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Roube um índio

Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2019, edição nº 2622

Nada como olhar com cuidado cada uma das partes de alguma coisa para ter uma ideia mais exata do todo. A máquina pública brasileira, como revelam quase todos os dias fatos trazidos à luz do Sol, transformou-se durante os treze anos e meio dos governos de Lula e de Dilma Rousseff no maior pesqueiro privado do mundo para o desfrute de ladrões do Erário — era chegar à beira da água, jogar o anzol e sair com uma refinaria para a Petrobras, uma hidrelétrica no Xingu ou mesmo um trem-bala, se você fosse uma empreiteira de obras amiga íntima do presidente da República como as Odebrecht, as OAS, as Andrade Gutierrez. Também podiam rolar duas dúzias de ambulâncias, lanchas para o Ministério da Pesca ou o patrocínio de um show de axé no interior do Nordeste. Roubaram-se sangue humano dos hospitais, leite das crianças nas escolas e sondas para encontrar petróleo no fundo do mar. Houve quadrilhas operando a toda na venda de livros didáticos ao Ministério da Educação, na entrega de recursos da “reforma agrária” a mais de 30 000 mortos (sem contar 1 000 políticos eleitos) ou na compra, com dinheiro dos fundos de pensão das estatais, de ações de empresas falidas. Pense, em resumo, numa insânia jamais cometida na história mundial da corrupção; haverá precedentes nos governos Lula-Dilma.

Muita gente não tem mais paciência nem tempo para ficar olhando de perto cada episódio da roubalheira desesperada dos três governos e meio do PT. Muito justo, até porque a tarefa seria impossível. Mas de tempos em tempos vale a pena ver de novo — ou, mais exatamente, vale a pena separar alguma ladroagem especialmente depravada, de todos os milhares que o cardápio Lula-Dilma oferece, e fazer uma espécie de análise clínica mais demorada da patologia que existe ali dentro. Isso contribui, como dito no começo, para o melhor entendimento do todo. A esquerda, no comando do arrastão mental que se pratica todo dia no Brasil, tenta passar ao público a alucinação de que o conjunto completo da corrupção no país se resume, no fundo, às sentenças que condenaram Lula (25 anos de cadeia no lombo, pela última conta) por recebimento de propina e lavagem de dinheiro. Como, no seu entender, “não há provas definitivas” da culpa do ex-presidente, não há, realmente, corrupção alguma. Aí dá curto-circuito. Quando você olha a rapina parte por parte, e faz a soma de tudo, tem certeza de que está vendo um avestruz. O PT diz que você está vendo uma galinha.

“Invente uma ‘política pública’. Diga que é ‘social’. E corra para o abraço”

Considere, por exemplo, uma das últimas demonstrações de demência praticadas pelo governo com o seu dinheiro, trazida a público, ainda outro dia, pelo novo ministro da Saúde. Dá para fazer ideia, aí, de onde foram amarrar o nosso burro. Segundo o ministro, o Brasil gasta por ano 1,4 bilhão de reais para cuidar da saúde dos índios. Esqueça se é muito ou pouco; pode até ser uma miséria, e talvez o governo devesse gastar o dobro, ou o triplo, ou quanto quisesse, nesse serviço. O que realmente acaba com qualquer discussão é que 650 milhões desse 1,4 bilhão vão direto para as ONGs a quem as autoridades entregam a tarefa de cuidar da saúde indígena. Cereja do bolo: desses 650, quase 500 — isso mesmo, quase 500 — vão para uma única ONG. Que tal? Os outros 700 milhões da verba total são consumidos com as despesas para a existência material do próprio programa: aluguel de helicópteros e carros para transporte de pessoal, gasto com isso, gasto com aquilo. Sabe-se muito bem, em suma, de onde o dinheiro sai: do seu bolso, a cada tostão de imposto que você paga. Sabe-se, também, para onde vai: para o bem-estar dos 13 000 agentes das ONGs envolvidas no esquema. Sabe-se definitivamente, enfim, para onde essa montanha de dinheiro não vai: para os índios propriamente ditos. Seus índices de saúde são os piores de toda a população brasileira. Eles não recebem remédios. Não têm acesso regular a exames clínicos. As taxas de mortalidade infantil entre os índios são três vezes superiores à média nacional.

Muito bem: multiplique agora essa calamidade por 1 000, ou por 10 000, ou sabe-se lá por quantas partes mais, e dará para perceber a dimensão delirante a que chegou o “todo” na transferência de recursos públicos para interesses privados neste país nos últimos anos. É a grande lição do manual de instruções que os governos petistas deixaram como herança. Invente uma “política pública” qualquer. Diga que ela é “social”. Pronto: é só correr para o abraço. Roubaram até remédio de índio, e exigem que o seu líder seja prêmio Nobel da Paz. É onde estamos.

Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2019, edição nº 2622

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