Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Governador usou máquina do estado para investigar suposta infidelidade

Mauro Carlesse, do Tocantins, ainda forjou um flagrante de drogas contra um desafeto

Por Letícia Casado, Hugo Marques Atualizado em 19 nov 2021, 16h10 - Publicado em 19 nov 2021, 06h00

Os eleitores do Tocantins não têm tido muito sucesso em escolher seus governantes. Desde 2006 nenhum dos eleitos conseguiu concluir o mandato. O último a entrar nessa lista foi Mauro Carlesse. No mês passado, o governador foi afastado por decisão do Superior Tribunal de Justiça, depois que a Polícia Federal descobriu que ele estava envolvido em múltiplas falcatruas. Carlesse foi apontado como chefe de uma quadrilha que desviou 44 milhões de reais dos cofres do estado. Em plena pandemia, os hospitais autorizados a atender o plano de saúde dos funcionários do estado eram instados a pagar propina. A negociação dos porcentuais era feita diretamente com o governador e o dinheiro arrecadado, usado, entre outros fins, para aumentar o já enorme patrimônio de sua família — nada que os tocantinenses já não tivessem testemunhado em administrações passadas. Dessa vez, porém, o nível das tramoias se superou.

VEJA teve acesso à íntegra do inquérito que levou ao afastamento do governador por 180 dias. Além das evidências mais do que contundentes de corrupção, a PF apurou que Carlesse usava o aparato estatal para outros fins. No terreno político, investigava e perseguia adversários. Foram colhidos indícios de que o governador estava por trás de uma investigação ilegal que foi feita contra o deputado Vicentinho Júnior (PL-TO). O parlamentar teve os telefones interceptados clandestinamente e as informações colhidas foram parar em um dossiê apócrifo. Mas foi na seara pessoal que Carlesse surpreendeu, ao colocar a polícia no rastro de um caso de traição envolvendo a primeira-dama, Fernanda Carlesse, 35 anos. A história começou em junho do ano passado, quando o promotor de eventos de rodeio Ernandes Araújo procurou os federais para pedir ajuda. Ele havia passado onze dias na cadeia, acusado de uso e tráfico de drogas. O rapaz, abatido e amedrontado, contou que tinha sido vítima de um flagrante forjado. Agentes sem mandado judicial e supostamente investigando uma denúncia anônima invadiram a casa dele e encontraram pacotes de cocaína escondidos. Ernandes foi algemado e preso em flagrante.

“NATÁLIA” - Welisson: o vaqueiro é o terceiro personagem do escândalo -
“NATÁLIA” - Welisson: o vaqueiro é o terceiro personagem do escândalo – ./Reprodução

Dias antes da operação policial, o promoter tinha sido apontado como autor de um vídeo postado na internet que revelava um caso amoroso entre a primeira-dama e o vaqueiro Welisson Barbosa de Souza. O vídeo mostrava fotos íntimas de Fernanda e cópias de mensagens que ela trocou durante um bom tempo com o suposto amante através de um aplicativo. Na agenda de contatos da primeira-­dama, Welisson era identificado como “Natália”. A PF, que já investigava o governador por outras denúncias, acrescentou mais essa ao rol — e, depois de meses de diligências, comprovou que o rapaz estava dizendo a verdade. Ele tinha mesmo sido vítima de uma baita armação. Os federais recuperaram imagens de câmeras de segurança que mostravam um carro a serviço do Departamento de Inteligência da polícia do Tocantins parado nas proximidades da casa de Ernandes às vésperas do flagrante. Também colheram provas de que a casa do promoter foi invadida no mesmo dia, certamente para “plantar” a droga. E nenhuma das autoridades estaduais conseguiu explicar de onde partiu a tal denúncia anônima. A PF apontou o governador como o mentor da trama.

“Fiquei na prisão e estou pagando por isso até hoje, psicologicamente e também na minha vida profissional. Não consigo arrumar um emprego, já que na minha ficha consta esse flagrante forjado”, diz Ernandes a VEJA. Ele conta que, desde que seu nome apareceu envolvido no caso da traição, sua vida virou um inferno. Amigo de Welisson, o suposto amante, o promoter, por causa disso, logo foi apontado como autor do vídeo, o que ele nega. A retaliação não tardou, primeiro com ameaças de todo tipo e, depois, com o tal flagrante. Com medo de ser morto, o promoter tenta ingressar no programa de proteção a testemunhas. “Minha vida sofreu uma tremenda reviravolta”, ressalta ele, o único dos personagens que, aparentemente, teve de mudar radicalmente sua rotina. O vaqueiro, que confirmou ao amigo o caso com a primeira-dama, continua morando com a esposa em Gurupi, no interior do estado. Procurado, ele não quis se manifestar.

ARMAÇÃO - Ernandes: ameaçado de morte por divulgar suposta traição, o promoter ficou preso durante onze dias -
ARMAÇÃO - Ernandes: ameaçado de morte por divulgar suposta traição, o promoter ficou preso durante onze dias – ./Reprodução

Mauro Carlesse, 61 anos, teve uma carreira meteórica. Antes de ingressar na política, presidiu o sindicato rural de Gurupi. Em 2014 elegeu-se deputado estadual e, quatro anos depois, quando ocupava a presidência da Assembleia Legislativa, o então governador Marcelo Miranda foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Carlesse assumiu interinamente o cargo. Em 2018 disputou o governo e foi eleito no primeiro turno. Afastado desde o dia 20 de outubro, ele e Fernanda continuam morando em Gurupi, em casas separadas. Mas o pior da turbulência teoricamente já passou. Na Assembleia há um pedido de impeachment e um requerimento para a criação de uma CPI. Mas nada que preocupe. Carlesse tem o apoio de 22 dos 24 deputados estaduais. Tranquilo, ele tem despachado com assessores na sede do seu partido, o PSL, enquanto se prepara para reassumir o cargo em abril. O único inconveniente é que desta vez, ao que tudo indica, sem a companhia da primeira-dama.

Publicado em VEJA de 24 de novembro de 2021, edição nº 2765

Continua após a publicidade

Publicidade