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Irritado, Duque fala: ‘Não conheço Alberto Youssef’

Ex-diretor de Serviços da Petrobras se manteve durante boa parte do tempo calado na CPI. Mas acabou por perder a paciência e falou por quatro vezes

Por Gabriel Castro, de Brasília - 19 mar 2015, 13h33

Apontado pelas investigações da Operação Lava Jato como o grande elo entre o PT e o esquema de corrupção que sangrou os cofres da Petrobras, o ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque cumpriu durante boa parte do tempo a recomendação de seus advogados para permanecer calado em depoimento à CPI da Petrobras. Mas, diante dos questionamentos dos parlamentares durante quatro horas, acabou perdendo a paciência em alguns momentos – e falou. Duque se pronunciou para dizer que sua mulher não é parente do ex-ministro e mensaleiro condenado José Dirceu, seu padrinho na Petrobras. Também afirmou que ela não procurou o ex-presidente Lula pedindo sua liberação da cadeia e, em tom exaltado, reclamou que “não é Pedro Barusco”. Indagado pelo deputado Ivan Valente (PSOL-SP), Duque acabou na sequência expondo outra brecha: “Não conheço o senhor Youssef”, disse, sobre o doleiro-delator do petrolão. Valente emendou: “E o senhor Vaccari, o senhor conhece?”. A resposta foi reveladora: “Permanecerei calado”.

Nomeado por indicação do partido para o cargo na estatal, o ex-diretor se beneficiou de desvios milionários em parceria com o tesoureiro do PT, João Vaccari, segundo dados colhidos pela Lava Jato. O depoimento começou por volta das 10h30. Duque anunciou que não responderia a nenhuma pergunta. E de fato cumpriu o prometido na maior parte do tempo: não deu qualquer resposta sobre os crimes pelos quais é investigado. Mas acabou sucumbindo.

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Depois de ouvir provocações de parlamentares e ser chamado de “criminoso”, Duque acabou por se irritar e, desobedecendo a orientação do advogado, respondeu a duas perguntas feitas pelo deputado Izalci (PSDB-DF). Sobre a suspeita de que sua mulher seja parente de Dirceu, afirmou: “Basta olhar a árvore genealógica de um e de outro. Não tem nenhum parentesco”.

Depois, para tentar evitar que sua mulher fosse convocada para a CPI, respondeu outra pergunta e negou que ela tenha pedido ao ex-presidente Lula, por meio de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, que intercedesse pela libertação de Duque para evitar que o ex-diretor contasse o que sabe. “Minha esposa nunca esteve com o presidente Lula ou o senhor Okamotto. Não conhece e nunca conheceu”, afirmou o depoente.

Antes disso, uma das únicas afirmações espontâneas de Renato Duque surgiu quando, por engano, o deputado Altineu Côrtes (PR-RJ) o chamou de “Pedro Barusco” – o ex-gerente que atuava sob coordenação de Duque revelou a divisão da propina entre a dupla e o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto. Duque gesticulou enfaticamente e repetiu, exaltado: “Eu não sou Pedro Barusco”.

Sem perspectiva de obter explicações do ex-diretor, a oposição tentou convencê-lo a firmar um acordo de delação premiada para contar à Justiça o que sabe. “O senhor não tem vergonha de ter roubado o Brasil e vir aqui ficar calado?”, provocou o deputado Paulo Pereira da Silva (SD-SP). “Vossa senhoria vai ter no mínimo trinta anos de prisão a cumprir e a chance de ser protegido pelo PT é zero. Vossa senhoria tem família, tem parentes e tem amigos. Faça uma análise de consciência junto com seus advogados, se vale a pena esse ônus recair sobre seus ombros”, afirmou o líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP). O tucano citou o episódio do mensalão, que resultou em penas de mais de trinta anos de prisão para os operadores financeiros do esquema, enquanto os agentes políticos receberam sentenças muito mais brandas.

Já no final do depoimento, Duque também decidiu quebrar o silêncio para responder a questionamento se o seu filho trabalharia no exterior em uma empresa ligada à UTC Engenharia, cujo presidente, Ricardo Pessoa, está preso. “A empresa é muito maior do que a UTC. Meu filho é economista e foi recrutado como head hunter. Quando ele foi recrutado nos Estados Unidos, fiz uma consulta formal ao jurídico da Petrobras se haveria algum empecilho e a resposta foi não. Ele retornou ao Brasil depois de um ano e meio e algum tempo depois se retirou para montar o próprio negócio”, disse. Em seguida, foi pontual ao dizer que não tinha “nenhuma” relação com as atividades da Sete Brasil, companhia formada pela Petrobras e sócios privados para administrar o aluguel de sondas para o pré-sal.

Nas considerações finais da CPI, Duque rebateu as críticas em torno do custo de viajar até Brasília e permanecer calado. “Foi comunicado com antecedência que eu me manteria calado. Já era uma decisão tomada de acordo com a orientação do advogado e do meu direito constitucional”. O ex-diretor afirmou ainda que tem a “consciência tranquila” e “argumentos suficientes” para rebater as acusações que pesam contra ele, mas que aguarda outro momento para se defender. “Eu vou provar que meus bens são fruto do meu trabalho. Tenho 34 anos de companhia, tenho orgulho de ter sido diretor e lamento que a Petrobras esteja nessa situação. Não era para acontecer isso. Mas tudo tem seu tempo. Vou me defender na hora certa”, afirmou. A sessão foi encerrada após mais de quatro horas de audiência.

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