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Deputados tucanos já não defendem mais voto distrital puro

Bruno Araújo, novo líder do PSDB na Câmara, quer "bandeiras claras", mas, na contramão, diz que bancada desistiu de ponto de honra da reforma política

Por Gabriel Castro 27 dez 2011, 10h05

“O PSDB defendeu o voto distrital como defendeu o parlamentarismo. No momento em que veio o plebiscito que derrotou o parlamentarismo, o partido se rendeu ao sistema da maioria”

O advogado e deputado federal pernambucano Bruno Araújo assumirá em 2012 a liderança do PSDB na Câmara, no lugar de Duarte Nogueira (SP). Aos 39 anos, o novo comandante dos 50 tucanos da Casa foi candidato único ao posto e deixou para trás uma aspiração: a de disputar a prefeitura do Recife em 2012.

Em entrevista ao site de VEJA, o parlamentar defende que o partido tenha “bandeiras mais claras”, mas, na contramão, informa que a bancada desistiu de um ponto de honra do partido na reforma política: a implantação do voto distrital puro. A defesa do sistema eleitoral é mencionada no estatuto do PSDB, mas foi ignorada pelos deputados.

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O líder tucano acredita que a reforma política só sairá do papel quando houver uma disposição do Executivo para que isso aconteça. Algo que ainda não aconteceu. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao site de VEJA.

A oposição na Câmara nunca foi tão pequena quanto agora. É possível ter qualidade com tão poucos parlamentares? Do ponto de vista quantitativo, temos uma representação modesta, uma das menores na nossa história recente. Mas nós temos suprido isso com a qualidade da bancada. O maior exemplo disso a própria VEJA publica nesta semana: no ranking com trinta deputados que tiveram uma atuação importante na modernização do país, quinze são do PSDB. Isso vem ao encontro do que eu tenho dito: vamos superar as dificuldades trazidas pelo nosso tamanho no Congresso com a qualidade da bancada.

Quais serão as bandeiras da bancada em 2012? Eu utilizaria uma frase do estadista tcheco Vaclav Havel, que morreu na semana passada: não podemos aceitar a mentira oficial. Por exemplo, no aspecto macroeconômico, as expectativas que o governo procura gerar para o ano que vem são menores do que as do mercado e as da grande maioria dos economistas. Nós temos uma crise que se instalou na Europa. Ela não atravessou por completo o Oceano Atlântico, mas está vindo em nossa direção. Vamos ter o papel de cobrar medidas que atenuem essa crise. O governo deve passar menos tempo fazendo o discurso do otimismo.

A reforma política vai ser prioridade do PSDB no próximo ano? A história mostrou que nenhuma das reformas estruturais de estado desde a Constituição de 1988 foi operada dentro do Congresso sem participação clara do presidente da República. Enquanto o Planalto não assumir posições claras sobre a reforma política, o tratamento desse assunto no Congresso Nacional é um engodo. É apenas ocupar uma pauta e tempo sem a devida decisão política de fazê-la. Quando o Executivo não participa, é difícil construir um entendimento para que isso avance.

O partido pode rever a defesa do voto distrital puro? Ficou claro ao longo desse ano, dentro de um levantamento da bancada, que os deputados se afastaram muito do sistema puro. O PSDB não tem mais, na sua representação da bancada federal, uma grande participação do sistema distrital puro, nem é, na sua maioria, a favor sistema proporcional puro. A maioria da bancada tem um entendimento pelo sistema distrital misto.

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Então houve uma mudança de posição? Isso não é uma posição oficial. Mas é nítido que a bancada se afastou dos extremos. A bancada está muito distante do atual modelo proporcional e está distante do modelo empírico posto na origem do partido. É bom lembrar que, na origem do partido, o PSDB defendeu o voto distrital como defendeu o parlamentarismo. No momento em que veio o plebiscito que derrotou o parlamentarismo, o PSDB se rendeu ao sistema da maioria e essa é uma bandeira que deixou de ser prioritária.

Mas o estatuto do partido menciona a defesa do voto distrital puro. Acho que há uma adequação ao tempo. A percepção hoje é que a bancada federal tem uma linha no sentido de termos um sistema distrital misto.

Há consenso sobre o financiamento público de campanha? Eu diria que o financiamento público tem uma sinalização majoritária dentro da bancada.

