Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Dilma instala Comissão da Verdade e nega revanchismo

Presidente chorou ao falar sobre grupo que vai apurar crimes cometidos durante a ditadura. Simbolismo foi marcado pela presença de ex-presidentes, além de parentes de desaparecidos; mesmo assim, quatro fileiras de cadeiras foram recolhidas às pressas por falta de público

A presidente Dilma Rousseff empossou nesta quarta-feira, em Brasília, os sete integrantes da Comissão Nacional da Verdade, grupo de trabalho que irá apurar violações de direitos humanos durante a ditadura militar, entre os anos de 1946 e 1988. Com voz embargada, a presidente negou que o colegiado busque “revanchismo” ou a possibilidade de “reescrever a história”. Ex-integrante da organização clandestina VAR-Palmares, a presidente se emocionou ao relembrar os “sacrifícios humanos irreparáveis” daqueles que lutaram pela redemocratização do país, mas reconheceu a importância da Lei da Anistia, de 1979, que trouxe o Brasil de volta aos governos democráticos. “São 28 benditos anos de regime democrático”, salientou.

“Ao instalar a Comissão Nacional da Verdade não nos move o revanchismo, o ódio ou o desejo de reescrever a história de forma diferente do que aconteceu, e sim a necessidade imperiosa de conhecê-la em sua plenitude, sem ocultamentos, sem vetos. É a celebração da transparência da verdade de uma nação que vem trilhando um caminho da democracia. O Brasil deve render homenagens a mulheres e homens que lutaram pela revelação da verdade histórica. O direito à verdade é tão sagrado quanto o direito de famílias de prantear pelos seus entes queridos”, resumiu Dilma. “Reverencio os que lutaram contra a truculência ilegal do estado e também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”, disse ela.

“A ignorância sobre a história não pacifica. Pelo contrário, mantêm latentes mágoas e rancores. A desinformação não ajuda a apaziguar. O Brasil merece a verdade, as novas gerações merecem a verdade, merecem a verdade factual também aqueles que perderam amigos e parentes. O Brasil não pode se furtar a conhecer a totalidade de sua história. Se tem filhos sem pais, túmulos sem corpos, nunca pode existir uma história sem voz”, disse a presidente.

A Comissão Nacional da Verdade será composta pelo ex-procurador-geral da República, Claudio Fonteles, pelo ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Gilson Dipp, pelo ex-ministro da Justiça, José Carlos Dias, pela psicanalista Maria Rita Kehl, pelo advogado José Paulo Cavalcanti Filho, pelo diplomata Paulo Sergio Pinheiro e pela advogada Rosa Maria Cardoso da Cunha, que chegou a defender Dilma durante os anos de ditadura. Ao comentar a escolha do grupo, a presidente negou ter utilizado critérios pessoais e garantiu liberdade de investigação ao recém-empossado grupo.

“Ao convidar os sete brasileiros que aqui estão não fui movida por critérios pessoais ou avaliações subjetivas. Escolhi um grupo plural de cidadãs e cidadãos de reconhecida sabedoria e competência, sensatos e ponderados e preocupados com a justiça, capazes de entender o trabalho que vão executar, trabalho que vão exercer com toda liberdade, sem qualquer interferência do governo, mas com todo o apoio que necessitarem”, relatou a presidente.

Clima – O simbolismo da cerimônia de instalação da Comissão da Verdade foi marcado pela presença dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor e José Sarney, além de parentes de desaparecidos políticos e dos ex-ministros da Justiça Fernando Lyra, Aloysio Nunes Ferreira, Renan Calheiros e José Carlos Dias, este último integrante do colegiado que irá apurar os abusos cometidos durante os anos de exceção.

Também estavam presentes ex-guerrilheiros, como José Genoino, e o ex-ministro da Casa Civil e deputado cassado, José Dirceu, além dos três comandantes das Forças Armadas. Réus do mensalão, Genoino e Dirceu se acomodaram a poucos metros do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que será responsável pela acusação de ambos e de mais 36 réus acusados de participar do esquema de compra de apoio parlamentar no governo Lula – o maior escândalo da gestão do petista, padrinho político da presidente Dilma.

Apesar da importância da solenidade, quatro fileiras de cadeiras tiveram de ser recolhidas às pressas do salão da cerimônia por falta de público.

A presidente Dilma Rousseff desceu a rampa de acesso à solenidade ao lado de Fernando Henrique e de Lula, embora os ex-presidentes Fernando Collor e José Sarney também tenham se encontrado previamente com ela antes da posse dos integrantes da Comissão da Verdade. Em alguns momentos na descida ao Salão Nobre do Planalto, Dilma amparou o ex-presidente Lula.

Na tribuna de honra, Collor foi alojado ao lado do coordenador da Comissão, ministro Gilson Dipp. Sarney se acomodou ao lado de Lula. Após a cerimônia, Dilma homenageou os quatro ex-presidentes com um almoço no Palácio da Alvorada.