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PT lança candidatura de Padilha, o 3º poste de Lula

Ex-presidente Lula tenta repetir a fórmula vencedora nas eleições de Dilma Rousseff e Fernando Haddad e lança mais um neófito em eleições

Por Felipe Frazão - 14 jun 2014, 22h42

Governar o Estado de São Paulo é, declaradamente, uma obsessão para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1982, ainda na ditadura militar, ele foi o primeiro candidato do Partido dos Trabalhadores, então recém-fundado, ao Palácio dos Bandeirantes. O PT nunca atingiu o objetivo, e, há quase duas décadas, Lula amarga derrotas para os tucanos no Estado. Para tentar quebrar o domínio tucano, o PT oficializará neste domingo, mais uma vez pelas mãos de Lula, a candidatura do ex-ministro Alexandre Padilha (Saúde) ao governo paulista.

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Aos 42 anos, Padilha disputará uma eleição majoritária pela primeira vez em outubro – a exemplo dos candidatos inventados por Lula em 2010, a presidente Dilma Rousseff, e em 2012, o prefeito paulistano Fernando Haddad – o que lhe rendeu o apelido de “terceiro poste” de Lula. Na largada, o cenário não é animador: a última pesquisa de intenção de voto do Datafolha mostrou que os presidenciáveis de oposição Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) venceriam Dilma em um eventual segundo turno em São Paulo. Haddad, por sua vez, terminou seu primeiro ano de mandato com aprovação de apenas 18% dos paulistanos – à frente apenas dos ex-prefeitos Gilberto Kassab e Celso Pitta, ambos com 15% em igual período de avaliação.

A baixa popularidade de quem poderia figurar como cabo eleitoral de Padilha preocupa o comando da campanha. Ainda não se sabe qual será o papel de Haddad. A cúpula do PT paulista prevê um “período adverso” para o ex-ministro até que comecem as inserções e os programas no horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, o que só ocorrerá na segunda quinzena de agosto. Por enquanto, Padilha marca apenas 3% das intenções de voto – e deve permanecer sem guinadas significativas nas pesquisas até a propaganda ganhar o palanque eletrônico. O problema é que estrategistas de diferentes partidos preveem uma disputa equilibrada no tempo de exposição: entre 4 e 7 minutos para os três principais candidatos.

A seu favor, pesa o fato de ainda ser um candidato desconhecido (e, portanto, com potencial de crescimento) e com perfil mais carismático e descontraído, oposto ao de Dilma e de Haddad. O ex-ministro faz parte da tendência interna Construindo um Novo Brasil (CNB), a corrente majoritária que controla a sigla. Médico infectologista formado na Unicamp e pós-graduado na USP, Padilha ocupou cargos estratégicos na articulação política do governo Lula e chegou a comandar o Ministério das Relações Institucionais antes de ir para a pasta da Saúde no governo Dilma. A passagem pela pasta lhe rendeu proximidade com diversos prefeitos. Padilha também se mostra muito mais à vontade na costura de alianças políticas do que os correligionários escolhidos por Lula antes. No fim de maio, ele posou para fotos de mãos dadas com o deputado e mandachuva do PP paulista, Paulo Maluf, um histórico adversário do partido em São Paulo. Seguia à risca uma recomendação pragmática de Lula: formar alianças com o maior número de partidos à direita do PT e não buscar apoio apenas nos parceiros tradicionais da esquerda brasileira.

Mas essa estratégia de Lula ainda não vingou. Dois partidos da base de Dilma, PDT e Pros, fecharam com o pré-candidato do PMDB, Paulo Skaf, cuja candidatura foi formalizada em convenção neste sábado. Padilha conseguiu atrair para sua coligação apenas o PCdoB e o PP, de Maluf. As últimas cartadas do partido são para o PR, do mensaleiro Valdemar Costa Neto. A vaga de vice na chapa de Padilha segue aberta para composições. É um ativo fundamental, uma vez que o senador Eduardo Suplicy disputará – mais uma vez e à revelia de setores do PT – mais oito anos de mandato no Senado. Para piorar o cenário, o ex-prefeito Gilberto Kassab, cuja candidatura favoreceria a divisão de votos e poderia enfraquecer a liderança de Alckmin, demonstra disposição em abandonar o voo solo para ocupar o posto de candidato a vice-governador na chapa do tucano.

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‘Jeito tucano’ – Para tentar vencer a rejeição histórica ao PT no Estado, o próprio Lula também fez questão de dizer que Padilha “tem jeito de tucano” e por isso poderia agradar ao eleitorado mais conservador, sobretudo no interior paulista. O PT costuma obter seu melhor desempenho eleitoral em cidades periféricas das regiões metropolitanas de São Paulo (sobretudo no ABC) e de Campinas, no extremo oeste paulista e no Vale do Ribeira – áreas rurais e de baixo desenvolvimento econômico. Desde que deixou o primeiro escalão de Dilma, na primeira semana de fevereiro, Padilha percorreu 126 cidades do interior, em eventos de pré-campanha nos quais encontrou prefeitos, vereadores, empresários, líderes comunitários e representantes de entidades civis. Enquanto apresentava Padilha como postulante ao governo de São Paulo, o partido colhia demandas para construir o plano de governo. A caravana criada pelo Diretório Estadual do PT, porém, foi barrada na Justiça. Em meio às incursões, o Tribunal Regional Eleitoral suspendeu as visitas e aplicou multa de 50.000 reais no partido e no candidato por campanha antecipada. O esforço pareceu inócuo – Padilha tem os mesmos 3% de intenção de voto, após as visitas.

O petista se desgastou com a classe profissional ao importar médicos estrangeiros para os rincões do país – São Paulo recebeu mais de 2.100 profissionais, que passaram a atuar nos primeiros atendimentos da atenção básica de saúde. O programa Mais Médicos, principal marca de sua gestão ministerial e provável bandeira de campanha, foi criticado e boicotado pelo Conselhos Regionais de Medicina e pela Associação Médica Brasileira, que acusam o governo de agir de modo paliativo sem investir na estrutura do SUS e de expor pacientes a médicos não submetidos aos exames para revalidação do diploma obtido no exterior. No cerne dos questionamentos, está a leva de cubanos que desembarcaram no país e vivem tutelados e com remuneração menor que a dos demais integrantes do programa.

Padilha também ficou chamuscado em dois episódios recentes que vincularam o PT a crime. Ele começará a campanha fustigado por causa de André Vargas, o deputado paranaense flagrado em associação ao doleiro Alberto Youssef, preso sob suspeita de comandar um esquema de lavagem de dinheiro de 10 bilhões de reais. Em troca de mensagens interceptada pela Polícia Federal, Vargas avisa a Youssef que Padilha indicou um ex-assessor para trabalhar no laboratório Labogen, que pertence ao doleiro. Vargas e Youssef pretendiam fechar convênios com o Ministério da Saúde. Padilha negou qualquer relação com o caso. Passado o noticiário negativo do caso Labogen, Padilha se viu questionado sobre a condutado do deputado estadual petista Luiz Moura. Ex-assaltante e ex-presidiário, Moura foi flagrado por policiais em uma reunião com suspeitos de integrar a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Para preservar a campanha, o PT afastou o parlamentar do partido e pressiona por sua desfiliação.

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