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Imprensa dos EUA vê Bolsonaro como reflexo no espelho de Trump

Nem mesmo a mídia conservadora perdoou as declarações de Bolsonaro contra as minorias e seu estilo de populista ultraconservador

Nem sempre interessada nas visitas de líderes de países em desenvolvimento, a imprensa americana tratou de dissecar o novo presidente conservador do Brasil durante sua visita a Washington, onde Jair Bolsonaro encontrou-se na terça-feira 19 com o americano Donald Trump na Casa Branca. As semelhanças na oratória e no estilo populista dos dois líderes chama tanto a atenção quanto os planos de ambos para as relações bilaterais.

O jornal The New York Times considerou o encontro dos líderes como um reflexo de espelho. “Como outros líderes autoritários recebidos pelo sr. Trump desde sua posse, o sr. Bolsonaro é um eco do presidente americano: um nacionalista orgulhoso cujo apelo populista vem, em parte, do seu uso do Twitter e de seu histórico de declarações brutas sobre as mulheres, os gays e os grupos indígenas”, informou.

O matutino americano fez menção à entrevista de Bolsonaro para a emissora de televisão Fox News, exibida no final da noite de segunda-feira 18, na qual, como habitualmente faz o líder americano, bateu duramente na imprensa, a quem culpou por tirar de contexto a suas declarações do passado contra os homossexuais, as mulheres, os índios e os quilombolas. “Não tenho nada contra homossexuais ou mulheres. Não sou xenófobo”, defendeu-se o presidente.

Nessa sua entrevista ao programa Fox News Night with Shannon Bream, Bolsonaro viu-se diante de um exemplo claro do que significa liberdade de imprensa nos Estados Unidos. A emissora ultraconservadora não interferiu na introdução nem nas perguntas duras da apresentadora ao presidente brasileiro. Bolsonaro foi apresentado desta maneira:

“O ultradireitista ex-capitão do Exército tem um longo passado de fazer comentários que são o oposto dos valores americanos, especialmente sobre a comunidade LGBTQ. Ele defendeu a violência contra brasileiros dessa comunidade e disse que preferia ver o filho morto num acidente a aparecer com um cara. ‘Para mim já teria morrido’. Mas é a relação sua e de sua família com policiais corruptos membros de gangues paramilitares que está nas manchetes do momento.”

Um perfil similar esteve exposto no portal do New York Times desde a segunda-feira. O vídeo “Como Trump, Bolsonaro do Brasil fala sem rodeios” o apresenta como um político proveniente dos quartéis que respalda a ditadura militar e a tortura e que, no passado, alegou que a mudança no país não viria pelo voto, mas de uma guerra civil. Seus discursos inflamados contra homossexuais, mulheres, indígenas e outras minorias foram reproduzidos, assim como foi destacado seu “sinal verde” para a flexibilização do porte e da posse de armas de fogo no país.

No artigo “Vergonha: enquanto Bolsonaro visita Trump, alguns brasileiros tuítam seu constrangimento”, de Anthony Faiola, o jornal The Washington Post mencionou a hashtag #BolsonaroenvergonhaBrasil como a mais comentada do dia. O texto inclui vários posts que viralizaram, entre os quais um que mostra o presidente brasileiro beijando os pés de Trump, e este  lhe dizendo para limpar de novo seus sapatos.

O mesmo Washington Post publicou nesta quarta-feira reportagem sobre a visita, na qual repetiu o codinome adquirido por Bolsonaro nos Estados Unidos – o “Trump dos Trópicos” – e destacou sua competição com o tom e o estilo do presidente americano.

“A exibição foi o exemplo mais recente da premiação de Trump aos relacionamentos pessoais e de até que ponto ele está disposto a trabalhar com aqueles que fazem coro a suas virtudes. E este renovado foco na onda crescente de homens fortes populistas que capturaram o apoio dos eleitores com admoestações rudes ao ‘politicamente correto’ e visões duras sobre a imigração”.

‘Fake news’

Em uma de suas reportagens sobre a visita do presidente brasileiro, a rede de televisão CNN destacou a expressão facial de satisfação de Trump quando Bolsonaro mencionou o termo “fake news” durante a entrevista de ambos aos jornalistas, nos jardins da Casa Branca. O brasileiro havia se apresentado como vítima da grande imprensa brasileira. “Fake news” é um dos termos favoritos do americano para atacar os meios de comunicação.

Você olha para as redes, você olha para os noticiários. Eu chamo de ‘fake news’. Tenho muito orgulho de ouvir o presidente usar o termo ‘fake news’”, disse Trump.

O jornal conservador Washington Examiner assinalou a eleição de Bolsonaro como uma “guinada agradável da atitude do Brasil em relação aos Estados Unidos e uma forte rejeição do socialismo em recuo na América Latina”. Também se valeu do apelido de Trump dos Trópicos”, mas qualificou Bolsonaro como “líder anticomunista que fez campanha com uma plataforma pró-América e que se tornou um parceiro-chave no esforço de derrubar o homem forte da Venezuela, Nicolás Maduro.

O Examiner não se ateve às declarações polêmicas do brasileiro. Mas destacou em sua cobertura, em especial, a declaração de Bolsonaro à Fox News sobre imigração – que, no dia seguinte, ele mesmo refutou e pediu desculpas por tê-la dito – e seu apoio à construção do muro entre os Estados Unidos e o México, uma das promessas de Trump a seu eleitorado ultraconservador.

“A grande maioria dos potenciais imigrantes não tem boas intenções ou não pretende fazer o melhor ou algo bom para o povo dos Estados Unidos”, afirmara o presidente brasileiro à Fox News. “Boa parte (dos imigrantes) tem boas intenções. A menor parte, não. Eu peço desculpas”, disse.