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Michelle usa sua influência para cortar asas políticas das ex de Bolsonaro

Se depender da primeira-dama, peça-chave da campanha eleitoral do marido, nem Rogéria nem Ana Cristina terão trânsito no Palácio do Planalto

Por Sofia Cerqueira, Caio Sartori Atualizado em 27 Maio 2022, 14h12 - Publicado em 27 Maio 2022, 06h00
BARREIRA - Michelle: ajudando na campanha de reeleição de Bolsonaro e atrapalhando as candidaturas das ex-mulheres -
BARREIRA - Michelle: ajudando na campanha de reeleição de Bolsonaro e atrapalhando as candidaturas das ex-mulheres – Sergio Lima/AFP

Capitão reformado fiel às raízes, Jair Bolsonaro todo ano batia ponto duas ou três vezes na sua alma mater, a Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no estado do Rio. Quando cumpria o roteiro completo, ia em fevereiro, para a recepção de novos cadetes, depois em agosto, na entrega de espadim — formalização da entrada na vida militar —, e, por fim, em dezembro, na entrega de espada, como é chamada a formatura. No início de 2018, meses antes de ser eleito presidente, ele cumpriu o ritual — só que, naquela oportunidade, com repercussões político-familiares que persistem até hoje. Como sempre fazia nas idas à cidade, visitou seu João e dona Cida, pais de Rogéria Bolsonaro, sua primeira mulher e mãe de seus três filhos políticos. Detalhe: estava então com a atual mulher, Michelle Bolsonaro. Rogéria não gostou e ligou para dizer que os pais não a recebessem, mas era tarde — o casal já havia chegado. Michelle soube da ligação. Criou-se tamanho mal-estar que ela pediu ao marido que vetasse a pretensão da ex de se candidatar a deputada federal, o que de fato aconteceu.

Passados quatro anos, a birra continua forte e reverberando no cenário eleitoral: ventilado como suplente do senador Romário (PL-RJ), que busca ser ungido novamente ao cargo neste ano, o nome de Rogéria foi mais uma vez atropelado pela intervenção de Michelle, que, segundo pessoas próximas à família, interveio e esfriou o movimento concebido pelo primogênito do presidente (e de Rogéria), o também senador Flávio Bolsonaro.

BRIGUENTA - Ana Cristina: tentando emplacar candidatura em outro partido -
BRIGUENTA - Ana Cristina: tentando emplacar candidatura em outro partido – Reprodução/Facebook

Não se pode dizer que a rixa seja inesperada, já que a convivência entre ex e atual mulher nem sempre é pacífica — e no caso de Bolsonaro elas são três. Discreta em público, mas cada vez mais atuante no projeto de reeleição do marido — ela acaba de se filiar ao PL e aparecerá no programa de TV do partido —, Michelle e a segunda ex do presidente, Ana Cristina Valle, tampouco se bicam. Ao contrário de Rogéria, que nunca cortou relações com o ex-marido, a belicosa Ana Cristina, pivô de uma separação conturbada e enrolada no esquema de rachadinha no gabinete do vereador Carlos Bolsonaro, se dá mal não só com Michelle, mas com o próprio Bolsonaro, enquanto busca uma carreira política. Em 2018, tentou ser deputada federal pelo Podemos, em vez do PSL, então partido da família. Obteve pouco mais de 4 500 votos.

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Neste ano, Ana Cristina fará nova incursão eleitoral, outra vez fora da nova legenda presidencial: concorrerá a deputada distrital pelo PP, em Brasília. “Foi um caminho natural, já que trabalha como assessora no meu gabinete há três anos. Ela tem vida própria”, desconversa a deputada federal Celina Leão, presidente regional do PP. Na verdade, Ana Cristina sabe que, na questão do apoio bolsonarista a suas ambições, o passado a condena. Ao se separarem, em 2007, ela registrou um boletim de ocorrência acusando Bolsonaro de ter furtado um cofre com dinheiro e joias que guardavam juntos (o caso foi arquivado). Naquele mesmo ano, incorreu na fúria de Michelle quando, de acordo com três pessoas do círculo do clã, procurou o ex para lançar maledicências e questionar a índole de sua nova parceira.

VETO - Rogéria: a pedido de Michelle, pode ser removida da suplência ao Senado -
VETO - Rogéria: a pedido de Michelle, pode ser removida da suplência ao Senado – Reprodução/Instagram

No que depender de Michelle, nem Rogéria nem Ana Cristina terão trânsito no Palácio do Planalto. “Como qualquer pessoa que tem ciúme em um relacionamento, ela não quer que o marido se envolva com as ex, ainda mais ex complicadas, que não querem perder o vínculo”, aponta um amigo falante. No caso de Rogéria, a primeira-­dama concluiu que a ideia de colocá-la na candidatura de Romário ao Senado até poderia fazer o ex-jogador se associar mais ao bolsonarismo, como planejava Flávio — o principal articulador do clã no Rio de Janeiro, seu berço político —, mas o efeito colateral seria Bolsonaro se empenhar em elegê-la. Inaceitável, portanto. Depois da chiadeira de Michelle, a tendência é que o PL ache outro nome para a chapa. “A última palavra é do senador Flávio Bolsonaro, e isso será resolvido dentro do prazo legal”, despista o presidente do partido no estado, o deputado federal Altineu Côrtes.

Se o eleitor levar em conta os resultados obtidos pelas duas ex-mulheres de Bolsonaro nas urnas até aqui, verá que os entreveros abalam o ambiente familiar, mas têm pouco impacto no jogo político. Vereadora vitoriosa em duas legislaturas na década de 90, Rogéria só acumulou derrotas depois que seus filhos assumiram o papel de herdeiros políticos do pai, a partir de 2000, com uma manobra digna de tragédia grega: naquele ano, Carlos, aos 17 anos, foi usado pelo patriarca para derrotar a própria mãe nas urnas e entrar na Câmara de Vereadores do Rio. Vinte anos mais tarde, no pleito de 2020, ela até voltou a sair candidata a vereadora pelo mesmo Republicanos de Carlos, mas, sem o apoio do presidente, amargou outro fracasso, enquanto o filho emplacava o sexto mandato. Bem-sucedida até aqui, não será tarefa fácil para Michelle manter as antecessoras tão longe nesta campanha. Como sabem todos aqueles que já tiveram relações estáveis e se separaram, ex-mulheres e ex-maridos são para sempre.

Publicado em VEJA de 1 de junho de 2022, edição nº 2791

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