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O teatro da política

É possível ter uma pista do que fará o próximo presidente?

Por André Lahóz Mendonça de Barros 5 out 2018, 07h00

Entre o carnaval de baboseiras que recebemos diariamente nas redes sociais, uma pequena pérola voltou a circular recentemente: uma entrevista de 1998 com o então candidato à Presidência da Venezuela Hugo Chávez, apenas um dia antes de sua primeira eleição. Nela, um jovem Chávez reafirma seu compromisso com a democracia e descarta, enfaticamente, a intenção de ficar além de seu período. Nega pretender nacionalizar algum meio de comunicação ou qualquer outra empresa — ao contrário, prega mais facilidades ao capital externo. Conclui dizendo que Cuba é inequivocamente uma ditadura, mas que não cabe a ele interferir numa nação estrangeira. “Não sou o Diabo”, diz, sorrindo para a câmera.

Chávez morreu em 2013, mas a destruição em seu país ainda está em curso. De 2013 a 2017, o PIB caiu 35%. Quase 60% das indústrias fecharam as portas. A pobreza extrema atinge 60% da população. A entrevista à rede Univision é uma lembrança de como a escolha eleitoral é feita em bases fluidas, e a mentira é, lamentavelmente, parte do jogo. O genial escritor Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura de 2010, fez uma rápida incursão política em 1990, ao tentar a Presidência do Peru. Falava sobre dias difíceis à frente. Levou uma lavada de outro novato, Alberto Fujimori, que prometia o paraíso na terra. (Fujimori foi condenado a 25 anos de prisão em 2009 e acaba de ter seu indulto anulado pela Justiça.) E nem precisamos ir tão longe: Dilma Rousseff foi eleita em 2014 negando a necessidade de um ajuste. O estelionato eleitoral ficou evidente no minuto seguinte ao fechamento das urnas.

Somos, afinal, seres racionais? A maioria dos economistas juraria que sim. Com base em estudos na microeconomia, o americano John Muth propôs, nos anos 60, a teoria das expectativas racionais, que depois revolucionaria a macroeconomia com o trabalho de Robert Lucas, prêmio Nobel de Economia de 1995. Tomamos decisões racionais usando o máximo de informação de que dispomos. Isso tem uma série de implicações, por exemplo, na política monetária. Não somos computadores, porém — nossa capacidade cognitiva é limitada, e por isso escolhemos o que levar em conta. Pior: as informações que usamos podem ser boas ou más — as fake news estão aí para complicar. E pesquisas mais recentes da neurociência sugerem que, quando o assunto é política, as emoções ganham fácil da racionalidade. Votamos com o coração — ou com o fígado. A razão justifica a escolha feita.

Se os candidatos de centro ficarem mesmo pelo caminho, iremos ao segundo turno com questões básicas em aberto. Num governo petista, o que será de Lula e José Dirceu? Quem vai mandar? Fernando Haddad vai ajustar a economia e promover novas reformas? Ou desfazer os poucos avanços que tivemos recentemente? No outro polo, qual o compromisso de Jair Bolsonaro, apologista da ditadura, com as regras do jogo? Entre CPMF, revolução na Previdência e privatização total, o que há de concreto nos planos do superministro Paulo Guedes? Como será a relação com o Congresso? Mistério. O Brasil está prestes a assinar um cheque em branco.

Publicado em VEJA de 10 de outubro de 2018, edição nº 2603

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