Contrária ou a favor? A favor. Mas essas são temáticas que, em determinado momento, seguramente o presidente Sérgio Guerra deve consolidá-las como uma posição do PSDB, ouvindo as instâncias necessárias para isso: a bancada na Câmara, no Senado e a Executiva Nacional.

O senhor acha que a economia vai ocupar a agenda do Congresso depois de um ano marcado por escândalos de corrupção? A agenda do Congresso no início do ano vai estar pautada com a discussão do novo fundo da previdência do servidor público federal; e, seguramente, a agenda de 2012 terá muito de seu tempo na discussão dos reflexos da crise mundial sobre a nossa economia.

A corrupção vai perder o espaço na agenda? Isso é o que o Brasil inteiro gostaria de ver. Mas nós vamos, com muito mais ênfase, lembrar que a caneta que tem demitido é a mesma que nomeou. O governo tem de assumir mais responsabilidade sobre as indicações. A chamada ‘faxina’ tem origem dentro do mesmo governo que tentou ao longo do tempo botar essa sujeira para baixo do tapete.

O senhor toma partido na disputa entre as alas paulista e mineira do PSDB? Não temos nem PSDB do A nem PSDB do B. Temos um único PSDB. O que muitos acham que é uma dificuldade para o partido é fruto da rica formação de lideranças que o PSDB tem. Nós temos algumas alternativas de liderança postas para 2014, que não passam só por Minas ou por São Paulo. Mas não interessa nem a essas lideranças nem ao PSDB que haja uma definição disso em 2012. Minas e São Paulo são dois dos estados onde nós temos as maiores representações da nossa bancada, e esses estados continuarão tendo um papel fundamental na construção desse PSDB que, hoje, é sobretudo um partido nacional.

A escolha do senhor para a liderança da bancada é um prêmio de consolação, já que o senhor não conseguiu disputar a prefeitura do Recife? Desde maio havia um processo de construção dentro da bancada do meu nome como uma alternativa, o que se confirmou ao final desse ano. No Recife eu quis apenas contribuir com as alternativas que a oposição pudesse ter, mas todos que conhecem minha atuação em Pernambuco sabem que eu tive nesses cinco anos de mandato federal um total envolvimento com uma política nacional, tendo participado pouco das discussões locais do Recife.

Mas o senhor chegou a apresentar-se como pré-candidato. Coloquei o meu nome sim. Mas quando houve uma sinalização objetiva da bancada pelo meu nome como líder na Câmara, expliquei localmente que havia um compromisso anterior assumido com a bancada nacional. É uma missão para a qual eu vou com absoluta consciência do prestígio e da responsabilidade que ela empresta. Nossa bancada em Brasília sabia que os movimentos que eu fazia no Recife eram no sentido de oferecer uma alternativa local.

O senhor concorda com os colegas de partido que criticam a falta de bandeiras mais claras ao PSDB? Eu tenho repetido que o PSDB, mais do que um partido de oposição, tem de ser um partido de posição. Isso me leva a concordar substancialmente com parte desses colegas.

E quais são as bandeiras que o partido deve assumir? O partido tem, sobretudo, de não ficar vinculado a pautas do Executivo. Depois, o PSDB precisa se ligar a temas sociais de interesse objetivo da população. Três: o PSDB tem de assumir com muita firmeza os seus acertos, mostrar que, quando esteve no poder, teve coragem de fazer reformas estruturais e de estado relevantes. E precisa cobrar que o atual governo comece a assumir a responsabilidade de dar sequência a algumas reformas.

O senhor é da ala que defende a chamada oposição propositiva, que evita o confronto? Temos que ter uma oposição que ofereça com clareza ao Brasil as nossas ideias sobre os mais diversos temas. Que nós não estejamos só pautados pela rotina do que chega ao Congresso Nacional, mas possamos ter iniciativa sobre temas importantes do país que não estão em discussão e que podem ser levados pelo PSDB à pauta política.

Mais do que uma tática da oposição, isso é uma estratégia para a disputa de 2014? O eleitor brasileiro não vai ficar sentado esperando pelo PSDB em 2014. O nosso tamanho em 2014 será fruto do nosso trabalho político até lá, no sentido de convencer o eleitor brasileiro que nós somos a principal alternativa no momento em que houver a alternância de poder no país.

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