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Estranho nacionalismo

Por que Bolsonaro e seus apoiadores colocam o Brasil “acima de tudo” e vivem a desfraldar duas bandeiras estrangeiras — a dos EUA e a de Israel

É de Jorge Luis Borges a frase definitiva sobre os paradoxos do nacionalismo. O ensaio “O escritor argentino e a tradição”, uma crítica demolidora das correntes literárias nacionalistas e regionalistas, opõe-se à ideia de que a literatura nacional deveria privilegiar temas argentinos com esta inesquecível fórmula: “O culto argentino da cor local é um recente culto europeu que os nacionalistas deveriam recusar como forâneo”. Menos conhecida entre não ­especialistas é a operação que Borges realiza com a publicação do texto. Apresentado como conferência em 1951, “O escritor argentino e a tradição” é incluído na segunda edição (1956) do livro Discusión, cuja publicação original é de 1932, época em que Borges estava… escrevendo prólogos para intelectuais nacionalistas como Arturo Jauretche! Em uma operação tipicamente borgiana, o autor rasura de forma retrospectiva a proximidade que havia tido com correntes de pensamento regionalistas (na América Hispânica chamadas de criollistas), como se ela jamais houvesse existido. Entre a primeira edição do livro e a data da conferência ocorrera, claro, o fenômeno do peronismo, que cindiu o campo intelectual. O sentido dos termos “nacional” e “nacionalista” havia mudado na Argentina, e Borges e Jauretche jamais ocupariam de novo o mesmo lado da trincheira.

A história dos usos do nacionalismo na política brasileira pode ser entendida como um caso do paradoxo borgiano. Durante décadas, esquerda e direita coincidiram em algum tipo de retórica nacionalista. Na esquerda, ela se manifestou sob a égide do anti-imperialismo. Na direita, não tem sido incomum ver o apelo aos símbolos nacionais acompanhado da exaltação da ordem e da disciplina. Algo muda, no entanto, com a eleição de Jair Bolsonaro, o primeiro candidato em muito tempo a vencer uma eleição presidencial brasileira com uma retórica nacionalista de direita, ancorada na bandeira, no hino e no apelo a um coletivo de brasileiros supostamente ameaçados pela entrada de indesejáveis — uma notável operação em um país no qual menos de 0,5% da população nasceu no exterior.

“O lulismo alimenta uma base em que a retórica antiamericana alcança às vezes píncaros de paranoia”

Mas não é esse o fenômeno mais curioso do neonacionalismo bolsonarista, uma estranha articulação de patriotas que carregam e saúdam, incessantemente, a bandeira dos Estados Unidos e a de Israel. Até onde me lembro, o fato é inédito: uma coalizão política elege um presidente da República com referências constantes a símbolos de dois países estrangeiros. A explicação imediata, de que o petismo teria sido antiamericano e anti-israelense e que portanto o bolsonarismo, como reação ao petismo, se nutre da aproximação aos Estados Unidos e a Israel, não é exatamente equivocada. Mas ela peca por incompletude e falta de nuances. Afinal de contas, nos anos Lula viveram-se alguns dos melhores momentos da relação Brasil-­Estados Unidos, tanto comercial como diplomaticamente, tanto sob Bush como sob Obama. Da mesma forma, apesar de ter mantido a tradicional posição brasileira consoante com o direito internacional, que apenas reconhece o Estado de Israel dentro das fronteiras pré-1967 e entende a Cisjordânia e Jerusalém Oriental como território palestino ilegalmente ocupado, o Brasil de Lula não foi exatamente anti-israelense em sua política externa. Durante a década passada, mantiveram-se relações normais e amistosas com Israel. Sob Dilma, as relações entre o Brasil e esses dois países foram menos efusivas, em parte graças ao episódio de espionagem da NSA (que esteve longe de afetar apenas o Brasil), em parte devido à proverbial aversão de Dilma à diplomacia (que esteve longe de se limitar a Estados Unidos e Israel). Em todo caso, o petismo no poder nada teve de antiamericano ou anti-israelense em sua prática política.

Não se entende o petismo contra o qual se insurge o bolsonarismo sem entender a outra metade dessa estrutura, que completa uma operação que poderíamos caracterizar como um oximoro, a afirmação simultânea de dois polos opostos. O lulismo não apenas mantém relações excelentes com Estados Unidos e Israel enquanto governa. Ele também alimenta uma base em que a retórica antiamericana cumpre um papel permanente, alcançando às vezes píncaros de paranoia. O deputado Sibá Machado (PT-AC) falava das manifestações como uma “orquestração da CIA”, ecoando uma teoria segundo a qual milhões de brasileiros seriam peões em um xadrez secretamente manipulado alhures. Essa teoria conspiratória teve ampla circulação nas bases lulistas e voltou a repetir-se como explicação para a Operação Lava-Jato. Para blogs e perfis lulistas, tanto convictos como a soldo, e também para intelectuais como Marilena Chaui, palestras e cursos feitos por Sergio Moro nos Estados Unidos em entidades tão díspares como o Departamento de Estado e a faculdade de direito da Universidade Harvard seriam a pedra de toque conspiratória para explicar todas as complexidades da operação.

O oximoro lulista é a condição de possibilidade dessa patente contradição do neonacionalismo bolsonarista: um candidato vence as eleições com o slogan “Brasil acima de tudo” mas incentiva uma base obsessivamente pró-americana e pró-israelense, dissemina bandeiras desses dois países e chega ao vexaminoso ponto de juntar-se a uma multidão aos gritos de “USA! USA!” enquanto presta continência à bandeira estrangeira. Como em todos os outros componentes do bolsonarismo, trata-se de ouriçar uma base antipetista e capitalizar com o desgaste do PT. O jogo é para consumo interno, claro, mas os perigos externos dessa retórica são evidentes. Ao se alinhar com os Estados Unidos em uma guerra comercial contra a China, o Brasil pode criar atritos com seu maior parceiro comercial. Ao submeter-se tão servilmente a Trump, o bolsonarismo também faz uma aposta arriscada, porque a reeleição de Trump está bem longe de ser uma garantia. Os custos dessa escolha podem vir a galope caso os Estados Unidos elejam um governo de centro-esquerda em 2020.

No caso israelense, a ausência de qualquer interesse brasileiro nesse alinhamento automático é ainda mais evidente. Benjamin Netanyahu está sob investigação por corrupção e não é exatamente uma figura com muitos amigos entre os chefes de Estado democráticos. Nenhum país relevante acompanhou os Estados Unidos na mudança da embaixada para Jerusalém, cidade cujo lado oriental está ilegalmente ocupado por Israel segundo a ONU e o direito internacional. O bolsonarismo retira o Brasil da posição de interlocutor equânime de israelenses e palestinos e se junta a uma posição extremista, com pouca tração na diplomacia internacional. Para piorar, põe em risco um abundante comércio com os países árabes e, no limite, pode colocar o Brasil em um roteiro que ele nunca habitou, o dos ataques do terrorismo wahabista. As idas e vindas de Bolsonaro no tema da embaixada brasileira em Israel mostram quão inábil é o presidente no complexo jogo diplomático internacional. Essa inépcia, combinada com o arriscado bate-bumbo extremista para consumo interno, pode vir a nos custar caro.

* Idelber Avelar é ensaísta e professor de literatura latino-americana da Universidade Tulane, em Nova Orleans

Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2019, edição nº 2618

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