Sofri muita pressão para que não acontecesse a indicação da deputada Bia. A única coisa que eu disse: o meu compromisso é com o PSL. Se o partido indicar, vamos honrar”, conta Arthur Lira. “Estou cumprindo os compromissos da campanha. O que elas pediram foi protagonismo em matérias importantes para o país”.

No auge da campanha, a ex-mulher de Lira, Jullyene Lins, com quem ele foi casado durante dez anos, acusou-o publicamente de agressão. Lira nega. As deputadas mantiveram o apoio ao candidato e reconhecem que o posicionamento foi importante. “É um assunto muito caro e foi tratado com transparência. Elas tomaram a frente disso. Acho que não foi determinante [como tema eleitoral] porque elas partiram para uma defesa espontânea do caso”, declara o presidente da Câmara. Outra aliada dele, a advogada eleitoral Maria Claudia Bucchianeri, que integrou a equipe jurídica de Lira, assume nesta quarta-feira 4 uma vaga no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O deputado foi o principal fiador do nome da advogada na Corte.

O protagonismo das aliadas ocorre em um momento em que as mulheres conquistam mais espaços na Câmara. A bancada feminina passou de 55 para 77 parlamentares na última eleição, 15% das cadeiras da Casa. Elas presidem sete das 25 comissões permanentes. Em 2019, eram três. Em 2020, os colegiados não funcionaram por causa da pandemia. A proporção ainda é baixa: apenas PSOL e Rede Sustentabilidade têm líderes mulheres, enquanto as outras 27 lideranças de partidos, blocos e governo são ocupadas por homens. Dos 33 partidos registrados no TSE, seis são presididos por mulheres. Segundo a cientista política Flavia Birolli, da Universidade de Brasília (UnB), o Brasil é um dos países com a menor representação de mulheres nos legislativos: “Apesar de serem cerca de 47% das pessoas filiadas aos partidos, elas têm dificuldades de encontrar espaço nesses mesmos partidos”.

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