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Pego na mentira

Witzel, candidato ao governo do Rio, quer distância de Azenha, que já defendeu traficante. Mas fotos e mensagens confirmam a amizade entre os dois

Por Mauricio Lima e Fernando Molica - 19 Oct 2018, 07h00

O advogado Wilson Witzel, de 50 anos, deu seu primeiríssimo passo na política em fevereiro deste ano, ao demitir-se do cargo de juiz federal e filiar-se ao PSC para concorrer ao governo do Rio de Janeiro. Pegou todo mundo de surpresa quando disparou na reta final e foi o vencedor do primeiro turno, com 41,28% dos votos válidos. Nestes vinte dias de campanha para a disputa decisiva com Eduardo Paes (DEM), Witzel continua na dianteira: a pesquisa Ibope de quarta-feira 17 o coloca com 60% das intenções de voto, contra 40% do adversário. Pouco ainda se sabe sobre ele, mas uma varredura em seu passado traz revelações que não lhe engrandecem a biografia. As amizades, por exemplo: VEJA teve acesso a fotos e mensagens que confirmam o estreito laço de Witzel com um colega causídico, Luiz Carlos Cavalcanti Azenha, de 43 anos, que já advogou para um dos maiores traficantes do Rio, o Nem da Rocinha.

arte sobre reprodução de mensagens via whatsapp Arte/VEJA

Foi em rota de fuga dentro do porta-malas do carro em que Azenha estava que a polícia encontrou e prendeu Antônio Bonfim Lopes, o Nem, em novembro de 2011. De acordo com os policiais, o industrioso advogado tentou suborná-los para livrar seu cliente. Por isso acabou condenado a dois anos em regime aberto, em 2012. O julgamento em segunda instância, na terça 16, aumentou a pena em um ano. Witzel, querendo tomar distância do amigo, afirma que mal o conhece. Já Azenha conta uma história bem diferente. Disse a VEJA que eles mantiveram durante anos uma relação profícua.

O ex-advogado de Nem afirma que, em nome da amizade, se tornou uma espécie de coordenador da campanha de Witzel quando ele era um aspirante ao governo de quem ninguém tinha ouvido falar. Pedia doações e organizava almoços e jantares. Em um deles, aparece em foto fazendo pose, sorridente, em família, com o então amigo. Mensagens trocadas por WhatsApp reforçam a relação de confiança entre os dois (veja reproduções ao lado). Numa delas, o candidato, chamado de “chefe” pelo interlocutor, diz estar em casa — “quando quiser venha”. Em outra, quando Azenha lamenta que Witzel tenha saído de uma festa antes de ouvir elogios à sua pessoa, ele responde: “Você me representa”. Há também referência a uma transação financeira. “Não vou depositar, pode passar aqui?”, pergunta o candidato do PSC. Azenha explicou a VEJA que estavam tratando de um pagamento pela assessoria que ele prestou a Witzel no primeiro semestre, quando o ex-juiz foi contratado por Hudson Braga, um ex-secretário do governador Luiz Fernando Pezão envolvido na Lava-Jato.

O material arquivado no celular de Azenha guarda também mensagem de voz em que Witzel pede a indicação de algum julgamento em que se pudesse facilitar a participação de uma amiga, como estagiária. “Um júri tranquilo, aí na Baixada, de repente”, sugere o candidato. As relações esfriaram quando Witzel viu crescer suas chances eleitorais. Azenha diz que ele bloqueou seu número no celular e, por terceiros, mandou um recado: “Que eu ficasse quieto, que depois a gente conversava e que me daria um cargo no governo”. O aceno não amenizou a mágoa do afastamento. “Quem não quer mais ser amigo dele sou eu”, desabafa Azenha, com a voz embargada.

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O advogado já havia manifestado sua decepção com o candidato em uma mensagem a um grupo de WhatsApp logo após o resultado do primeiro turno, publicada pela coluna Radar, de VEJA. Nela dizia estar proibido por Witzel de dar declarações depois de o levar a “todos os cantos do estado, acreditando nele”. No primeiro debate do segundo turno, indagado sobre os fatos contados por Azenha, o candidato garantiu que ele era um de seus 5 000 ex-alunos de direito e que as relações entre os dois não passavam disso. Na quarta-feira 17, a assessoria do PSC insistiu que os advogados só se encontraram em eventos públicos e que Azenha “não tem nenhuma participação na campanha”.

Outros fatos pouco abonadores do passado do candidato têm aparecido nos últimos dias. Uma dívida antiga de 87 172 reais com a ex-sogra, cobrada na Justiça, até hoje não foi quitada. A VEJA, o candidato afirmou haver feito um acordo para encerrar o processo, mas os advogados da credora negam que isso tenha acontecido. Em outro caso, Witzel atribuiu ao desleixo de um inquilino o atraso de anos no pagamento do IPTU de sua casa no Rio. Os registros da prefeitura mostram no entanto que os atrasos, renegociados neste ano, foram acumulados quando ele mesmo morava no imóvel. O jornal O Globo divulgou um vídeo em que Witzel, ainda em seus tempos de juiz federal, ensina “uma engenharia” para magistrados garantirem o recebimento de uma gratificação. Azenha, que mora na Barra da Tijuca, é casado e tem duas filhas, afirma ter assistido ao tal vídeo e condena: “Sinto vergonha da maneira como ele se comporta”. Diz que pretende limpar sua própria reputação recorrendo de sua condenação judicial, que atribui a uma perseguição do ex-governador Sérgio Cabral, preso e, por sua vez, condenado a mais de 100 anos de cadeia. “Por critérios técnicos serei inocentado.” Azenha garante que, qualquer que seja o resultado da eleição, manterá distância do ex-amigo Witzel. E fuzila: “Ele é pior que o Nem”.

Publicado em VEJA de 24 de outubro de 2018, edição nº 2605

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