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Durante a ditadura, 1.196 pessoas foram mortas no campo

Maioria dos casos aconteceu no período de abertura do regime militar, segundo Secretaria dos Direitos Humanos. Só 29 casos foram reconhecidos até agora

Relatório da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) divulgado na quarta-feira afirma que 1.196 camponeses foram assassinados ou desapareceram em disputas no campo, entre setembro de 1961 e outubro de 1988, período que compreende a ditadura militar (1964-1985) e parte da Presidência de José Sarney. As informações são da Agência Brasil.

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Segundo a SDH, apenas 51 casos desses casos foram analisados até agora pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP). E destes, apenas 29 tiveram a causa da morte relacionada à questão política. Por enquanto ainda estão de fora os outros 1.145 casos. Segundo o relatório, 177 desses assassinatos foram cometidos por agentes do estado. O restante (85% dos casos) foi cometido por “agentes privados”, milícias e pistoleiros contratados.

Mais da metade dos crimes ocorreu durante o regime militar. Foram 756 assassinatos entre 1964 e 1985. A maioria desses assassinatos (432 casos), no entanto, não ocorreu no auge da repressão, mas entre 1979 e 1985, época da abertura política do regime.

Outros 436 assassinatos foram registrados entre março de 1985 e 1988, quando já havia ocorrido a transição civil durante o governo José Sarney. Segundo o relatório, o aumento da violência no campo a partir da distensão tem relação com a organização política dos camponeses, que passaram a se unir em grupos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Apesar do perfil dos crimes, quase todos cometidos por pistoleiros não ligados ao estado e movidos por lutas que envolviam terra, os autores do estudo afirmam que muitas vezes o estado contribuia para o clima de violência, ao agir com cumplicidade, omissão e acobertamento de crimes.

Segundo Gilney Viana, assessor da ministra-chefe da SDH, Maria do Rosário, o número de mortes contraria a tese de que a ditadura militar no Brasil foi “branda” em comparação com países vizinhos. “Aqui morreu mais gente que no Uruguai”, disse.

No período, os estados que registraram o maior número de pessoas assassinadas foram o Pará, com 342 mortes; o Maranhão, com 149; a Bahia, com 126 mortes; e Pernambuco, 86. Cerca de 96% das vítimas eram homens. No período analisado no estudo, os pesquisadores classificaram 463 vítimas como sendo “lideranças de lutas coletivas”. Outros 75 eram sindicalistas; 14, advogados; e sete, religiosos. O documento mostra que apenas um em cada quatro crimes resultou na abertura de inquérito policial. E destes, apenas 5% tiveram algum desfecho judicial, condenatório ou não.