Júlio Delgado no caminho do PT

Histórico algoz de petistas na Câmara, deputado do PSB concorre com o apoio do PSDB. Sua vitória deverá determinar também o realinhamento do PSB

Por Marcela Mattos - 1 fev 2015, 07h20

Era o final de 2005 e o Congresso Nacional fervilhava por causa do maior esquema de corrupção até então descoberto no país. As denúncias de pagamento de propina em troca de apoio ao governo do ex-presidente Lula levaram para o banco dos réus grandes líderes governistas, envolvidos até o pescoço no mensalão. Homem forte do governo e do PT, o ex-ministro José Dirceu viu a carreira política ruir ao enfrentar um processo no Conselho de Ética da Câmara, que definiu a sua cassação como um meio de “restaurar a dignidade e a credibilidade” da Casa. À frente do caso estava Júlio Delgado (PSB-MG), um deputado que, apesar de integrar a base, não estava disposto a ceder às pressões petistas.

Oito anos depois, e sem o episódio ter mudado o formato das articulações do Parlamento brasileiro, um outro deputado do PT conheceu o mesmo caminho – e novamente pelo esforço pessoal de Delgado, que não paralisou o processo de André Vargas (PR), o primeiro congressista flagrado e cassado pelo petrolão. Para fúria do PT, a insistência possibilitou a cassação de Vargas no final do ano passado.

Pelo histórico recente, não surpreende que Delgado, aos 49 anos, tenha se candidatado à presidência da Câmara com a bandeira de oposição ao governo. Adversário de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Arlindo Chinaglia (PT-SP), deputados cujos partidos são aliados do Palácio do Planalto, o socialista adotou como um dos motes de campanha a independência da Casa. Segundo ele, isso só é possível para o candidato que não seja ligado ao Executivo com ministérios ou cargos no governo – benefícios esses que, no passado, seu partido desfrutou.

Em seu quinto mandato, Delgado já foi um ferrenho defensor da aliança com o ex-presidente Lula no Congresso Nacional enquanto era líder do PPS, que à época apoiava o governo petista. Em 2004, com as movimentações da legenda para migrar para o campo da oposição, o parlamentar filiou-se ao governista PSB. Mesmo aliado do Planalto, adotou dura posição sobre o mensalão e foi contra a reeleição de Lula em 2006.

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Delgado também foi um dos principais entusiastas da decisão de Eduardo Campos de desembarcar do governo da presidente Dilma Rousseff e lançar candidatura própria à Presidência da República. Após a morte de Campos em um acidente aéreo, mergulhou em uma profunda tristeza e chegou a paralisar a campanha pela reeleição à Câmara dos Deputados. Aos mais próximos, dizia ter perdido “um irmão”. Decidiu carregar as propostas de Campos como uma crença ideológica – o que, agora, o coloca em uma posição de resistência interna contra um possível retorno do partido ao governo capitaneado pelo ex-ministro e senador Fernando Bezerra.

“O governo piorou. A Dilma pegou um legado triste dela mesmo. Ela deixou um governo que pegou do Lula muito pior para ela mesma. A posição de independência nos dá postura e condições para dar altivez ao Parlamento”, disse, fazendo referência à decisão do partido de não aceitar cargos ou acordos com o governo.

Delgado decidiu oficializar a candidatura à presidência da Câmara somente depois de o PSDB, com uma articulação liderada pelo amigo e conterrâneo Aécio Neves, confirmar o apoio da bancada tucana, formada por 54 deputados. Mas encontrou dentro do próprio PSDB um dos principais percalços da campanha: a debandada para o arco de apoio do adversário Eduardo Cunha. Sentindo-se traído e sem esconder a irritação com a movimentação dos tucanos, disparou telefonemas para Aécio, que fez com que o partido, a dois dias da disputa, reafirmasse o apoio ao socialista.

Outro tropeço durante a campanha foi a adesão do Solidariedade, partido do ex-pedetista Paulinho Pereira, à campanha de Eduardo Cunha. “Ele mora na minha casa, bebe da minha bebida e agora faz isso?”, esbravejou a um aliado. Mas o que mais causou indignação do candidato foram as declarações à imprensa de Márcio França, Secretário Nacional de Finanças do PSB e vice-governador de São Paulo, que descreveu sua candidatura como frágil. Delgado classificou a ação como fogo amigo e, desde o episódio, não conversa com França.

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Embora tenha a fama de “algoz de petistas” por causa da atuação no Conselho de Ética e enfrentado traições ao longo da campanha, Delgado é um deputado com trânsito entre parlamentares de diversos partidos – o que acontece em parte pelo jeito falastrão e também por encabeçar a organização do tradicional futebol semanal dos deputados. De 1999 até 2013, as terças-feiras passaram a ser um dia sagrado para os congressistas que jogam futebol. Eles se reuniam sempre às 21h, quando a sessão em plenário normalmente já tinha sido encerrada, e esticavam a noite com churrasco e cerveja. A socialização em campo é um dos principais argumentos para ele ter conseguido, na disputa de 2013 à presidência da Câmara, 165 votos sem ter feito campanha.

As partidas minguaram durante a gestão do presidente Henrique Alves (PMDB-RN), que saiu vitorioso na eleição, e no ano passado não houve nenhum jogo. A aliados, Delgado trata como “curioso” o fato de as sessões de terças-feiras passarem a acabar mais tarde na gestão do peemedebista. Na avaliação dele, a ação foi proposital.

Com o apoio de quatro partidos – PSDB, PPS e PV, além do PSB -, Delgado chega à eleição deste domingo com um potencial de 106 votos, número que torna difícil – mas não impossível, já que o voto é secreto – a sua passagem para o segundo turno. O socialista evita revelar quem apoiaria em uma eventual decisão sem a presença dele na urna de votação. O resultado da eleição será decisivo para o rumo que o PSB vai tomar daqui para frente.

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